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Para sempre: 100 anos de Vergílio Ferreira

Texto: JOÃO SANTANA DA SILVA

No dia 28 de janeiro de 1916, há cem anos, nascia Vergílio Ferreira, um dos maiores escritores portugueses do século XX. O que nos deixou?

Há poucos anos, decidi percorrer as vilas perdidas do Centro do país, e dei por mim a assistir às festas de agosto de algumas aldeias que compõem o picotado da serra da Estrela. Entre várias observações e conversas, fiquei a conhecer três factos normalmente esquecidos: em primeiro lugar, que a zona de Gouveia fica quase deserta assim que termina o mês de setembro, arrumados os foguetes e desmanchados os palcos das festas, levando os emigrantes consigo o dinheiro, as saudades e a própria alegria do sítio; segundo, que as lojas chinesas são gradualmente mais barrocas conforme se mergulha mais fundo no interior do país, sendo proporcional às saudades dos emigrantes o uso de bandeiras portuguesas em objetos banais como corta-unhas ou isqueiros; e terceiro, que a discreta mas orgulhosa aldeia de Melo é a aldeia onde nasceu Vergílio Ferreira.

A 28 de janeiro de 1916, ou seja, há precisamente cem anos, nascia Vergílio Ferreira em Melo, concelho de Gouveia. Uma aldeia que ainda guarda recordação querida (de alguns que conhecem a família) e presta homenagem. Mesmo quem não o lê diz: “Sabe quem nasceu aqui? O Vergílio Ferreira.” Aliás, dizem-no mesmo pessoas que nunca leram um livro, de todo. O facto é que, para além do pintor Abel Manta, pai do também pintor João Abel Manta (que muitos conhecerão dos seus desenhos e quadros icónicos dos anos setenta), o escritor é mesmo o mais ilustre dos filhos da aldeia.

Começou na poesia, mas nela não se reviu. De qualquer forma, foi um registo que soube cultivar e metamorfosear para a sua escrita de objetos longos, uma espécie de prosa poética que fez escola – embora menos do que se desejaria –, sendo possível reconhecer algumas incursões de António Lobo Antunes no estilo “fluxo da consciência”. O primeiro romance de Vergílio Ferreira, O Caminho Fica Longe (1943) foi o primeiro de alguns que o próprio identificou enquanto fase neorrealista, tendo-o renegado mais tarde. O mesmo fez com Onde Tudo Foi Morrendo (1944) e o excelente Vagão «J» (1946). Terá ainda concluído um romance em 1947 que não publicou, pensado com o título Promessa (só seria publicado mais de 60 anos mais tarde, de forma inédita, pela Quetzal), mas a viragem deu-se com o romance publicado em 1949, e apropriadamente chamado Mudança. É um novo Vergílio que ali surge, numa narrativa com camadas, articulando ação, voz do narrador, memória e algo então bastante único, uma linha de reflexão interna quase desligada do que se passa no tempo da ação.

É o escritor que surge dessa transição, dessa “mudança”, que produzirá A Face Sangrenta e a obra-prima Manhã Submersa, ambos em 1953. É Manhã Submersa (que seria adaptado ao cinema em 1980 por Lauro António) que marcará a sua carreira literária, projetando o seu nome entre o mundo dos escritores e o dos leitores, não tinha ainda 40 anos completos. A imagem da palmatória dos padres, a bater na palma estendida dos meninos, nunca mais seria a mesma. Nem a conceção de Deus. Muito menos a santidade da Igreja, dos seminários e da religião na escola. Ou a forma como a escola-igreja vergava as crianças à vontade de uma autoridade suprema que lhes retirava a “técnica da alegria”. Dizia o narrador de Manhã Submersa que “os técnicos da perfeição sentiam-se mal nos recreios. O reino deles era o silêncio e a disciplina. Fora disso, andavam desorientados, porque não tinham adquirido ainda a técnica da alegria”. Essa técnica era a técnica da desobediência à autoridade.

É, pois, um romance de uma maturidade precoce aquele que surge já alguns anos depois, em 1959: Aparição. No final do século XX, tornara-se livro-chave da obra de Vergílio, mais por defeito e hábito de estudo escolar do que pela sua superioridade a outras obras. Mas nele já se vê ainda um outro escritor. É uma voz interior, desiludida, zangada com a condição do homem. Um questionamento que evoca Raul Brandão e Húmus, que procura os fundamentos tanto da injustiça e da transgressão como da morte, tal como Páscoa Feliz, de José Rodrigues Miguéis, conseguira fazer quase trinta anos antes numa abordagem dostoievskiana. É, por fim, a consagração de um escritor racionalista, que procura tirar o tapete de debaixo dos pés dos seus leitores, lembrando-os da vulnerabilidade e falibilidade humana.

