Últimas notícias

Uma imposição e um protesto pela expressão livre

Texto: ANDRÉ LOPES

Trata-se do regresso de uma das figuras mais marcantes daquela música popular que não teme em abraçar ideias que têm tanto de apelativas como de lucrativas: Rihanna traz-nos agora um álbum que esqueceu os singles. Em boa hora chegou.

Reflexões sobre Rihanna e o seu impacto na música pop do séc. XXI tendem a assumir frequentemente a vertente de tela de projecção para os preconceitos que lhe são commumente associados, relativamente à sua ausência do processo criativo gerador das próprias canções. Canções essas que, quase sempre têm alcançado um papel reformulador nas linhas que guiam o trajecto da música pop dita “comercial” e, a cada momento, contemporânea. Por conseguinte, poder-se-ia assumir Rihanna como mais uma variante do modelo de “estrela pop” cujo trajecto artístico é pensado ao pormenor com intuito de maximizar lucros. Porém, a lógica patente no pensamento sobre a canção popular enquanto produto mercantilizado reconstrói o elemento da expressão criativa de um autor, esterilizando-o com um propósito de uniformização que o molde de forma apelativa às maiorias.

Essa é, de resto, uma dinâmica de raciocínio que menospreza aquilo que grande parte da população pode (ou poderá) considerar como digno da sua atenção.

Importa dizê-lo: Rihanna é uma artista conhecida pelos seus singles: canções extremamente apelativas onde o foco das mesmas se divide em igual parte por uma entrega vocal irrepreensível, e por uma escolha de instrumentais que prentendem – e conseguem – ser difíceis de esquecer. Não pela sua originalidade, mas pela forma como providenciam a robustez necessária para que faixas como Only Girl (in the World), Umbrella, ou Diamonds sejam realmente infalíveis enquanto singles pop.

Com o oitavo disco de originais, encontramos prioridades diferentes e por isso desde já refrescantes. ANTI é uma declaração logo desde o seu título: surge como uma oposição, uma proibição ou um boicote. E basta uma audição para visualizar aquilo a que Rihanna se opõe aqui: à regra e, consequentemente, à expectativa. Escuta-se, ao longo das treze canções do alinhamento deste álbum, uma expressão que não se deixa cair na revolta desenfreada contra quaisquer normas ou padrões, mas sim o eco de uma introversão e – pasme-se – um propósito de honestidade. ANTI soa a mais do que um capricho, à projecção do ethos de uma figura artística ainda por revelar.

O ambiente exploratório é instaurado com Consideration e acaba por nunca cessar por completo durante a duração do álbum. Ritmos mecanizados e desacelerados pairam conjuntamente com camadas de sintetizadores que abandonaram as estridências EDM, respirando agora atmosferas etéreas sempre na vertigem do glitch. Menos extravagante que MAYA (2010) – e por conseguinte Yeezus (2013) – ANTI partilha com esses dois álbuns uma certa matriz originária, pela qual se rege um certo hip hop fascinado com o futurismo do presente.

Contudo, Rihanna tem uma proposta diferente: com andamentos que nunca sobressaltam, as canções deste novo álbum servem de estrutura tensa para letras autocentradas num sujeito que encontra na relação com o outro uma contingência conflituosa. O tom é introvertido e o som sente-se congruente. Ainda assim providencia algo de muito memorável: desde a guitarra que faz de Kiss it Better uma variante deturpada de algo que Prince poderia ter imaginado entre Purple Rain (1984) e Around the World in a Day (1985), e passando pelo loop industrial de Woo, há uma ideia que ainda assim é particularmente transversal em ANTI: não há plano B, nada aqui pretende a popularidade de outrora.

Needed Me e Yeah, I said it aprofundam a particularidade sónica que Tinashe conseguiu no seu último Amethyst (2015), e Same Ol’ Mistakes apropria-se descaradamente de uma canção de Tame Impala, sobre a qual Rihanna simplesmente canta. “I know that you think it’s fake / Maybe fake’s what I like” parece sarcástico de tão realista. É ainda nas letras de Kevin Parker que mais adiante a artista se encontra: “And I know that it’s hard to digest / But maybe your story ain’t so different from the rest / And I know it seems wrong to accept / But you’ve got your demons, and she’s got her regrets”.

No final continuaremos a não saber ao certo o que se passou, nem a sua razão. Não obstante, ANTI formaliza o trabalho mais consistente de Rihanna até à data. Simultaneamente, salienta-se já como um dos elementos que ajudará a perceber o trajecto que a música popular irá tomar ao longo de 2016.

Rihanna
“ANTI”
Roc Nation
★★★★

Deixe um comentário