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Jacques Rivette (1928-2016)

Texto: PEDRO LEITÃO

Pedia a quem o via uma dedicação nunca antes tentada, e que invariavelmente ditava uma apreciação de extremos da sua obra como cineasta. O realizador francês morreu dia 29, aos 87 anos.

Um dos nomes na génese da Nouvelle Vague, Rivette inscreve o seu legado na história do cinema pela originalidade e ousadia com que subverteu modelos narrativos convencionais, ao diluir as fronteiras entre improviso e representação, razão e delírio, realidade e ficção, redefinindo uma nova relação com o espectador e a obra cinematográfica. Pedia a quem o via uma dedicação nunca antes tentada, e que invariavelmente ditava uma apreciação de extremos da sua obra como cineasta. O cineasta, que sofria da doença de Alzheimer, morreu no dia 29 de Janeiro, aos 87 anos.

Jacques Rivette fará sempre parte, enlevado nos anais da história do cinema, do quinteto fundador da Nouvelle Vague francesa, a par de Jean-Luc Godard, François Truffaut, Éric Rohmer e Claude Chabrol. Enquanto manifesto artístico da nova corrente, a revista Cahiers du Cinéma permitiu a Rivette sistematizar a sua proposta de ruptura com os cânones estabelecidos, ao valorizar a centelha insubmissa de um punhado de realizadores americanos ao serviço desse mastodonte de conservadorismo que foi a Hollywood dos anos de ouro: Howard Hawks, Nicholas Ray, John Ford, entre outros. Rivette trabalhou ainda com grandes lendas do cinema francês, como Jean Renoir e Jacques Becker, de quem foi assistente. Mais tarde, desempenhando o papel de diretor de fotografia, ajudou Truffaut e Rohmer a realizar as suas primeiras curtas-metragens.

Natural da Normandia, da cidade de Ruoen, o jovem Rivette tem no Ciné-Club du Quartier Latin, em Paris, o contacto inicial com o cinema de vanguarda. Aos 22 anos já escreve para a revista do Ciné-Club, dirigida por Eric Rohmer, enquanto se lança na realização das suas curtas-metragens Aux Quatre Coins (1950), Le Quadrille (1950) e Le Divertissement (1952). Por essa altura, André Bazin funda os Cahiers, revista na qual Rivette cedo tomará o seu lugar no núcleo duro da crítica, e que chegará mesmo a dirigir entre 1962 e 1965. Nesse período, inaugura uma postura editorial de intervenção que equaciona o cinema como instrumento de denúncia e mudança; como mural e voz da geração que terá no Maio de 1968 o seu clamor, a sua revolta.

Pela sua obra perpassa uma dúvida, uma indefinição fundamental quanto à ambivalência da relação coisa observada/observador. O espectador deve abandonar os modelos que habituaram (formataram) as suas expectativas e gosto, entregando-se à experiência do cinema, segundo o seu autor: liberta da prisão da narrativa, entregue às infinitas possibilidades do experimentalismo. Não raras vezes os seus filmes transpõem as circunscrições da perspectiva e da lucidez, criando planos em que a imagem se confunde no reflexo de si própria – a vida enquanto representação, o mundo enquanto teatro – ou se dissolve no labirinto da compreensão – a indulgência do delírio que degenera numa paranoia totalitária.\


“Celine et Julie vont en bateau”, de 1974

Celine et Julie vont en bateau (1974) traduz brilhantemente este programa. Rivette filmou-o sem argumento, enquanto acompanhava as duas protagonistas femininas, Juliet Berto e Dominique Labourier, através de uma viagem onírica de brincadeiras e alucinações. David Thomson descreve-o como “o filme mais inovador desde Citizen Kane (…) Enquanto Kane foi o primeiro filme a sugerir que o mundo da imaginação é tão poderoso quanto a realidade, Celine et Julie foi o primeiro a sugerir que tudo é inventado”. A sombra constante do delírio que esmaga as personagens e as leva ao desespero (o mesmo acontecerá ao espectador que teime em enclausular-se no seu conformismo estético) está bem patente em obras como Paris nous appartient (1961), Out 1 (1971/72), La Bande des quatre (1988), entre outros. Por esta obsessão do autor, é frequente o paralelismo estilístico com a obra de escritores americanos como Thomas Pynchon ou Don DeLillo.

Rivette é jocosamente referenciado pela duração impossível dos seus filmes, que exigem do espectador uma abnegação e entrega plena à experiência do seu cinema. Para alguém não familiarizado com os seus filmes, será uma verdadeira prova de fé. A versão inicial de Out One (1971) tinha quase treze horas de duração e foi exibida apenas uma vez, seguindo-se, em 1972, uma versão de (apenas) quatro horas e quinze minutos, a mais divulgada desde então.

Por estas razões, este é porventura o autor menos conhecido e o menos visto de entre os mestres fundadores da Nouvelle Vague. Mas se é verdade que, para um espectador sobretudo habituado a cinematografias convencionais, é difícil a libertação das fórmulas ubíquas que o separam da obra de Rivette, não é menos verdade o deslumbramento que o espera assim que aceitar a fertilíssima originalidade e surpresa do seu cinema.

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