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2015, entre os herdeiros de George Orwell

Texto: NUNO GALOPIM

Entre “Submissão” de Michel Houellebecq e “2084, La Fin du Monde” de Boualem Sensal estão dois livros de 2015 que nos obrigam a pensar se queremos um futuro em que o extremismo triunfou.

A literatura de ficção científica não é uma arte divinatória. E nem quando estamos naquele terreno a que habitualmente chamamos “future history” – podemos traduzir para “história do futuro” sem incomodar puristas –, onde pode nem fazer falta qualquer caução tecnológica ou de geografia projetada noutras galáxias (coisas que muita gente pode pensar que fazem sempre falta a este género literário, embora assim não seja), o imaginar dos dias que estão pela frente nasce de uma vontade de, lá chegados, haver a necessidade de um oficial de contas fazer o deve e haver à coisa a ver se o escritor acertou. Ninguém, no ano 2001, foi espreitar pelo telescópio a ver se um monólito com a proporção xpto estava na órbita de Júpiter como se contava em 2001: Odisseia no Espaço, criado em conjunto como filme e livro por Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke em 1968. Tudo isto não nos impede contudo de reconhecer que, em alguns casos, o que era apontado mais adiante entretanto se concretizou. E aí entra em cena o poder que a literatura tem para, através da ficção, projetar no tempo os nossos medos e sonhos (habitualmente os primeiros ganham aos segundos), levando-nos a pensar, acima de tudo, no presente que está já à nossa volta.

Quando, em 1949, George Orwell revelava (em 1984) um estado totalitário e repressivo, que obliterava todas as liberdades (até a de pensamento, que transformava em crime) e usava técnicas de vigilância intrusivas até ao patamar da intimidade de cada um, o cenário poderia parecer coisa distante no tempo na possibilidade de concretização. O mundo tinha já passado pela cruel repressão nazi e tinha parte da sua população a viver sobre o regime de Estaline, em ambos os casos os regimes manifestando total aversão ao pensamento diferente do cânone instituído pelo poder. Mas a tecnologia capaz de estender a vigilância e consequente capacidade de ação a tão vasto universo não estava ainda conquistada. Hoje não só vivemos num tempo em que a descoberta da existência de um sistema de vigilância montado globalmente fez uma das mais importantes notícias da década como, de áreas controladas pelo Daesh, chegam notícias de violento e cruel castigo a quem não segue as regras impostas por um regime que, mesmo com letra eventualmente diferente, canta uma música não muito diferente da que Orwell nos deu a ouvir…

Podemos somar a este estado algo distópico do nosso presente uma outra triste expressão real de pistas lançadas pela literatura de antecipação quando notamos que o horror ao conhecimento que morava no âmago de Fahrenheit 451 de Ray Bradbury se projeta na forma de destruir o património que ao longo de 2015 foi chegando dessa mesma região do globo.

Não faltaram em 2015 livros (de ficção ou ensaio) para traduzir esse presente que chega com bandeira negra e uma intolerância ignorante que prega e faz a morte para aquele que é, age ou pensa diferente. Assim como não faltaram filmes para refletir já estes tempos (e é aqui que quem não viu ainda o magnífico Timbuktu, de Abderrahmane Sissako, deve procurar um tempo para não deixar escapar um dos acontecimentos do ano).

Mas, independentemente do juízo literário que sobre eles possamos fazer, dois dos mais importantes livros lançados este ano procuram, como o fizeram Orwell ou Bradbury, olhar mais adiante. Lançado logo na alvorada do ano, e traduzido poucos meses depois para português, Submissão voltou a colocar o escritor francês Michel Houellebecq nas bocas do mundo. O livro partia de uma premissa política simples: daqui a poucos anos, com os socialistas em queda (como se notou nas recentes regionais francesas) e com a direita tradicional (que continua a ser encabeçada por Sarkozy) a não respirar ares menos viçosos, a segunda volta das presidenciais francesas disputa-se entre a candidata da Frente Nacional e o líder de um partido islamita (ficcionado) que entretanto entrara em cena. O cenário (real) da concentração de votos dos não partidários de Le Pen na direita agora representada pela sigla LR (de Les Republicains) nas recentes regionais é projetado por Houellebecq numa votação em massa no líder islamita, que assim vence as eleições.

Escrito e publicado antes do ataque à redação do Charlie Hebdo e, claro, dos massacres de novembro, e também sem imaginar que Sarkozy voltaria a polarizar o voto perante o descontentamento pelo atual presidente socialista, Submissão talvez tenha perdido um certo sentido realista. Mas lançou cenários e debates. E, mais interessante até do que toda a trama política eleitoral que domina a primeira parte do romance, a progressiva transformação da Europa numa realidade herdeira do velho império Romano (ou seja, centrada no Mediterrâneo e não nos poderes mais a norte) faz do livro mais do que um mero “e se…” pensando em cenários eleitorais numa França que, a olhos vistos, está também a mudar o seu mapa político, aos poucos os votos afastando-se do centro para os extremos.

Há depois em Submissão um plano pessoal mais misantropo típico de um Houellebecq em velocidade de cruzeiro que “estraga” um tanto o efeito final do livro…

Foi também pela França (numa edição da Gallimard) que chegou este ano um outro romance que, como o de Houellebecq, procura olhar adiante. O escritor aqui é o argelino Boualem Sensal que, em 2084, La Fin du Monde (que foi o livro do ano na Lire) nos faz avançar no tempo até perto do fim do século. O ano é o de 2084 (e as ressonâncias com Orwell são logo evidentes) e Sensal mostra-nos uma teocracia totalitária na qual todo o pensamento pessoal foi apagado do mapa. O livro colheu o aplauso de Houellebecq, que comentou como 2084 observava o que seria um plausível triunfo dos extremistas, como comentou ao Le Figaro.

Nem Submissão nem 2084, La Fin du Monde (ainda não publicado entre nós, mas já disponível em livrarias atentas à oferta francófona) são “previsões”. Mas num tempo em que os extremismos ganham expressão e os contrastes de acentuam são leituras que mostram como é nos cinzentos, e não no preto e branco (para onde esta espiral pode tender), que está o melhor de nós como indivíduos e cultura.

“Submissão”, de Michel Houellebecq (com tradução de Carlos Vieira da Silva) está disponível entre nós numa edição da Alfaguara

“2084, La Fin du Monde”, de Boualem Sensal, está disponível em versão francesa em edição da Gallimard

“1984”, de George Orwell, está disponível em edição de 2012 pela Antígona (trad. Ana Luísa Faria)

“Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, está disponível em edição de 2002 pela Europa-América (trad. Teresa da Costa Pinto Pereira)

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