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Estados Unidos das Borboletas de Bordel

Texto: ANDRÉ LOPES

To Pimp a Butterfly é o terceiro disco de estúdio de Kendrick Lamar e está nomeado para o Grammy de Álbum do Ano e para Melhor Álbum Rap. Lançado em março, foi o maior fenómeno de aclamação crítica de 2015.

Apesar de por essa altura já deter uma experiência considerável nos domínios da trabalho de escrita na área do hip hop, foi em 2012 que Kendrick Lamar conseguiu obter a consagração quase transversal da crítica que se deixou fascinar pela virtuosidade autoral embutida em good kid, m.A.A.d city. Um disco onde se desafia o propósito de “álbum conceptual” na medida em que esse mesmo formato se vê aplicado a um quotidiano muito próprio: no alinhamento fazem-se ouvir ânsias, dramas e problemáticas inerentes ao crescimento de Kendrick enquanto jovem de Compton (California). Rejeitando banalidades que essa premissa pudesse deixar antever, faixas como Backseat Freestyle, Money Trees, Swimming Pools (Drank) ou Bitch, Don’t Kill My Vibe vieram a tornar-se difíceis de esquecer quer pela urgência artística que nelas se faz ouvir, quer pela liberdade criativa explicita na produção das mesmas. Desde um sample de Beach House passando por uma batida pensada para Ciara, good kid, m.A.A.d city expõe uma trama biográfica acompanhada de uma musicalidade apelativa o suficiente para cativar um número largo de ouvintes, independente da identificação – e consideração – dos mesmos pelos conflitos e questões que as letras já por aqui levantavam.

Desde Section.80 (2011) que Kendrick Lamar referencia a saliência que o racismo continua a ter na América dos tempos atuais, bem como o pensamento absurdo segundo o qual esse fenómeno se terá desvanecido com a abolição da escravatura ou com a consagração de direitos civis para aqueles e aquelas cuja cor da pele não é branca. A aclamação de good kid, m.A.A.d city (2012) fez de Kendrick uma figura aclamada por muitos, incluindo por aqueles que nunca se debruçaram nem refletiram sobre este tipo de – mais do que temáticas – questões cruciais na sociedade contemporânea.

Em Agosto de 2014, Michael Brown fora assassinado em Fergunson (Missouri) por um polícia após roubo de tabaco: o jovem negro perdeu a vida após ter sido baleado por um polícia branco, que não hesitou em disparar várias vezes sobre um jovem desarmado. Essa foi uma ocorrência que desencadeou uma série de protestos e conseguiu iniciar um debate amplo sobre questões como as dinâmicas da violência policial, em simultâneo com a reflexão sobre a aplicação da lei face aos cidadãos ser feita (a par da ação dos agentes de autoridade) de forma desigual em função da respetiva cor da pele.

Pertinentemente, a cultura americana reagiu de forma significativa: D’Angelo editava finalmente Black Messiah após uma pausa de 14 anos naquilo que diz respeito a discos de estúdio. Escuta-se aqui muita da energia que estaria também presente em To Pimp a Butterfly – um espírito que clama pelo empoderamento da pele negra, que não esquece peso (e a violência) do seu passado, e a sua luta pela igualdade ressalvando tudo o que falta ainda ser feito.

Em 2015, a ambição de Kendrick Lamar é ainda assim distinta e muito pouco replicável. A sua análise pode ter início logo a partir capa de To Pimp a Butterfly: o rapper de Compton surge rodeado de amigos de longa-data e pelos respetivos descentes, numa foto de grupo diante da Casa Branca. Surge assim a noção de que o presente inclui uma luta transversal a várias gerações em prole de uma vitória plena em terrenos de Washington, e por isso plena no seu significado político. E se em abstrato consideramos como político todos os atos, estruturas, dispositivos e relações de poder entre elementos, aquilo que Kendrick aqui indica prende-se com um domínio mais concreto: central ao poder político americano, a Casa Branca enquanto símbolo daquilo que não só é magno na sua relevância política, como passível de servir como preocupação a uma nação inteira.

