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Uma questão de falta de pontaria…

Texto: NUNO GALOPIM

O autor do magnífico “Gattaca” afasta-se da ficção científca por tem andado nos últimos anos para apresentar um filme que tenta explorar o confronto emocional de um militar que comanda “drones” à distância.

Andrew Niccol começou bem. Foi em 1997, com Gattaca, um herdeiro de ideias distópicas lançadas nos anos 30 pelo visionário Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley com narrativa devidamente adaptada aos contextos nos quais a ficção científica evoluía a caminho da viragem do século. Depois, salvo o momento em que rodou Lord of War (2005), a sua filmografia como realizador caminhou essencialmente por terrenos sci fi mais light, em nenhum caso alcançando nunca o patamar em que Gattaca havia registado o seu nome como uma das promessas do género em finais dos noventas. O seu mais recente filme Morte Limpa (Good Kill no original) desvia-o dos terrenos da ficção científica para, tal como há dez anos, se debruçar sobre os universos da guerra. Contudo, falta ao novo filme a capacidade em mergulhar no âmago das personagens e com elas explorar mais a fundo o contexto de realidade controlada em que, como em Gattaca, habitam.

A temática é de extrema atualidade. Fala-se da guerra à distância na era dos drones, acompanhando a narrativa o percurso de um oficial de aviação (interpretado por Ethan Hawke) que, apesar de ainda vestir o uniforme de vôo, passa os dias fechado num bloco que mais parece um contentor, instalado entre outros iguais, numa base militar nos arredores de Los Angeles. Pelo satélite comanda e dispara armas instaladas em drones. Depois faz as compras de regresso a casa – num bairro em que todas são também iguais – e ao fim de semana faz barbecues com os amigos. Nesse dia a morte por comando remoto tira folga, pelo menos para si.

A montagem explora magnificamente o contraste entre os planos do quotidiano clean e rotineiro em Las Vegas e as imagens captadas pelos drones que chegam por satélite. A trama ganha fôlego quando o comando das operações passa da esfera militar e dos protocolos e ética que tinham seguido para novos decisores que não medem a morte do “inimigo” e de quem está por perto pelos mesmos preceitos. O despertar em si da dúvida, que não fica assim longe da condenação do uso deste tipo de armas que tem feito tantas vezes a notícia nos últimos anos através de posições de vozes críticas à sua utilização, podia dar então a Morte Limpa um papel ativo num debate em curso

O tom algo ligeiro com que Andrew Niccol amassa e resolve os ingredientes que tinha em mãos deixa Morte Limpa não muito longe das suas incursões inconsequentes pela ficção científica. E é pena com tão boa oportunidade que tinha em mãos. Podia ter feito o Gattaca da nova guerra à distância. Mas ao cabo de 102 minutos de melhores premissas do que resoluções, ficou “sem tempo” para ir mais longe.

“Morte Limpa”, de Andrew Niccol, com Ethan Hawke, January Jones e jake Abel, está editado em DVD pela NOS

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