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Nevoeiro americano

Texto: DANIEL BARRADAS

Há discos que escapam às atenções da imprensa e do público na altura do seu lançamento e outros cuja audição se vai adiando e depois quase acabam esquecidos. Da colheita musical de 2015 merecem mais atenção dois discos americanos que poucos ouviram.

Odawas

O projecto de Kyle Reigle, Cemeteries, lançou este ano o seu segundo álbum, Barrow. Directamente inspirado pelo filme The Fog de John Carpenter, está perto da noção musical de nevoeiro. As canções desenvolvem-se lentamente, cobertas por um manto de ecos e com timbres instrumentais bastante homogéneos. Mas uma audição prolongada e atenta vai revelando pequenos e subtis arranjos, como se as canções fossem baixo-relevos que só precisam do ângulo certo para que se possa discernir o seu desenho.

As referências sonoras aqui podem ir de Julee Cruise aos Slowdive mas há uma identidade muito própria que provém da junção de ambientes frios com calorosas e sacarinas melodias. Os tons menores estão menos presentes do que seria de esperar e há um inesperado optimismo e subtil luminosidade em todo o disco. Note-se logo na abertura do álbum como as canções Procession e Nightjar passam sem dificuldade do ambiente algo opressivo da primeira para as percursões quase dançantes da segunda. Ou repare-se nas electrónicas de Empty Camps que estão perto de algumas canções dos Junior Boys, num balanço indeciso entre o dançável e o angustiante.

O resultado é um disco discreto que soa enganadoramente simples a uma primeira audição mas que vai expandindo o seu charme e revelando um pequeno universo de pormenores, como os sons gravados de ondas, vento, conversas e crianças que de início mal se discernem entre as omnipresentes brumas.

Falar de nevoeiro musical remete-nos para os também americanos Odawas, que continuam tão fora do radar como estavam em 2009 quando lançaram The Blue Depths, a mais opaca e reverberante colecção de canções dos últimos tempos. Era um disco notável mas não só passou despercebido na altura como continua injustamente esquecido.

Este ano os Odawas regressaram com Black Harmony, um disco ainda mais experimental do que os seus quatro antecessores, o que não deve ser motivo para dissuadir ninguém. Escondidas atrás de um universo visual desconcertante (não há drogas ou mau gosto que justifiquem aquelas capas e vídeos) há mãos cheias de boas ideias musicais.

O álbum não é tão consistente como The blue depths nem tão descarrilado como o anterior Reflections of a pink laser, mas apresenta um bom equilíbrio entre experimentalismo e escrita de canções. Ocasionalmente pode-se reconhecer uma ligeira aproximação aos Piano Magic ou aos Mercury Rev. Me and Harold e Olly são os momentos altos, em pleno centro do disco. É provável que os interlúdios instrumentais sejam idéias descartadas mas integram-se bem na sequência.

É um disco de uma banda que faz o que lhe apetece, sem quaisquer facilitismos e que não anda por cá à procura de fãs. Para os que lhes prestam alguma atenção, há recompensas.

Cemeteries
“Barrow”
Snowbeast Records
3 / 5

Odawas
“Black Harmony”
Bookmaker Records
3 / 5

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