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“Hypergraphia”, um livro para o culto da música

Texto: DANIEL BARRADAS

Toda a poesia de David Sylvian foi reunida num só volume de grande valor artístico. Para a fruição fetichista e material da música na era digital, será afinal o formato livro um ovo de Colombo?

A música é imaterial por natureza. Não se vê, não se agarra, não permanece. No entanto, na nossa contemporaniedade digital, onde se poderia supor que finalmente a música gravada se poderia despir de imagens e dispensar suportes físico, assistimos a um regresso das vendas de discos em vinil, a uma proliferação de vídeos e a músicos que nas redes sociais partilham mais fotos do que sons.

O regresso ao vinil estará sem dúvida ligado ao poder fetichista de se poder pegar num objecto capaz de dar prazer visual e táctil. É um ancorador da imaterialidade da música. E no campo da música popular há várias décadas que o título generalista de “artista” assenta melhor a várias personalidades já que “músico” seria redutor. O que seria de Madonna sem a sua componente visual, por exemplo?

À primeira vista, Hypergraphia, um livro mastodonte de 636 páginas que reúne as letras das canções de David Sylvian de 1980 a 2014 (com o extra de três entrevistas que proporcionam algum contexto), seria um objecto retrógado e desnecessário. No entanto, neste preciso momento em que surge, talvez seja o mais genial ovo de Colombo.

A colectânea de 2012 A Victim of Stars procurava reunir em dois CDs 30 anos de carreira de Sylvian, mas para quem era verdadeiramente relevante? Para os fãs de longa data trazia apenas uma nova canção (lindíssima, é verdade, mas a saber a pouco). Para os iniciados, mesmo com 31 temas não passava de um aperitivo para um corpo de obra muito mais extenso e multifacetado do que estava representado.

Hypergraphia surge agora como um companheiro verdadeiramente à altura da obra de Sylvian e funciona talvez como o melhor e mais completo Best of que se poderia desejar. Contém as letras de todas as suas canções e está repleto de material visual capaz de ancorar a fruição da sua música (muita da qual é instrumental). Há por exemplo um capitulo apenas visual dedicado a Flux & mutability e o capítulo de Secrets of the beehive remistura e expande de modo exímio o trabalho da capa do disco com base em novos enquadramentos das fotos de Nigel Grierson. Num momento em que a grande maioria prefere consumir música por serviços de streaming ou em ficheiros digitais, começa talvez a fazer muito mais sentido lançar um livro companheiro das obras do que simplesmente reeditá-las em vinil por ser o formato da moda.

Mas chamar “livro” a Hypergraphia é extremamente redutor. Aqui há poesia, ilustração, fotografia, design. Todas estas expressões artísticas se misturam inspiradas pela música que não está fisicamente presente no objecto, mas que não deixa de lhe ser intrínseca.

O próprio David Sylvian vem creditado como director de arte e mesmo num desfolhar rápido reconhecemos imediatamente o seu universo. Não só pela reproducão das várias capas de discos e imagens que foram sendo associadas às várias fases da sua carreira, mas também por todo o material adicional que cria atmosferas, sublinha pensamentos ou espoleta associações.

Ter na mão este livro torna táctil a carreira musical de um grande artista. Justifica-se que seja grande e pesado. Passar os olhos pelas suas páginas é reviver o ambiente da sua música. Detemo-nos em palavras, imagens enquanto a música nos leva. Isto sim é a arte da capa de disco elevada ao cubo.

Por trás da execução/produção exímia deste livro enquanto objecto artístico está o designer Chris Bigg, colaborador frequente de Sylvian na sua editora Samadhisound, e que fez parte do v23, um atelier de design responsável pelo visual da editora 4AD nas décadas de 80 e 90. Já em 2005, Bigg tinha feito um extraordinário trabalho para os Dead Can Dance, no livro vendido durante a digressão desse grupo e que reunia todos os textos das suas canções. Aí explorava a impressão a dourado misturada com preto e branco. Em Hypergraphia o dourado volta a ser preponderante tornando-se mesmo o fio condutor da narrativa visual, capaz de unificar as mais diversas linguagens visuais que surgem e se misturam. Junte-se a isto a já conhecida mestria tipográfica e temos um volume verdadeiramente precioso.

Hypergraphia não é apenas pesado enquanto objecto, pesa também na carteira (o preço de editora é 65 libras embora se possa achar com desconto nalguns sites). No entanto, para os fãs ardentes é sem dúvida o melhor best of ou “obras completas” que se pode desejar. Oferece bastante mesmo a quem já tem os discos ou serve de âncora física para quem prefere a sua música digital. É um pequeno monumento que podemos ter em casa para prestar homenagem a um dos grandes e é bom tê-lo por perto nos momentos de culto e reverência, quando queremos/precisamos mergulhar na música e arte de David Sylvian.

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2 Comments on “Hypergraphia”, um livro para o culto da música

  1. Maria Dulce Rodrigues // Janeiro 14, 2016 às 11:01 am // Responder

    Olá, onde se pode adquirir em Portugal? Obrigada.

    Gostar

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