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O regresso da História

Texto: JOÃO SANTANA DA SILVA

De 2015, poder-se-ia escolher entre dezenas de importantes livros de não ficção publicados em Portugal. Falamos aqui de três. Um sobre economia, outro sobre racismo e um outro sobre o Brasil.

Após alguns anos de relativa apatia, algo mudou, nos últimos anos, nas escolhas feitas no mercado editorial português. Não nos podemos queixar de falta de ensaios, conjuntos de artigos e demais livros corpulentos (com cinco dedos de testa, e não calhamaços levados para “a engorda” a tempo do Natal) que vivem numa certa franja da produção científica, académica e de não ficção. Uma franja minimamente percetível e apetecível para a generalidade não especializada dos leitores.

Entre essas traduções e edições originais, encontram-se muitas obras que, apesar de manter intacta a alma, piscam o olho ao “lado negro” do mundo editorial: o objetivo comercial. E ainda bem, para benefício de leitores leigos, como eu. Depois da Relógio d’Água, Gradiva e Edições 70 (para não falar da Antígona, Letra Livre e outras com uma identidade mais vincada), e em detrimento de um certo declínio da aposta da Dom Quixote e da Cotovia na não ficção, tem-se juntado ao pelotão da frente a Temas e Debates (em conjunto com o Círculo de Leitores), que deixou de ter uma produção ocasionalmente interessante para contribuir, de forma consistente, para a existência de mais e melhores livros em português nas prateleiras, sobretudo, da História. Deixamos aqui três sugestões de livros publicados em 2015.

Niall Ferguson, A Lógica do Dinheiro – Poder e Dinheiro no Mundo Moderno (1700-2000)
Temas e Debates / Círculo de Leitores, 2015

Quando, em 2001, Niall Ferguson escreveu A Lógica do Dinheiro (Cash Nexus, no original), já tinha atingido um certo destaque na academia britânica. Contudo, nunca seria essa a via da sua consagração como um dos principais historiadores do Reino Unido. Tal como sucedeu com outros historiadores populares – A. J. P. Taylor, Eric Hobsbawm e Simon Schama, por exemplo –, acaba por ser mais lido fora das universidades e por ver as suas teses mais criticadas, desmontadas ou elogiadas nos jornais e na televisão do que nas revistas científicas. E, para o melhor e para o pior, é também a essas pessoas, fora da academia, que se dirige.

Em A Lógica do Dinheiro, o historiador escocês propõe uma tese alternativa à ideia de que “o dinheiro faz mover o mundo”, colocando as relações económicas (o “cash nexus” de Karl Marx) e a dimensão material num lugar secundário e auxiliar das estruturas sociais e políticas, como um seu mecanismo e não motor central, submetido a princípios como a tradição ou a propaganda.

O que diferencia Ferguson da horda de economistas e historiadores económicos que, em alturas de crise, invade as prateleiras das livrarias com obras sobre a volubilidade da alta finança ou críticas a modelos económicos é, em primeiro lugar, o seu cinismo. Apesar de assumidamente conservador, e de defensor da economia liberal como o melhor sistema possível (num outro livro, indica que a Escócia, seu país, deu ao mundo as suas três melhores coisas: o golfe, o whisky e o liberalismo), tem uma abordagem relativamente imprevisível e apátrida, não tendo problema em apontar a estupidez de monarcas ou políticos consagrados como causa de algumas crises.

Para além disso, é bastante mais literato do que uma boa parte dos seus pares neste ramo da historiografia. Ao longo de A Lógica do Dinheiro, cita O Mercador de Veneza, Kafka, Goethe, Dickens, Émile Zola ou Anthony Trollope, entre outras referências de ficção, para reforçar ou dar um pontapé de partida nos seus argumentos. Não falta mesmo uma referência a Ian Fleming. Esse mesmo, o criador de 007.

Lilia M. Schwarcz, Heloisa M. Starling, “Brasil: Uma Biografia”
Temas e Debates / Círculo de Leitores, 2015

A edição portuguesa do livro de Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling, originalmente publicado no Brasil, veio complementar uma secção surpreendentemente pobre dos escaparates nacionais: a história do chamado “país irmão”.

Schwarcz, antropóloga de formação, tem-se dedicado à aplicação dessa disciplina à história, dedicando-se a temas de representação, cultura e imagem nos séculos XIX e XX, com, entre outros, um livro sobre o desenvolvimento das teorias da raça no Brasil, O espetáculo das raças (1993), e um sobre as representações do poder durante o reinado de D. Pedro II do Brasil, em As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos (1998). Para além disso, foi uma das fundadoras da editora Companhia das Letras. Já Starling, professora na Universidade Federal de Minas Gerais, é autora de livros como Os Senhores das Gerais (1986), Lembranças do Brasil (1999) ou Uma Pátria para Todos (2009) sobre Chico Buarque, tendo assessorado ainda a Comissão Nacional de Verdade, nomeada por Dilma Rousseff para investigar as violações de direitos humanos no Brasil.

