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Os melhores filmes de 2015, por Rui Alves de Sousa

Texto: RUI ALVES DE SOUSA

Desde o regresso de autores consagrados à descoberta de novos cineastas, 2015 deixa um punhado de filmes que vão ficar guardados na nossa memória.

2015 foi marcado pela estreia discreta, em Portugal, dos derradeiros filmes de Hayao Miyazaki e Isao Takahata. Dois nomes lendários do cinema de animação, dois ícones dos estúdios Ghibli, que nos deixam belíssimos “testamentos” – sendo que o de Miyazaki, mais belo e consistente, figura no topo desta lista. No campo dos “bonecos” vale a pena ainda destacar Divertida-Mente, um filme maravilhoso e uma das grandes conquistas da Pixar – porque toca a miúdos e graúdos e recupera a consistência narrativa e psicológica que faltou nos últimos filmes desses estúdios.

2015 foi também o ano em que se comemorou o 70.º aniversário do fim da II Guerra Mundial. E em termos de estreias, de filmes ficcionais e documentais, ficámos muito bem servidos. Destaque nesta lista para Phoenix, drama fortíssimo sobre os fantasmas do holocausto e a forma como as relações humanas são afetadas pelos horrores da guerra. No campo do “real”, vale a pena descobrir o magnífico O Último dos Injustos, documentário perturbante de Claude Lanzmann (o mesmo que assinou o monumental Shoah), que não precisa de imagens dos campos ou das vítimas do nazismo para nos marcar: bastam as histórias do protagonista, Benjamin Murmelstein (em entrevistas gravadas em 1975), que se cruzam com as visitas de Lanzmann aos locais mencionados (numa “odisseia” feita em 2012), para conseguirmos entender, de uma maneira avassaladora, o funcionamento da cidade de Theresienstadt, campo de concentração disfarçado de “gueto-modelo”, utilizado pelos nazis para iludir o mundo sobre as suas intenções. Murmelstein foi o último decano dessa cidade, e todo o seu percurso é analisado e discutido pelo próprio.

Há ainda que assinalar que, em 2015, assistimos a grandes manifestos políticos no cinema. Quer no premiado Táxi de Jafar Panahi, por exemplo, numa interessante crítica ao pensamento e quotidiano de várias figuras-tipo da sociedade iraniana, passando também por Gett, incrível courtroom drama como há muito não víamos em cinema, uma narrativa de grande simplicidade (que consegue belos resultados), sobre uma cultura preconceituosa (uma reflexão bem mais conseguida que outras, como o sobrevalorizado Timbuktu). E Leviatã, enorme “bofetada” à corrupção e à falta de valores na sociedade moderna, dominada pelo poder do dinheiro e das influências, foi uma grande surpresa com repercussões mundiais, tendo uma história cujo sentido filosófico, infelizmente, se adequa a todos os cantos do planeta.

Houve outros grandes momentos de cinema em 2015: de Itália chegou até nós, neste último mês do ano, o mais recente filme de Nanni Moretti, Minha Mãe. É uma homenagem à figura materna, vista pela filha – realizadora ocupada que não sabe bem lidar com a situação de decadência em que a sua mãe se encontra. A melhor interpretação do ano está aqui, graças a um excecional trabalho de Margherita Buy. E nas outras entradas americanas da minha lista, há Love & Mercy, surpreendente retrato da criatividade problemática de Brian Wilson, e também Um Ano Muito Violento, um brilhante regresso aos clássicos filmes de crime dos anos 70 pela mão do realizador J.C. Chandor. Destaco também Whiplash – filme que, apesar de poder ser criticado pela sua falta de “realismo” no que diz respeito ao método do protagonista (e do seu terrível tutor), possui uma energia à qual não conseguimos ficar indiferentes. Uma energia que se apodera do espectador e o leva a seguir, a par e passo, o percurso de um jovem aprendiz de génio.

Uma nota final: continuamos a lançar filmes com enormes atrasos em relação ao resto da Europa e da América. Quando é que as distribuidoras entenderão que estrear filmes de 2013 em 2015 (como o de Miyazaki e o de Lanzmann) não pode ser uma boa estratégia? É por isso que este não é bem um top de 2015, mas de tudo o que, não sendo desse ano, estreou só agora oficialmente entre nós (e pelo que tenho visto, em 2016 a situação repetir-se-á novamente). Numa época em que a informação circula velozmente, em que casos como os screeners dos Óscares se repetem ano após ano, e em que certos filmes são lançados nas plataformas online muito antes de chegarem às salas portuguesas (prejudicando o seu possível mercado)… como é que será possível conciliar o público com o cinema visto na sala escura? É um problema (cuja causa se encontra apenas no desequilíbrio das distribuidoras) que gostaria de ver resolvido no próximo ano. Até lá, boas festas!

1. – “As Asas do Vento”, de Hayao Miyazaki
2. – “Divertida-Mente”, de Pete Docter e Ronnie del Carmen
3. – “Phoenix”, de Christian Petzold
4. – “Love & Mercy – A Força de um Génio”, de Bill Pohlad
5. – “Leviatã”, de Andrei Zvyagintsev
6. – “Minha Mãe”, de Nanni Moretti
7. – “Um Ano Muito Violento”, de J.C. Chandor
8. – “Whiplash – Nos Limites”, de Damien Chazelle
9. – “O Último dos Injustos”, de Claude Lanzmann
10. – “Gett: O Processo de Viviane Amsalem”, de Shlomi Elkabetz

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1 Comment on Os melhores filmes de 2015, por Rui Alves de Sousa

  1. “Divertida-Mente”: 5*

    Estava reticente acerca de “Divertida-Mente” pois é um filme de animação e já não sou muito fã, mas surpreendeu-me pela positiva.
    Este filme é fantástico e recomendo que vejam “Inside Out”, pois tem uma maravilhosa história e mexe com os nossos sentimentos.

    Cumprimentos, Frederico Daniel.

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