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Luz e cor ao serviço da canção pop

Texto: NUNO GALOPIM

A reedição em vinil dos três primeiros álbuns dos Erasure recorda alguns dos melhores momentos da dupla e episódios marcantes da pop feita com eletrónicas na segunda metade dos anos 80.

Um homem canta e dança num terraço, entre roupa estendida… A canção entoa a palavra “sometimes” vezes sem conta e é daquelas que entram no ouvido à primeira e, duas ou três audições depois, parece que tem ganchos e das nossas cabeças não quer sair… Foi ali, no Outono de 1986, que o mundo descobriu os Erasure, que apresentavam em Sometimes o single de avanço para The Circus. E, para muitos, a segunda surpresa foi constarar que aquele era já o segundo álbum da dupla, alguns menos desatentos reconhecendo mesmo assim que, por detrás daquela voz sonante estava um rosto discreto que ainda recentemente tinha sido avistado nos Yazoo…

Os Erasure correspondem, na verdade, ao lugar desde cedo procurado por essa figura mais discreta. Um dos fundadores dos Depeche Mode, Vince Clarke deixara o álbum por alturas do lançamento de Speak & Spell, encontrando nova companhia na voz de Alison Moyet com quem formou os Yazoo, pelos quais editou os belíssimos Upstairs At Eric’s (1982) e You and Me Both (1983), assim como um punhado de singles que, agora à distância, vale a pena reconhecer como sendo dois dos momentos mais inspirados (e influentes) de toda a sua obra.

A parceria não sobreviveu ao segundo álbum, vendo-se Vince Clarke novamente sem voz a seu lado, encontrando pontualmente a do ex-Undertones Feargal Sharkey em Never Never, tema que editou através do projeto The Assembly (que não durou mais do que esse single), lançado depois outro, igualmente pontual, com Paul Quinn.

Andy Bell, a voz sonante que em 1986 o mundo escutava a cantar Sometimes, tinha algumas afinidades com a garganta poderosa de Alison Moyet, se bem que sem as mesmas tonalidades soulful. Juntos como Erasure, estrearam-se em setembro com o single Who Needs Love Like That que passou a leste das atenções, mais discreta sendo ainda a carreira de Heavenly Action, que se seguiu em novembro. E convenhamos que não foi muito diferente a receção que acolheu a chegada, em maio de 1986, do álbum de estreia Wonderland, igual destino sendo votado a Oh L’Amour, um terceiro single (com uma bela versão de Gimmie Gimmie Gimmie dos Abba no lado B da versão máxi), que encerrou a vida deste disco como um tiro fora do alvo no campeonato das vendas mas que, na verdade, representa uma interessante exploração de caminhos possíveis para uma pop electrónica que, mesmo açucarada nas melodias (e frequentemente algo inconsequente nas palavras) não deixava de vincar alguma angulosidade uma composição.

Essa visão levava-os a exploravar ecos do emergente eletro, a assimilar o funk (como se escuta em Pistol) e a integrar pistas de uma nova música de dança em construção, cabendo a temas como Say What, Push Me Shove Me ou Senseless, embora sem a mesma visibilidade do que os singles, o facto de parecerem hoje ser os mais marcantes do alinhamento que representa ainda um dos primeiros grandes trabalhos de Flood na produção.

Seria contudo nas linhas mais suaves, polidas e doces Love is a Loser, Cry so Easy ou Reunion que encontrariam os caminhos que os conduziriam ao passo seguinte.

The Circus, editado em março de 1987, chega sob a memória recente de Sometimes e junta as presenças de It Doesnt’t Have to Be ou Victim of Love para dos Erasure fazer um caso de sucesso maior no panorama da pop electrónica da segunda metade dos oitentas, representando a visão mais luminosa de uma mesma família que via então os Depeche Mode a desviar-se por rotas mais assombradas, em breve experimentando a assimilação de referências americanas e partindo para outras demandas.

O álbum assinala também em Hideway (e já agora alguém avise o Spotify que tem o título da canção mal escrito na sua plataforma) a primeira expressão de uma incursão por temáticas LGBT na obra de uma banda que em breve seria nome de referência no panorama queer da música pop.

O álbum é, face ao que Wonderland mostrara, um disco mais elaborado e cuidado na produção, novamente com Flood (partilhando esse labor com Vince), e traduz clara demanda de novas possibilidades vocais para Andy Bell. Talvez não seja tão ousado nas formas e mais suave nas arestas, deixando os seus instantes de maior desafio à norma então definida em canções como Sexuality (que está longe de ser brilhante) ou Leave Me To Bleed. É contudo na força dos seus singles que fixa a “voz” dos Erasure que não só se encontram assim a si mesmos como o fazem sob as atenções do mundo. E nascia um fenómeno pop.

Já sob o estatuto de popularidade maior que The Circus, e com uma solidez de carreira conquistada Vince Clarke (que nunca tinha feito um terceiro álbum com ninguém) e Andy Bell chegam, em abril, de 1988 a The Innocents com Stephen Hague a produzir e nova vontade em experimentar caminhos possíveis para uma linguagem pop que os álbuns de 1986 e 87 tinham ajudado a definir.

Tal como o sugere o vitral que adorna a capa do álbum, há aqui um sentido de drama, de cor e de cruzamento de tempos e referencias, que se materializam em canções pop perfeitas como o são A Little Respect, Ship of Fools, Imagination ou Chains of Love, não fechado o alinhamento a porta à experiência de novas possibilidades, seja no flirt com a house em Sixty-Five Thousand, no discreto reencontro com ecos de uma matriz electro em Weight of The World ou na cenografia mais teatral de Witch in The Ditch, fazendo deste, juntamente com Chorus (que chegaria em 1990) um dos dois melhores discos dos Erasure e um dos maiores monumentos que a pop nos deu a escutar na segunda metade dos anos 80.

É verdade que, se a estes três discos juntarmos os álbuns Wild (1989) e o já referido Chorus (1990), mais a irresistível antologia de singles Pop! The First 20 Hits (1992), ficamos com o que interessa na obra dos Erasure já que, a partir de I Say I Say I Say ou repetem mais do mesmo (em não tão bom) ou perdem o norte em incursões menores por caminhos menos bem adubados quer em ideias quer em canções.

Na hora de assinalar os 30 anos sobre o aparecimento do tal álbum que passou longe das atenções em 1986, nada como recordar o que nos deram de melhor. E estes três discos, novamente disponíveis em vinil, recordam de facto, alguns dos melhores episódios da história dos Erasure e lembram momentos significativos da história da pop electrónica.

“Wonderland” (1986)
★★★★

“The Circus” (1987)
★★★★

“The Innocents” (1988)
★★★★★

Todos eles reedições em vinil pela Mute Records

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