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Perdido em Marte… há meio século

Texto: NUNO GALOPIM

Uma nova edição em DVD e Blu-ray devolve à vida o clássico de culto “Robinson Crusoe on Mars”, que recorda o final de uma era de narrativas que as descobertas da Mariner 4 em 1965 obrigaram a repensar.

Meio século antes de Ridley Scott ter partido de um romance de Andy Weir para nos contar a história de um astronauta perdido em Marte uma outra narrativa com premissas semelhantes fazia dessa aventura a uma das mais elaboradas representações do planeta vermelho no cinema até à data. Realizado por Byron Haskin, realizador que nos anos 50 assinara várias outras experiências sci-fi, da adaptação de A Guerra dos Mundos de H.G. Wells em 1953 à de Da Terra à Lua de Júlio Verne em 1958, passando por The Conquest of Space (1955), todos eles exemplos de primeiras produções Technicolor nestes domínios, Robinson Cruose on Mars pode não ter representado o mais expressivo dos seus êxitos em bilheteira. Mas, mais de 50 anos depois, tornou-se um caso de culto a ponto de merecer agora uma edição em DVD e Blu-ray com faixa áudio de comentários pelo especialista em efeitos visuais Robert Skotak, num lançamento ainda devidamente acompanhado por um booklet com um ensaio novo de Paul McAuley.

Estreado em junho de 1964, e por isso mesmo antes da chegada (em julho de 1965) das primeiras imagens da Mariner 4 que mudariam para sempre o nosso conhecimento sobre a superfície marciana e que, consequentemente, mudariam a própria forma de ali projetar histórias de ficção, Robinson Crusoe on Mars espelha ainda ténues ecos do retrato de Marte como um mundo árido, cortado por canais com água, tal e qual o propusera a visão do astrónomo Percival Lowell em finais do século XIX e que definira as bases para muita da ficção científica com cenografia marciana desde então.

O filme de Byron Haskin, com argumento de John C. Higgins e Ib Melchior, juntava contudo a essas visões algumas heranças mais antigas e, também, ideias inovadoras características da aurora da era espacial. O próprio título denuncia a fonte de inspiração primordial, encontrada no Robinson Crusoe de 1719, de Daniel Defoe, ao juntar inclusivamente a um astronauta cuja cápsula se despenha em Marte um “sexta-feira”, ou seja, um alienígena de forma humana que escapa do trabalho escravo numa exploração mineira e junto do americano busca salvação, guarida e companhia.

Em traços largos o filme acompanha a cruzada de sobrevivência do astronauta americano que, uma vez na superfície marciana e sem nave que o leve de volta, começa por explorar a paisagem, encontrando primeiro rochas que, quando queimadas, libertam oxigénio, mais adiante achando água, comida… e o seu sexta-feira. Entre o regime contemplativo de uma paisagem desértica com céu tingido a vermelho e frequentes manifestações de fogo ou os solilóquios do protagonista ao gravar o seu diário, e os polos de ação definidos pela tentativa de fuga aos aliens vindos de Orion que zelam pela mina e seus escravos, que leva o astronauta e sexta-feira a cruzar outras latitudes e paisagens, Robinson Crusoe em Marte é, à distância, como um retrato de um fim de era para as histórias marcianas que antecede essa fronteira científica marcada pela Mariner 4 em 1965 e, ao mesmo tempo, assinala uma tentativa de fuga para além das aventuras de baixo orçamento e alma de aventuras mais juvenis que tinham habitado alguns dos filmes que haviam visitado o quarto planeta nos anos 50.

Como nota adicional, vale a pena ver como o trailer pede caução científica para justificar um filme. Que de “científica” só tem mesmo a… ficção.

“Robinson Crusoe on Mars” (1964)
de Byron Haskin
DVD + Blu-ray Eureka

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