É pela imagem de capa que se percebe o propósito de To Pimp a Butterfly e de resto é pelo seu título que seguimos para diante: “to pimp” e “butterfly” pertencem a campos semânticos que contrastam diretamente. De um lado a agressividade, a usurpação, o crime. Do outro, a fragilidade mas também a liberdade. Com uma audição completa do álbum, facilmente se compreende que estes dois polos gerem a forma como rimas e refrães foram cuidadosamente pensados. Até que ponto a liberdade sentida pela comunidade negra não se vê encasulada por uma estrutura de “tolerância” cuja fragilidade se põe em evidência em casos de conflito?

Musicalmente, To Pimp a Butterfly é um disco aberto à diversidade, socorrendo-se de ferramentas como a palavra falada, instrumentalização de jazz (com arranjos criados por Kamasi Washington), interlúdios poéticos e vários samples provenientes da mesma cultura negra que Kendrick celebra: Boris Gardiner, James Brown, The Isley Brothers ou Lalah Hathaway ouvem-se por aqui fragmentados em exercícios de produção impressionantes. Essa celebração negra toma forma sólida a partir do modo como a maioria das faixas do alinhamento do álbum abordam diretamente aspetos que expõem as condicionantes da existência de um povo outrora dominado por aqueles que declaram a américa como a terra dos corajosos e dos livres.

Em Wesley’s Theory o termo “nigger” é reclamado como um algo acelebrar, para que logo em seguida se elabore sobre o modo como o sucesso de artistas negros é usurpado pelo capitalismo da indústria do entretenimento, em prole de um paisagem artística de canções e singles inofensivos e que pouco disturbem a comunidade (branca) americana. No caso de King Kunta, Kendrick consegue uma das faixas mais poderosas do álbum a partir de uma narrativa baseada em Raízes, de Alex Haley. Nessa prosa, a personagem principal é Kunta Kite – um escravo negro cujo pé esquerdo acabou cortado para que pudesse escapar da plantação onde fazia trabalho forçado. Ao considerar uma figura escravizada aqui como um rei, Kendrick Lamar trabalha a temática das dicotomias das estruturas hierárquicas de poder entre indivíduos, enaltecendo a potencialidade daqueles que são continuadamente oprimidos, incentivando o desenvolvimento dos mesmos – criando uma paralelismo interessante com a sua própria ascensão no domínio do hip hop.

Numa sociedade onde a representatividade negra continua a ser reduzida, aquilo que Kendrick Lamar consegue com To Pimp a Butterfly para lá de ambicioso, é vital. Isto porque o privilégio branco continua a ser exacerbante, tanto na América como em todo o mundo ocidental. Uma pele branca é passaporte para uma série de estruturas relacionais das quais as pessoas negras não beneficiam: uma relação geralmente favorável com forças policiais, uma atenção e consideração plena por parte de professores e empregadores, a “sorte” de aprender sobre a própria raça no percurso escolar, observar semelhantes seus representadas como protagonistas, heróis, vencedores, etc.

De tudo isto, Kendrick exige que aqueles que partilham a cor da sua pele não sejam vítimas: The Blacker the Berry e i são aqui peças-chave. A primeira toma a forma de um rap onde a raiva é endereçada ao próprio e todos os afro-americanos que se desdobram entre sentimentos de merecer bem mais por parte de uma sociedade que os menospreza, ao mesmo tempo que deles exige complacência. Por sua vez, i é quase um estudo sobre a forma como a depreciação própria causada por pressões e fenómenos sociais como o racismo pode fomentar um sentido artístico acutilante e, em última instância, vitorioso.

To Pimp a Butterfly apresenta-nos Kendrick Lamar ciente de si mesmo e do seu estatuto. Pondo de parte a hipótese de centrar um disco em fantasias fortunadas, é nestas dezasseis faixas que encontramos o que de mais visceral pode ser sentido no seio da existência humana: a racionalidade para primeiro encontrar no passado referências que sirvam de guia, e depois refletir, problematizar, lutar e sim, vencer.

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