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“The Knick”: a ficção televisiva segundo Soderbergh

Texto: JOSÉ RAPOSO

Após duas temporadas ainda não há datas nem tão pouco certezas quanto ao próximo elenco que a série irá envolver no próximo arco narrativo. Mas a expetativa não podia ser maior.

É uma das séries mais aplaudidas pela crítica, realizada por um dos mais celebrados realizadores do cinema contemporâneo. A serialização da ficção televisiva, seguramente uma das características mais divisivas no que toca à abordagem narrativa de um número importante de produções televisivas, encontra em The Knick um momento absolutamente exemplar, naquilo que só pode ser caracterizada como uma abordagem de autor.

E que autor: Steven Soderbergh, como é aliás habitual na sua relação com o sistema de produção de há alguns anos para cá, reúne um conjunto de tarefas e competências técnicas, chamando a si áreas fundamentais em todo o processo criativo. Para além de ser o responsável pela cinematografia, Soderbegh é o produtor executivo, e realiza e edita todos os 20 episódios, ao longo das duas séries.

Não a escreveu, nem teve a ideia original para a série, é verdade – The Knick é uma série criada e escrita para o Cinemax, um canal subsidiário da HBO, pela dupla Jack Amiel e Michael Begler – mas talvez seja justamente essa circunstância que nos remete de forma mais explicita para a grande querela que tem vindo a ser materializada na oposição entre cinema e televisão. Soderbergh não escreve o argumento, mas contudo… filma; e esse é um detalhe que faz eco de toda a discussão em torno da figura do realizador de cinema enquanto autor. No contexto da obra do realizador de Traffic, a serialização narrativa e correspondente expansão do universo dramático são mobilizadas em função de uma densidade orgânica que sustém a textura das múltiplas linhas do enredo – todas as partes se relacionam entre si, cristalizando em 20 horas de ficção uma monumental dramatização de uma parte importante da história de todo o século XX. Num artigo no The Vulture, pouco antes da estreia da segunda temporada, Soderbergh reflete sobre a experiência de trabalho em televisão. Para o realizador, ter os dez guiões prontos e terminados à sua frente antes de cada temporada, possibilita pensar a mise-en-scène noutro nível, numa maior escala.

The Knickerbocker, o hospital Nova-iorquino que serviu de inspiração aos criadores da série, é assim o centro de uma complexa relação entre o corpo humano, o conhecimento científico e as arquiteturas económicas que sobre eles se lançam. Por isso, e também muito à luz da própria carreira de Soderbegh, The Knick pode ser visto como um microcosmos do capital e dos seus humores. A imagem de abertura da série transporta-nos para um dos míticos salões de ópio, onde nos é apresentado Dr. John Thackery (Clive Owen, naquele que é provavelmente o melhor papel da sua carreira), o cirurgião-chefe do hospital, acabado de despertar de mais uma viagem narcótica. O plano final do último episódio como que acelera essa inclinação até à sua exaustão: um esgotadíssimo Thackery prestes a adormecer numa clinica de desintoxicação, com um frasco de heroína produzida pelo colosso farmacêutico Bayer em cima da mesa de cabeceira. Uma chatice. Mas toda a primeira época é absolutamente memorável, particularmente pela atenção dedicada à alucinante velocidade do progresso científico.

Num dos momentos mais memoráveis da primeira temporada, há mesmo direito a uma verdadeira aparição – Thomas Edison a demonstrar uma das suas invenções mais célebres. O momento em que Edison coloca o público a ouvir um som gravado poucos instantes no seu fonógrafo, assinala uma Nova Iorque dos inícios do século XX na fronteira da ficção científica. A própria eletrificação do Hospital, cuja iluminação até então era ainda feita a gás, é por assim dizer um dos efeitos fulcrais de uma modernização imparável, que atravessa toda a organização do hospital. O trabalho de reconstrução histórica é exímio, mas o propósito é fundamentalmente diferente das tendências para a nostalgia que tendem a marcar alguma da ficção televisiva Mad Men, Halt and Cath Fire, etc). Sob o olhar de Soderbergh, o gore sanguinário e não poucas vezes trágico do anfiteatro de operações, não se esconde de maneira alguma sob a pretensa capa de um realismo cinematográfico, oferecendo-se antes ao brutal comentário relativamente à vulnerabilidade da condição humana face os desígnios do progresso.

E aquilo que distância de forma definitiva The Knick dos territórios mais dados à nostalgia, impulsionando a série de ambientes deliciosamente futuristas, é mesmo a banda sonora – uma grande surpresa e uma absoluta raridade no contexto televisivo. Graças ao trabalho de Cliff Martinez, nunca as texturas sonoras de um minimalismo eletrónico (que fazem recordar certos aspetos do seu trabalho em Spring Breakers ou mesmo em Contagion, do mesmo Soderbergh) estiveram tão a condizer com um drama histórico situado mesmo na viragem para o século XX.

Se na primeira temporada o arco narrativo se estende por uma miríade de micro narrativas, do progresso científico ao progresso social, terminando com a queda de Thackery e com a decisão de estabelecer o hospital numa zona mais económica da cidade, a segunda época – que terminou ainda não fez um mês – traz poucas novidades, focando-se antes em aprofundar o universo já estabelecido. Thackery inicia a sua pesquisa em torno do vício da droga, continuando a braços com a sua própria toxicodependência, ao mesmo tempo que os seus colegas de trabalho se ocupam de investigações sempre na fronteira do desconhecido. No contexto da construção do novo hospital, os interesses económicos que sustem todo aquele espectáculo são colocados em primeiro plano, aprofundando de forma significativa a complexa dependência entre corpo, máquina, e capital.

Poucos dias após o surpreendente (e chocante) último episódio da segunda temporada, Soderbegh veio a público tranquilizar os fãs da série: a série foi planificada desde o início em função de um arco narrativo que se desenvolvesse por cada duas temporadas. O modelo parece ser então o de séries como True Detective ou American Horror Show.

Ainda não há datas nem tão pouco certezas quanto ao próximo cast, mas a expetativa não podia ser maior.

1 Comment on “The Knick”: a ficção televisiva segundo Soderbergh

  1. Muito boa série. De realçar a coragem de Soderbergh em realizar todos os episódios o que contribui sobremaneira para a manutenção da altíssima qualidade. Clive Owen tem O papel da carreira!

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