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Uma canção de David Bowie escolhida por nós

Na semana em que dizemos adeus a David Bowie, e em jeito de despedida, escolhemos canções suas para mostrar como afinal ficou entre nós. Cada um de nós fez uma escolha. E partilha-a aqui.

“This is Not America” (1985)
Sempre foi uma das canções que mais me intrigou do Bowie, uma mistura algo improvável com Pat Metheny que resulta numa espécie de balada negra mascarada de pop. A frase de abertura (“A little piece of you, The little piece in me, Will die”) a contrastar com os Shalalalalas, a batida minimal electrónica/pop a contrabalançar a sequência escura do sintetizador, é uma canção que mostra o experimentalismo e o génio de Bowie em trazer referências de todos os quadrantes e colocá-los num só sítio.

“Where Are We Now?” (2013)
por NUNO GALOPIM
Podia ter escolhido tantas… Life on Mars?, que junta Bowie a Marte (outra das minhas obsessões). Scary Monsters, que foi a primeira canção dele que escutei na rádio, em 1980 e que me pôs a questionar: “O que é isto?”, com aquela vontade de querer saber mais a nascer logo depois. O recente Blackstar que é uma obra-prima (mas que ainda mora comigo há poucas semanas). Wild is The Wind que sublinha o ator que sabe também na música vestir as personagens dos outros. Ou, naturalmente, Sound and Vision… Entre muitas memórias de 36 anos atento a Bowie (o que ficara para trás foi depois escutado e integrado aos poucos) guardo com particular encantamento aquela manhã de 8 de janeiro de 2013 em que, num quarto de hotel em Genebra, acabado de acordar (cedo, sempre) para ver pela Internet o que havia de novo (e a pensar no Sound + Vision, o blogue, claro), dou por mim com algo que não esperava: após dez anos de silêncio, uma canção de Bowie. Uma canção ao nível das suas melhores (algo atípica do restante alinhamento do disco como depois veria) e que, como algumas outras da sua obra desde finais dos anos 90, falava do tempo que passara e refletia sobre os valores da memória e da perda… Ainda por cima carregada de geografias berlinenses (e Berlim é uma das cidades de que mais gosto). Agora, três anos volvidos e uma semana após a notícia que chegou no fim da madrugada, voltar a escutar esta canção junta mais sentidos à sua leitura. Onde estamos agora?

“Hallo Spaceboy (Pet Shop Boys Remix)” (1996)
Cada vez que penso em David Bowie lembro-me de momentos com a minha mãe durante a infância e adolescência. Ela sempre foi a figura que me apresentou a grande parte da música que oiço e que, hoje, dou valor sagrado. Björk, Depeche Mode, Kate Bush ou Cocteau Twins pertecem a uma longa lista de artistas que considero ídolos, mas acabávamos sempre os dois com David Bowie. Estivéssemos bem, mal, felizes ou tristes, era com o icónico “ch-ch-changes” a sair da aparelhagem que trocávamos o olhar confidente e que tudo estava bem. Foi também com a canção que escolhi, Hallo Spaceboy, escrita em parceria com Brian Eno e que integra o décimo nono álbum 1.Outside de 1995 que comecei a dar os primeiros passos no conhecimento da música eletrónica, nomeadamente, com a parceria com os Pet Shop Boys nos Brit Awards de 1996, que só descobri anos depois através do Youtube. Mais vale tarde que nunca e é a David Bowie que se tem de agradecer pelo seu papel revolucionário na história da música. Obrigado David Bowie.

“Letter to Hermione” (1969)
por ANDRÉ CAMECELHA
Como para tantas pessoas David Bowie faz parte da minha vida, de uma forma tão visceral que não consigo imaginá-la sem a sua presença. Gosto de tudo o que ele fez, de Threepenny Pierrot até Prisioner of Love passando por Warszawa ou Station to Station.
Em Letter to Hermione, de 1969, encontramos um Bowie antes de todos os personagens e transformações. Mas já está tudo aqui: o timbre, a emoção e a transcendência da voz, o lirismo das palavras, a qualidade e originalidade da melodia. Canção a um amor passado reúne ainda todas as possibilidades do futuro.
A sua morte é uma perda imensa – “I’m not quite sure what we’re supposed to do”…

