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O horror dentro da máquina da morte

Texto: NUNO GALOPIM

Um dos mais impressionantes filmes já criados sobre as memórias do Holocausto, “O Filho de Saul” mergulha-nos num dia e meio na vida de um “sonderkommando” num dos crematórios de Auschwitz-Birkenau. Está agora editado em DVD.

"O Filho de Saúl"

Não precisamos ver nem ouvir e muito menos ter explicações maiores para sabermos onde estamos… Auschwitz-Birkenau, no outono de 1944, numa altura de funcionamento do campo em pico de atividade num tempo em que ali chegavam, uns atrás dos outros, comboios com milhares de judeus húngaros. Mais de 400 mil seriam ali gaseados em poucos meses. Mas estas são informações que conhecemos, porque antes as lemos em livros e vimos mais filmes sobre o tema.

O Filho de Saul não nos conta mais do que vemos nas imagens e dos sons que, violenta e continuamente, constroem um ruído de ressonância de medo e morte que acompanha o que vemos do início ao fim. Sabemos apenas que estamos dentro de um crematório – estruturas que tinham associadas às zonas de queima dos corpos a própria câmara de gás e a sala onde os detidos antes se despojavam de tudo – e que, terminado um gaseamento, no momento em que os restos mortais são removidos para serem depois queimados, há um som que emerge onde apenas o silêncio era esperado. É um rapaz, muito jovem, que, contra o que seria de esperar, sobrevivera. Não por muito tempo. Até porque os médicos das SS tratam de exigir uma autópsia para compreender o facto. Saul, um dos sonderkommando – grupo de prisioneiros que tinha a cargo o acompanhamento dos que iam morrer, o retirar dos seus pertences mal entravam na câmara de gás e, depois, os levavam aos fornos – toma aquele por seu filho. E, contra a lógica sem lógica de toda aquela rotina de morte anónima, tenta o que pode (e o que não pode) para encontrar um rabi que lhe dê um funeral condigno. O rapaz, filho ou não de Saul, torna-se um símbolo de um desejo de um mínimo de luz onde as trevas há muito fecharam e devoraram todos aqueles que conhece.

László Nemes começou a trabalhar a ideia para este filme quando integrava a equipa de Béla Tarr que então rodava O Homem de Londres. Foi então que tomou conhecimento de um conjunto de testemunhos de sonderkommando (que frequentemente eram mortos e trocados a cada três meses), dessas memórias emergindo a ideia de um filme que acompanha dia e meio na vida de um deles, na iminência de uma revolta que de facto aconteceu e inutilizou o Crematório 4 de Aushwitz-Birkenau (que será, assim, o local onde o filme nos mergulha).

Com uma lente especialmente escolhida para manter as imagens focadas mais perto da objetiva, deixando muito do cenário difuso (mas nem precisamos ver para imaginarmos o que ali acontece), o filme caminha com Saul pelos espaços do Crematório (e a herança de Béla Tarr não está longe do modo como Lázsló Nemes aqui nos faz olhar). Da sala de despir e das seleções de pertences à câmara de gás, a sua limpeza depois de uma ação e preparação para novo ciclo logo a seguir, numa repetição incessante de gestos, sempre rápidos, sempre sob os gritos dos SS que acompanham, armados, a execução das ordens. Há um intenso trabalho de design de som a completar o corpo da imagem. Vozes em oito línguas cruzam-se num espaço comum, os ecos e acontecimentos mais perto e mais longe vincando mais ainda a sensação de claustrofobia, medo e fim que ali se respira.

Saul tem nome. Sabemo-lo nós. Mas tudo ali é desumanizado e anónimo. Ninguém é tratado senão pelo seu número. Os corpos dos mortos são “pedaços” a tirar de cena, seja no crematório ou em fossas de combustão no exterior. E, quando não há capacidade técnica para mais, a matança faz-se, a tiro, cá fora, entre as piras dos corpos.

Há cruzamentos do filme com elementos factuais, seja quando vemos a serem tiradas algumas das raras imagens que se conhecem de sonderkommando e prisioneiros no exterior de um crematório. Ou na encenação da revolta que representou um dos mais importantes episódios de resistência na história dos campos de extermínio das SS.

Apresentado e premiado em Cannes – com o Grande Prémio e o FIPRESCI – em 2015, ou seja, no ano em que se assinalavam as sete décadas sobre a libertação da maioria dos campos de concentração, O Filho de Saul representa uma das mais impressionantes experiências de abordagem do universo do cinema à memória do Holocausto. Tão imersiva quanto a ficção pode afinal permitir.

“O Filho de Saul”
Realização: László Nemes
Com: Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn
Distribuição: Midas Filmes

O filme tem edição em DVD entre nós pela Midas Filmes

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