Acidentalmente avesso a entretenimento literário, Vergílio Ferreira torna-se um autor obrigatório porque magnetizante, exercendo um fascínio num tempo em que questionar Deus, autoridade e a própria Igreja era reservar lugar na prisão e, pura e simplesmente, não ser publicado. Vergílio conseguiu-o e passou relativamente incólume por entre os pingos da chuva da censura (tendo mesmo sido criticado por isso). As décadas de 1960 e 1970 deram à luz alguns dos seus livros mais lidos, com um cunho levemente político, ainda que bebendo cada vez mais do existencialismo francês. A teoria crítica imiscuíra-se no romance português. Alegria Breve (1965) e Nítido Nulo (1971) sobressaem entre quase dez romances que escreve nestas duas décadas, mas é neste último que mais ergue a voz contra a situação. “A verdade é só uma e as portas da cadeia não prevalecerão contra ela”, diz em Nítido Nulo, lembrando um certo chefe de Governo que já tinha cento e cinquenta anos, lembrando um regime que cai não cai de velho.

Longe de ser adotado por um movimento social ou político, como Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca ou Alves Redol o foram, Vergílio Ferreira continua a insistir numa postura independente, que na verdade lhe permitiu sobreviver. Já estava então, há alguns anos, a dar aulas no Liceu Camões, em Lisboa (desde final dos anos cinquenta), numa relativa estabilidade. Por outro lado, o distanciamento ideológico permitia-lhe continuar a publicar.

No entanto, não deixava de ter voz, lembrando que “dizer ‘não’ é prodigioso, o gado humano não sabe. Dizer ‘não’ é abrir um espaço para o homem se pôr de pé” (ainda Nítido Nulo). Por isso, não fará impressão que em Rápida, a Sombra (1974) ataque quer a situação, quer os novos burgueses, a esquerda que grita confortável de um topo de gama descapotável, antes de arrancar prego a fundo. “São os tipos de boas famílias, têm carro, apartamento, vão às boîtes pregar a justiça. São progressistas, tomam Marx com champanhe a todas as refeições. Fazem muitas revoluções entre duas bicas, citam Lenine quando comprar um carro novo e dizem ‘proletários de todo o Mundo’. Mas isto deve ser uma lei geral, os cristão eram escravos e agora são banqueiros.” É o mundo a girar rápido, e Vergílio a existir. E a pensar.

Em 1976 publica um volume de contos, mas é o romance o seu terreno. São a extensão, o espaço e o fôlego do romance o que lhe permite respirar fundo. Signo Sinal (1979) e Para Sempre (1983) são romances de uma fase diferente da sua vida. Derrubado o Estado Novo, a inquietação política é varrida da sua obra, voltando-se novamente para a vertigem da morte, aquela que sempre o manteve acordado de noite, que o obrigara a questionar os padres e dar, literalmente, a mão à palmatória. É a vertigem da morte e do amor, e da luta constante entre ambos, tentando anular-se um ao outro. “NÃO MORRAS!”, grita em Para Sempre. “Sê calmo. Estás só. Tudo findou. Mas eu não quero! Sê discreto, na inteireza da tua solidão. Oh, relembrar ao menos, reviver o fugitivo instante do que foi perfeito, antes de tudo o que o corrompeu.”

Uma Esplanada sobre o Mar (1986) e Até ao Fim (1987) marcam já uma atenta contemplação da finitude, do infinito que nos leva a vida, a única coisa que interessa ao escritor. É também na década de 1980 que começa a publicar os seus diários, a célebre Conta-Corrente, que publicaria até quase ao ano da sua morte, deixando ainda, em vida, o diário ensaístico Pensar (1992), num registo nietzschiano. Então, em 1990, já com 74 anos, publica ainda uma última obra-prima, Em Nome da Terra, um romance forte sobre a falência do corpo e da divisão entre matéria e vida. O que nos torna humanos? O corpo ou o espírito? Da sacralização de um corpo que se parte e destrói, caminha para uma perceção de si mesmo enquanto algo mais, com uma significância metafísica que transcende a perna amputada (será ainda parte do corpo, do “eu”?) e o corpo sepultado.

Na Tua Face (1993) e Cartas a Sandra (1996), este último uma continuação epistolar de Para Sempre, completam uma obra literária que deixa de ser produzida no dia da morte do autor, a 1 de março de 1996. Mas que nos deixa muito. Muito mesmo. Mesmo sem visitar os ensaios, os romances de Vergílio Ferreira são uma ode à consciência e ao sentimento físico da existência. O sensorial entrelaçado com o racional. E são um verdadeiro tratado de história da literatura portuguesa, atravessando uma fase neorrealista, uma racionalista, um encanto existencialista, um despertar para o problema da finitude e da perecibilidade do corpo humano, a descoberta do amor enquanto boia de salvação e sentimento de consumação da vida. E, por último, o reencontro com uma paz perdida, qual paraíso de Milton. Tal como nas últimas linhas de Até ao Fim: “Uma serenidade invulnerável alastra pelo universo. Os rapazes da piscina cá do alto recolheram a casa. A piscina deserta. O mar deserto até ao limite do poente. A vida inteira dentro de mim.” Vergílio Ferreira nasceu em 28 de janeiro de 1916 em Melo, Gouveia. Deixou-nos em 1 de março de 1996, em Lisboa. Não o esqueçam. E guardem esta obra. Para sempre.

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