“In The Heat of The Morning” (1967)
por JOHN GONÇALVES
Depois da tristeza da noticia e depois do choque inicial, apanhei um táxi em Madrid, onde estava, e ao entrar escuto o início duma canção de David Bowie que não ouvia desde que os Last Shadows Puppets resolveram fazer uma versão dela em 2008.
A primeira canção de David Bowie que ouvi depois da fatídica noticia é de 1967 e, não sendo a minha favorita, está no grupo de dezenas de canções dele de que gosto muito. A probabilidade de tocar esse tema especifico numa rádio espanhola era mínima – mesmo horas depois da morte de David Bowie – mas a verdade é que a passaram e se eram necessários adjectivos para entender a genialidade do artista em causa, bastaram esses 2′ 47″ para perceber que ainda hoje a canção parece actual e vinda de uma qualquer nova banda que tenha a ousadia de ser honestamente aberta, misturando vários estilos sem nunca se esquecer do formato de canção.
Bowie nunca esqueceu os versos, os refrões e os instrumentais que vinham”sabe-se lá de onde” para criar estéticas novas e evoluídas nas suas canções e este é um bom exemplo disso mesmo, apesar de de passarem quase 50 anos desde a sua gravação inicial.
Enquanto eu viver lembrar-me-ei que In the heat of the morning foi primeira canção que escutei depois de saber que David Bowie morreu e por essa razão, é aquela que escolho.

“Never Let Me Down” (1987)
por MIGUEL MARUJO
Confesso que há muitas canções aqui já apresentadas que também eu escolheria, de Changes a Lazarus, passando por Heroes ou Thursday’s Child. Opto por isso pela canção que dá nome ao (porventura) mais mal-amado álbum de David Bowie: Never Let Me Down. O vídeo é de uma elegância e de uma sensualidade que ilustra bem a voz lânguida e a sonoridade que envolve os corpos desta canção. Vai sendo tempo de resgatar este tema. Afinal, I’ll never let you down…

“Starman” (1972)
por MÁRIO LOPES
Na adolescência, cheguei a David Bowie pela porta ao lado. Marc Bolan e os seus Tyranossaurus Rex, depois T. Rex, surgiram primeiro na minha vida. O “cosmic dancer” apontou o caminho e não demorei a descobri-lo. Tão gloriosamente fora deste mundo quanto Bolan, síntese perfeita do que fervilhava naquele preciso momento e do excitante que o antecedera. Bowie, criatura nova, a nascer perante mim. Passei os últimos dias a acordar e a deitar-me com uma canção na cabeça. A escolha não foi minha (gosto de imaginar que foi dele). Starman, então. Obrigado por teres vindo conhecer-nos.

“Modern Love” (1983)
por INÊS MENESES
Porque ele nunca foi só as canções: foi imagem. Foi dar corpo ao estilo qualquer que ele fosse. Foi amor sem género, fato sem sexo. E depois Modern Love foi cinema: Mauvais Sang de Leos Carax com Denis Lavant a ser uma labareda no passeio, e Greta Gerwig a experimentar a liberdade do nada, do vazio. Modern Love é um hino. Ninguém quer acreditar nele, todos o querem dançar.

“Under Pressure” (1981)
por ANA DAVID
A primeira vez que ouvi o David Bowie foi pela mão dos Queen, na magnífica Under Pressure. Tinha 14 anos e andava obcecada a explorar a discografia da banda que rapidamente percebi se tornaria a de eleição para a vida. Descobrir a sua versão acappella e voltar a ouvi-la estes dias lançou-me de volta a esses anos basilares de descoberta musical mas fez-me também perceber que lhe entendo agora um significado mais extenso. Um entendimento que só mais 12 anos de vida permitiriam. Incluindo literal: sempre desconfiei que aquele “Sat on a fence but it don’t work“ não podiam ser o Bowie e o Freddie Mercury a cantar em uníssono “Son of a bitch but it don’t work”. Não idolatro Bowie como idolatro Queen. Aquele homem louro e de ar austero que eu via na MTV, depois das aulas em finais dos anos 90, assustava-me. Mas desde segunda-feira que perdi a conta ao número de canções brilhantes que descobri e me têm fascinado ou que me foram dadas a conhecer por amigos e devoradas em repeat de manhã à noite. Afinal de contas também foi postmortem que conheci os Queen.

