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Miguel Guedes: “O palco sempre nos salvou da distância”

Texto: NUNO GALOPIM

No dia em que os Blind Zero apresentam na Casa da Música um concerto que celebra as duas décadas passadas sobre o seu álbum de estreia, o vocalista da banda fala com a Máquina de Escrever.

Foi a 29 de janeiro de 1994. Os Blind Zero eram ainda uma ideia nessa manhã, ao acordar, mas ao voltarem aos seus quartos essa noite tinham feito um primeiro ensaio. A ideia tinha-se materializado na forma de uma banda. E aquele foi assim o primeiro dia do resto da vida de Miguel Guedes, Nuxo Espinheira, Pedro Guedes, Vasco Espinheira e Mário Benvindo. Cerca de um ano e meio depois estavam a editar, pela NorteSul, o primeiro disco. Chamaram-lhe Trigger, e arrebatou o primeiro galardão de Disco de Ouro para uma banda de rock portuguesa a cantar em inglês.

Hoje regressam a palco com essas mesmas canções, para um concerto, já esgotado, que celebra na Casa da Música, no Porto, as duas décadas sobre esse primeiro episódio registado em disco. Em palco, além da formação atual do grupo, vão estar ainda, como convidados, aqueles que foram os primeiros guitarristas dos Blind Zero: Mário Benvindo e Marco Nunes, que trabalharam na composição e gravação de Trigger.

Antes deste regresso ao palco, a Máquina de Escrever falou com Miguel Guedes, o vocalista dos Blind Zero.

Duas décadas depois reconheces em Trigger apenas um gatilho para qualquer coisa nova ou era já algo mais?
No momento em que foi lançado era um princípio de início. Foi um disco de urgência, reflexo do que eram cinco pessoas que se juntaram e que, com o tempo a acelerar vertiginosamente, entraram em estúdio com as canções que tinham nas mãos e com um hype algo assustador. Tenho a ideia de que não foram apenas estas cinco pessoas a ficarem marcadas pelo disco. Duas décadas depois e com o hype afastado, muita gente cresceu com o disco e guardou-o bem próximo.

O que definiu o caminho que levou os Blind Zero ao som com que então se apresentaram?
Todos ouvíamos música muito diferente mas encontrámos um denominador comum. Era como se grande parte da música que ouvíamos se sintetizasse na energia e na mensagem do rock alternativo que emergia naquela altura. Cantar em inglês foi quase uma inevitabilidade. Sentíamos que era um ato de libertação, sem que percebêssemos exatamente porquê. Mas ainda hoje tenho essa ideia: era, sobretudo, uma libertação da rigidez e dos costumes vigentes, no momento em que o tempo começava a acelerar. Talvez tenhamos sido das primeiras bandas portuguesas a surfar na aceleração do tempo e do acesso à informação. Também com o desejo da imprensa para dimensionar uma next big thing à portuguesa.

Viviam-se tempos em que o rock alternativo começava a chegar a um público mais vasto (ecos de Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains, etc). Isso motivava-vos ou assustava?
Eram algumas das bandas que mais ouvíamos na altura e isso sente-se no nosso primeiro disco. Era uma motivação, sem dúvida. Sentíamos que estávamos a fazer música com um pé na altura e no contexto. E todas essas bandas bebiam em parte das nossas referências mais antigas. Nunca foi assustador. A dada altura foi algo violento sentir que só os Blind Zero eram comparados ao que se fazia lá fora. Fomos vendo bandas e artistas a fazer decalques puros e duros das suas influências. Hoje então, cada vez mais. Dá-nos vontade de rir o quanto, na altura, nos amaram e odiaram por isso. Por mera oposição ou inveja. Mas compreendemos. Era o contexto da época: o meio musical e a imprensa tinham essa necessidade. Deu-nos longevidade e sentido crítico, não duvido.

Havia no que faziam algum eco claro de vivências do que era o Porto naquela altura ou os horizontes da vossa música estavam mais longe?
Tenho a ideia de que escrevemos sempre sobre as pessoas ao nosso lado. Muito sobre o Porto, inevitavelmente. Musicalmente, a estética era anglo-saxónica, ainda que teatralizada. Mas nunca tivemos a pretensão de falar do que não conhecíamos. A língua inglesa sempre foi um veículo, as rodas do veículo. Sempre foram as pessoas que viajavam dentro do carro que nos interessaram.

Explica o conceito da capa do álbum…
A capa do álbum podia ter sido uma arma. A ideia de puxar o gatilho, “pull the trigger”, ponto de partida. Mas era muito mais a ideia de arremessar do que a ideia de atingir. Daí que a arma fosse substituída por um pistola de abastecimento de combustível. Era dele que queríamos beber e acender um fósforo. Para além de que todo o imaginário da banda estava lá, sintetizado na viagem e no tiro de partida.

Estar numa editora como a NorteSul naquela fase o que significou para o lançamento da banda?
O nosso primeiro CD-single (Recognize) foi o primeiro lançamento da editora. O Trigger foi disco de ouro (o primeiro de uma banda rock a cantar em inglês). A NorteSul vivia com pessoas que se entregavam a um projeto editorial único e que deram muito aos tempos novos que se viviam. Foram tempos muito bonitos para todos e para muitas das bandas que envolveram e assinaram.

O que garante a longevidade ao grupo e como vivem hoje a vossa relação com o tempo que dedicam à banda?
Numa banda as pessoas tendem a afastar-se com o tempo. Por cansaço, por discordâncias, por opções estéticas diversas. Tivemos alguns afastamentos. Mas sempre houve respeito, até pelo tempo de cada um. E depois há o palco. O palco sempre nos salvou da distância. Ao vivo há um verdadeiro sentimento de família, amizade e de partilha. E divertimo-nos imenso, somos muito felizes na estrada.

Na hora de o revisitar, o que mudariam no disco?
Eu mudaria muita coisa mas provavelmente seria para estragar.

1 Comment on Miguel Guedes: “O palco sempre nos salvou da distância”

  1. “Deu-nos longevidade e sentido crítico, não duvido”

    Longevidade, talvez. Sentido crítico, definitivamente não.
    Anódinos e indistintos, como sempre.
    Ainda hoje, prefiro ouvir metade da pior música dos Pearl Jam do que a discografia inteira destes senhores.

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