Últimas notícias

Para ouvir sem preconceito

Texto: NUNO GALOPIM

St. Lucia é sul-africano, vive em Brooklyn, e mostra em “Matter” como da recuperação de sonoridades menos ‘gourmet’ dos anos 80 pode nascer uma necessidade de repensar a relevência dessas memórias da pop.

O tempo tem uma capacidade única para transformar a forma como lidamos com o que uma geração toma como sendo “menor” ou mesmo “mau”, com o envelhecimento a coisa evoluindo às vezes para uma espécie de azeite vintage que não só quem antes torcia o nariz por vezes passa a tolerar (tal é o poder da nostalgia) como a alguns novos públicos parece mesmo algo tão fantástico que não dá para entender como tão mal aquela música outrora fora tratada. Na verdade isto é válido também para o que de melhor toda a produção artística nos vai dando, não sendo raros os casos de quem só tarde demais nota que algo especial e único ali aconteceu sem que, no tempo certo, ninguém (ou quase ninguém) desse por isso. E basta citar o nome de Nick Drake para ficarmos falados deste outro ponto de vista…

Com St. Lucia não podíamos estar mais longe de Nick Drake. E, ao mesmo tempo, mais perto de todo um conjunto de memórias que fizeram páginas das menos estimulantes da história da utilização dos sintetizadores na pop dos anos 80, do surto euro pop (que por volta de 1985 entrou em cena assombrando a paciência de tudo e todos com nomes como os de Baltimora, Fancy ou os reis da cena, os Modern Talking) aos fenómenos power pop que, sob o efeito das novas tecnologias em estúdio e opções de produção, ofereciam uma intensa exploração dos sons produzidos por teclas junto de bandas como os Go West, Re-Flex, Wang Chung ou os alemães Nena, entre outras muitas que o tempo tratou d, na generalidade, de esquecer.

Se o facto de terem esses sido fenómenos para lá da fronteira do azeite e de quem se dizia que não deixariam marca na história da música, o facto de agora entrar em cena um projeto como St. Lucia obriga-nos a repensar que papel terão afinal na história da música pop. E se já há tantas bandas más nos livros que evocam episódios marcantes de outras décadas na história da música pop, convenhamos que não serão estes contingentes a estragar mais a coisa.

Por muito europeu que seja o cardápio de referências que toma, St. Lucia na verdade é um músico sul-africano, mas que hoje reside em Brooklyn (Nova Iorque). Chama-se Jean-Philip Grobler, estreou-se como St. Lucia com um par de EP e o álbum When The Night entre 20102 e 2013, assinou remisturas para Charli XCX, Foster The People ou Passion Pit mas tem no seu novo álbum, Matter, um corpo de canções que finalmente lhe permitirão ir a jogo com outros trunfos na manga.

As canções são essencialmente festivas e celebratórias, muito na linha do desapego hedonista que caracterizava a música que andava nos antípodas tanto de uns The Smiths como de uns Pet Shop Boys em meados dos oitentas, recuperando registos para teclados e sonoridades que por esses dias animavam as pistas que dançavam euro pop ou o FM que lançava nas ondas uma pop recheada a sintetizadores com músculo. Marca do presente, e de uma forma de estar em alguma pop do presente, há por vezes por aqui ecos de vivências mais recentes, dos noventas e, mais ainda, do pós-milénio.

Tudo isto poderá parecer assustador a quem não tenha nenhum destes valores no seu altar. Mas a verdade é que St. Lucia alinhava as ideias num punhado de canções pop bem estruturadas, plenas de ecos dessas memórias mas capazes de marcar um tempo presente e anuncia, já em tempo frio, uma banda sonora que faz desejar que o calor chegue mais depressa (ou não venha ele do hemisfério que toma janeiro e fevereiro como meses de quente verão).

Não há aqui a panaceia de uma nova pop. Nem Matter é mais do que uma curiosa coleção de canções que mostram uma capacidade de recontextualizar memórias. Mas é ao ir ao caldeirão do que outrora era (por muitos, não todos) como menor e destinado ao esquecimento, dando-lhe um valor referencial no presente, que o projeto abre as portas a uma redescoberta de filões algo esquecidos da pop dos anos 80. Um bom exercício para aprender a lidar com o preconceito, portanto…

Não me digam que não gostam hoje de um disco que detestavam há muitos anos ou vice versa (a menos que tenham menos de 25 anos, e então deixem que o tempo vos surpreenda em breve)… Certamente mudaram já, como eu mudei, de opinião sobre muitos discos. Isso não é ser vira-casaca: é evoluir no conhecimento e vivência das coisas, mudando ou nem por isso. Felizmente não somos uma folha de Exel estanque na qual marcamos informações imutáveis na nossa carteira dos gostos. O que não nos impede de, no final, mantermos a opinião menos entusiasmada que tínhamos da coisa já na altura. Mas nada como de facto sermos obrigados, de tempos a tempos a reavaliar as nossas opiniões sobre o que vamos ouvindo.

St. Lucia
“Matter”
LP, CD e DD Columbia Records
★★★

1 Comment on Para ouvir sem preconceito

  1. St. Lucia é um dos melhores grupos da atualidade, infelizmente é muito subestimado, as músicas são simplesmente fantásticas, não tem uma que eu ouça e ache ruim! Principalmente o primeiro album When The Night que é uma viagem por si só. Amo demais!

    Gostar

Deixe uma resposta para Daniel Barbosa Cancelar resposta