“Station to Station” (1976)
por ANDRÉ LOPES
Em 1975 era editado Young Americans – o álbum onde Bowie se deixara maravilhar pelo R&B americano – conseguindo sintetizar uma soul plástica muito própria. No ano seguinte, o rumo foi de viragem: encontramo-lo em Station to Station a diluir melodias junto de proeminentes ambiências soturnas. A faixa homónima desse disco serve de expressão exemplar da virtuosidade de Bowie enquanto artista capaz de assimilar referências, apropriando-se das mesmas. Nos versos, encontramos elementos temáticos típicos do ocultismo e da cabala judaica, que coexistem com pistas referentes a Brecht e cocaína. O que se escuta é impressionante desde a primeira audição: um trabalho textural de electrónicas, que não deixa esquecer os Kraftwerk, introduz a entrada sucessiva de cada um dos instrumentos e, por fim, a voz. São 10 minutos de desempenho irrepreensível por parte de uma banda que neste altura juntava Carlos Omar a Earl Slick; Station to Station é inesquecível desde o seu crescendo introdutório, passando pelas mudanças de andamento e terminando no seu fantástico refrão.

“Ziggy Stardust” (1972)
por RITA ROCHA
Há tantas canções que podem ser as minhas favoritas de todo o percurso de David Bowie, mas quando me falam nele é sempre em Ziggy Stardust que penso. Ainda não tinha nascido quando foi editada, em 1972, mas foi com ela que comecei a ouvir David Bowie e a descobrir o poderoso universo que vivia na cabeça de tão talentoso artista.

“If I’m Dreaming My Life” (1999)
por CARLOS CONCEIÇÃO
Os acordes imprevisíveis com que David Bowie pintou toda a sua obra atingem neste tema a grandiosidade de uma catedral sideral. Nos versos, uma indagação interior, privada, a revelação de um sentimento comum através de pistas crípticas (“Was it air she breathed?”, ou como o amor se torna pouco humano, às vezes). Tema desconcertante nas mudanças de andamento e, no entanto, profundamente coeso, a culminar numa coda épica que soa a coração ainda pulsante, espremido entre as mãos: tenta completar-se uma frase mas mal se faz o esforço. “Dreaming my…” repete-se até perder o sentido ou ganhar o de um mantra. Um homem reduzido à sua voz.
Depois de passar a infância com medo da capa de Aladdin Sane, descobri o David numa tarde de domingo, ao ver na televisão o video de Jump They Say. 1993. Nunca mais nos separámos nem hoje isso vai acontecer. O álbum hours… surge num momento chave da minha vida, sendo este tema um daqueles que se ouviram muito no escuro, no chão do quarto.
E se agora as palavras me faltam, como tudo o resto, a gratidão é agora tanta – ou maior – do que era nessas noites. Gratidão e deslumbre.

“I’m Deranged” (1995)
por NUNO CARVALHO
Descobri este tema na banda sonora de Lost Highway, de David Lynch. Na verdade, é a canção que abre o filme, quando vemos uma estrada a ser percorrida na noite e as palavras “funny how secrets travel… I start to believe” a irromperem do fundo de uma escuridão misteriosa. E assim que ouvi as primeiras notas de I’m Deranged a minha adesão emocional ao som e a imersão no mundo de sombras lynchiano foram totais. Como dizia Nietzsche, sem música a vida seria um erro. E há certas cenas e sequências (da vida também) que não seriam a mesma coisa e não teriam a mesma profundidade sem a música certa. Como na parte final de Breaking the Waves, de Lars von Trier, quando se ouve Life on Mars logo após a cena da morte da personagem principal – também essa uma canção que descobri nesse filme, e que depois iria ficar associada a vários momentos de que hoje guardo uma memória feliz.

“Life on Mars” (1971)
por RUI ALVES DE SOUSA
Sim, pode ser visto como o cliché absoluto, mas à medida que vou descobrindo mais e mais discos de Davis Bowie (e que magníficas canções tem o último!), nunca conseguirei tirar Life on Mars do topo do meu pódio. É a música de Bowie que mais me marcou e aquela que, de um momento para o outro, me fez querer descobrir a sua obra (numa época de transição do sexto para o sétimo ano, em que andei a explorar este e outros maravilhosos artistas que “nasceram” nos sessentas e setentas. É difícil explicar, através de uma só música, explicar a enorme admiração que tenho por Bowie. Mas Life on Mars é a música que mais me transporta para o maravilhoso mundo de Bowie, mundo esse que, na maioria da sua duração, não testemunhei porque ainda não era nascido, mas que me marcou muito a partir do momento em que comecei a conhecê-lo melhor, já muitos anos depois dos acontecimentos das peripécias de Ziggy Stardust. Por isso, escolho Life on Mars porque foi a música que me levou a Bowie, num singelo acaso provocado pelo destino. Não consegui parar de a ouvir em loop na minha cabeça no dia da sua morte, e por vezes cheguei a trauteá-la na via pública, ciente da minha tristeza mas não do facto de estar com a voz a um volume bastante perceptível. A um génio como Bowie todas as homenagens são mínimas. Mas depois de nos deixar inesperadamente e com um formidável legado, não consigo deixar de lhe agradecer por me ter ajudado a crescer – e por, ainda hoje, preencher o meu imaginário. Boa viagem, senhor Bowie. Agora poderá descobrir se há mesmo vida em Marte. Nós por cá sabemos que, na realidade, continua bem vivo na vida de milhões de pessoas.

