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Companheiros de sempre

Texto: NUNO CARVALHO

Em “45 Anos”, Charlotte Rampling e Tom Courtenay interpretam um casal reformado que se vê obrigado a lidar com segredos do passado. O filme acaba de ter edição em DVD, pela Alambique.

Não fosse a estreia por cá ter calhado no último dia do ano e 45 Anos, de Andrew Haigh (Weekend), teria decerto figurado nas listas dos melhores de 2015. Trata-se de um filme maduro, contido e de um verismo impressionante. De resto, para esse efeito de realismo muito contribuem as excelentes interpretações de Charlotte Rampling (que é já falada como potencial candidata a uma nomeação para o Óscar) e de Tom Courtenay. Aliás, ambos ganharam o Urso de Prata para melhores atores na mais recente edição do Festival de Berlim. E, quanto a Rampling, pode mesmo dizer-se que este é um dos mais altos momentos, se não mesmo o paroxismo, da sua carreira de 50 anos no cinema. Ela que já trabalhou com grandes nomes da sétima arte como Sidney Lumet, Alan Parker, Woody Allen, Lars von Trier, François Ozon ou Luchino Visconti.

Baseado num conto de David Constantine, o filme acompanha a semana de preparativos para a cerimónia do 45.º aniversário de casamento de Kate (Rampling) e Geoff (Courtenay). Reformados e a viver numa casa de campo no leste de Inglaterra (ela foi professora e ele gestor numa fábrica), preparam-se para celebrar a sua longa caminhada lado a lado quando Geoff recebe uma carta da Suíça a dar conta de que foi descoberto num glaciar, após 50 anos, o corpo congelado de Katya, uma antiga namorada, que morreu num acidente. Kate tem conhecimento da história, mas começa a deixar-se atormentar pelo “fantasma” de Katya e a interrogar-se sobre a forma como poderá ter condicionado a história de vida com o marido. Será que Geoff a amou com o mesmo amor e intensidade que devotou a Katya? A sua história de 45 anos teria sequer existido se Katya não tivesse morrido?

Através de uma história simples e extremamente realista, que se centra essencialmente nos pequenos gestos e na intensidade dos diálogos (apesar de se passar pouca coisa em termos de ação convencional, muito se passa e se joga no plano psicológico), 45 Anos suscita algumas reflexões sobre os limites da intimidade, nomeadamente a de saber até que ponto o outro é transparente e “íntimo”, e até que ponto também não será utópico pensar-se numa relação sem segredos, tendo em conta que nunca dizemos tudo, e às vezes são mesmo essas lacunas de conhecimento que garantem a durabilidade do entendimento conjugal. Por outro lado, o filme fala do quão ingrato é, em matérias sentimentais, “concorrer” com um fantasma, porque o amor por alguém que morreu é indisputável, na medida em que uma pessoa morta e “congelada” no tempo é sempre um ser mais perfeito, mitificado e adorado do que aquele que está sujeito à usura do tempo.

“45 Anos”
Realizador: Andrew Haigh
Com Charlotte Rampling, Tom Courtenay, Dolly Wells
Distribuição: Alambique

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