A ideia do livro, uma longa digressão pela história do Brasil, segue a abordagem clássica adotada por alguns historiadores anglófonos, fazendo lembrar, por diversas razões, A History of the American People, de Paul Johnson. Se aquele fazia uma espécie de biografia coletiva do povo americano, as autoras brasileiras propuseram fazer uma biografia do próprio país. Tal como se faz uma biografia de uma personalidade histórica tendo em conta as várias dimensões da sua vida – a recreativa, a pessoal, a mental, a política, etc. –, também Schwarcz e Starling recusam a ideia de que uma história deve ser história política, social ou cultural, seguindo metodologia específica.

Desde um breve capítulo sobre as “vésperas” da colonização até ao impeachment do presidente Collor de Mello, às portas dos duplos mandatos de Fernando Henrique Cardoso e de Lula da Silva, as autoras passam em revista a história do Brasil, deixando bem clara a evidência da maior característica estrutural e política do país: a profunda desigualdade social intrinsecamente ligada às divisões raciais, como uma aberrante herança dos tempos da escravatura. Ser negro no Brasil era e é quase equivalente a ser de um estrato social baixo, e a ascensão social, de alguma forma, “embranquece” o indivíduo perante os outros. Mais do que a conquista da autonomia política e da construção da república, ou de uma verdadeira (ou teórica) cidadania, é essa ferida que importa mais e que continua aberta: “se a ideia é não esquecer, não há como deixar de mencionar a enraizada e longa experiência social da escravidão, a qual acabou por dar forma à sociedade brasileira”, dizem Schwarcz e Starling.

Francisco Bethencourt, “Racismos – Das Cruzadas ao Século XX”
Temas e Debates / Círculo de Leitores, 2015

Fica, desde cedo, bem clara qual a tese central do livro. “O racismo é relacional e sofre alterações com o tempo, não podendo ser compreendido na sua totalidade através do estudo segmentado de breves períodos temporais, de regiões específicas ou de vítimas sobejamente conhecidas – negros ou judeus, por exemplo”. Quem o diz é Francisco Bethencourt, o autor de Racismos, publicado originalmente há pouco mais de dois anos, por finais de 2013, na língua inglesa.

Bethencourt, historiador especializado na expansão portuguesa e na época moderna e professor no King’s College, em Londres, procurou materializar neste livro uma perspetiva de que partilha e sobre a qual tem vindo a refletir: a ideia de que o racismo é “relacional”. Pergunta, por isso, como é que uma mesma pessoa possa ser vista como negra num país e branca num outro. E avança, ao longo do livro, uma resposta: porque a tensão racial, a subalternização ou mesmo a desumanização do outro surge, normalmente, de tensões de outra natureza, quer seja política, social ou económica. Como tal, também o alvo de racismo varia consoante o país e, mesmo, dentro dum mesmo país, de acordo com o bode expiatório de cada contexto histórico. Mudando-se os tempos, mudam-se as vontades e mudam-se, também, os inimigos internos.

Ou seja, segundo o autor, “o racismo não pode ser compreendido dentro dos limites da história intelectual”. Por outras palavras, não é uma ideia, um conceito bem definido e “criado” a partir do século XIX por cientistas como Darwin, Haeckel ou Gobineau, mas antes o resultado de uma personalização das causas de qualquer desequilíbrio político, criando um antagonismo artificial que, rapidamente, se torna real. Portanto, não devemos falar de racismo, mas sim de “racismos”.

No entanto, não deixa de ser importante o “sangue limpo”, a ideia de pureza genética, para traçar a história destas várias perspetivas racialistas. Quer seja para apontar um grupo étnico como inferior para o oprimir (os negros nos EUA) ou para estigmatizar grupos concorrentes como reação (os judeus alemães), há sempre um processo de discriminação, que visa destacar características físicas que torna esses grupos diferentes da norma.

De uma perspetiva mais eurocêntrica (por exemplo, não aprofunda a apropriação da teoria das raças pelos japoneses), o autor atravessa a história mundial desde as Cruzadas até ao século XX, passando pela expansão dos reinos europeus e a exploração colonial dos povos americanos, africanos e asiáticos para mostrar como estes “racismos” tiveram sempre algo em comum: a redução do Outro a um imaginário exótico e primitivo, desumanizando-o e tornando-o vulnerável à discriminação. Para qualquer leitor interessado no tema, há que juntar à biblioteca. Bethencourt escreveu um dos melhores livros sobre racismo, seja qual for a língua em que se leia.

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