“Rock and Roll Suicide” (1972)
por ISILDA SANCHES
Rock’n’Roll Suicide foi a primeira música do Bowie que conheci. Estava numa cassete que os meus irmãos tinham gravado da radio e ninguém sabia o que era (outra na mesma cassete, também “desconhecida”, era o Whole Lotta Love dos Led Zeppelin). Descobrimos que era Bowie uns 2 anos depois de tocarmos a cassete insistentemente, fascinados especialmente por aquela música. Depois apareceu o vinil do Ziggy Stardust lá em casa, mais tarde cassetes com o Low, o Lodger e o Heroes… Bowie continuou a ser um herói (mesmo quando os discos não eram assim tão incríveis) e Rock n Roll Suicide uma das minhas canções preferidas. De resto, foi a única música que me fez tentar ser fumadora, só porque queria ter a pose de Bowie (na canção e nas fotos).

“Rebel Rebel” (1974)
por JOSÉ RAPOSO
Poucos dias antes do lançamento do single Rebel Rebel, Bowie dava uma entrevista à Rolling Stone – “Beat Godfather meats Glitter Mainman”, era assim o título do artigo. Na entrevista, conduzida pelo escritor William Burroughs, fala-se sobre um pouco de tudo, de Warhol a Ziggy, passando por uma série de temas sempre com a cultural popular como o denominador comum. A dada altura, Bowie fala sobre a sua paixão em torno dos media, e da relação que mantinham com o público: “Os média ou são a nossa salvação ou a nossa morte. Gosto de pensar que são a nossa salvação”, atirava a dada altura. Toda a gente te conhece agora, Lázaro.
See you on the other side, Major Tom.

“Lazarus” (2016)
por VÂNIA MAIA
David Bowie é todo ele futuro. Agora que a estrela negra chegou, escolho uma canção tão brilhante quanto perturbadora, tão honesta quanto dolorosa. Lazarus, tal como a personagem bíblica que Jesus Cristo ressuscita, é uma das melhores provas da vida eterna de David Bowie na cultura popular. “This way or no way / You know, I’ll be free / Just like that bluebird / Now ain’t that just like me”. Revelado o segredo, nunca Bowie tinha sido tão literal. Blackstar é o testamento mais generoso que nos podia deixar. Ao homem tantas vezes renascido, Lazarus assenta-lhe bem. “Look up here, I’m in heaven”. E nós na terra para o dançarmos.

“Absolute Beginers” (1986)
por JOÃO MORGADO FERNANDES
Uma canção pop perfeita sobre o poder redentor do amor, a que vale a pena regressar quando em dúvida. Gosto particularmente da ideia de sermos eternos principiantes.

por FILIPE RODRIGUES DA SILVA
Este é um dos momentos altos da era pop/new wave da carreira de David Bowie. Absolute Beginners não é a minha canção preferida de Bowie – essa será possivelmente Starman – . mas foi a que mais me marcou nos primeiros anos enquanto melómano e a que mais escutei e dancei ao longo da vida.

“Miracle Goodnight” (1993)
teledisco de Matthew Rolston
por JOÃO LOPES
Quando é que uma pessoa se transforma em personagem? Provavelmente quando, sendo vista como personagem pelos outros, não deixa de se distinguir como pessoa… Enfim, digamos que isso requer alguma capacidade de invenção, um razoável sentido narrativo e música q. b. Dito de outro modo: David Bowie, mestre da multiplicação de personagens, nunca se perdeu em nenhum outro espaço que não fosse o seu próprio “eu” — como aqui se prova, aceitando a crueza dos espelhos, quer dizer, o poder imaterial das imagens.

“Let’s Dance” (1983)
por MARIA JOÃO CAETANO
A ser só uma teria de ser esta. Porque foi uma das primeiras que ouvi. Porque me lembro do teledisco e ter dez anos e sonhar com sapatos vermelhos e pistas de dança. Porque há músicas que nos acompanham pela nossa vida e continuam a fazer sentido. Let’s Dance foi o single que deu o nome ao álbum de David Bowie de 1983.

“Changes” (1971)
por ÁLVARO COSTA
“Turn and face the strange” poderia ser o titulo de uma ideia estética sobre Bowie. A canção chama-se Changes e tem uma sequência de acordes que a música inglesa usava para arranjos de metais ou sopro. O mesmo quer dizer que Bowie  escangalhava” e colava de uma forma “menos perfeita” o que integrava e agregava ao seu processo criativo. Surpreso pela popularidade e culto que a canção de Hunky Dory tomou, Bowie olhava para esta canção como uma espécie descartável. Uma ” throaway” que, no entanto, criou um “estranho fascínio” e fez com que vida de muitos freaks encontrasse um farol. Bowie lives!

por JOÃO SANTANA DA SILVA
Tornou-se quase um chavão a adjetivação zoófila de Bowie enquanto “camaleónico”, e não há canção mais vulnerável a esse facilitismo do que Changes, lançada pela primeira vez no álbum Hunky Dory, em 1971. Mas, mais do que falar de mutações estéticas e artísticas, esta fala do tempo, simplesmente. Da forma como o tempo nos muda a nós, nos envelhece e nos torna estranhos à nossa própria aparência, apesar de nos mantermos, essencialmente, a mesma pessoa. Sendo também uma canção de fé na liberdade criadora, sobretudo das novas gerações, foi, curiosamente, a última tocada pelo próprio ao vivo, em 2006, com a jovem Alicia Keys.

“Thursday’s Child” (1999)
por JOÃO MOÇO
Ainda estou a recuperar do choque. Acordei literalmente com a notícia. E a primeira canção que me vem à memória é a Thursday’s Child. Não é a melhor de David Bowie, não é aquela que melhor faz a súmula do que foi o seu percurso e personalidade criativa (existirá uma?), mas nestas coisas da morte o instinto mais emotivo acaba sempre por se fazer valer. A Thursday’s Child foi a primeira canção que, conscientemente, ouvi de David Bowie. Devia ter uns 11 anos. Com o passar dos anos foi-se entranhando cada vez mais. A elegância da voz, o tom contemplativo do tema, ouvi-lo cantar com tamanha sobriedade sobre um passado inalterável e o que se podia ter feito de diferente com o tempo. O vídeo, dos meus preferidos, é fascinante por isso mesmo, por vê-lo a olhar-se ao espelho com tanta segurança (e eu que gostaria tanto de o conseguir fazer), a olhar para as suas memórias e não cair sobre elas. “Seeing my past to let it go”. Hoje este verso ganha um extremo realismo.

“Young Americans” (1975)
por TIAGO PEREIRA
Porque é uma canção funk-soul e tudo o resto vindo da América que Bowie sempre gostou (e já se sabe que é impossível fugir a tudo o que rhythm & blues deu ao mundo). Mas também porque é um exemplo perfeito de como o homem (era bem mais do que isso, na verdade) pegava numa realidade comum e a transformava numa fantasia só sua, que depois assimilava-mos com a maior das naturalidades. Young Americans e o olhar de um actor eterno sobre um palco vasto e infinito, a vida quotidiana e os seus dilemas, do mais íntimo – o amor e o romance – ao mais público – as transformações sociais e os sonhos ou desafios que despertam. E, claro, sempre a interpretação. Bowie, voz única na técnica e cantor ímpar na escolha do tom certo para cada palavra. Nesta canção com um coro atrás de si, noutras sozinho e o mundo todo a ouvir. Esta última parte terá de continuar sempre, não há volta a dar.

“Loving the Alien” (1984)
por DANIEL BARRADAS
Loving the alien é sobre as cruzadas mas serve de metáfora para muita coisa. Faz-me sempre parar e dá-me sempre pele de galinha. A voz do Bowie aqui é um espanto pelo espectro de expressão teatral. Também há uma versão diferente (que é se calhar ainda melhor) no registo ao vivo da tourné A Reality Tour.

3 Comments on Uma canção de David Bowie escolhida por nós

  1. Bela ideia esta de homenagear David Bowie. Vinha apenas sugerir outra música semi-esquecida de David Bowie: The Man Who Sold The World.

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  2. Há dois outtakes do Young Americans – “Who Can I Be Now” – e “It`s Gonna Be Me” – , pouco conhecidos, mas que são duas músicas onde a voz do David Bowie atinge o seu zênite.

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