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Canções pop para um motim inofensivo

Texto: NUNO GALOPIM

Ao quarto álbum de estúdio os Ra Ra Riot chamam o ex-Vampire Weekend Rostam Batmanglij que ajudou a arrumar ideias num disco longe de memorável, mas com algumas canções bem nascidas.

Entre o panorama indie, com sucessivas vagas de bandas em registo “mais do mesmo” a surgir a todos os meses (coisa que não é exclusiva deste comprimento de onda da criação pop/rock, entenda-se), vão sendo raros os casos em que é nos discos, entre as canções, que encontramos motivos para desviar um ou outro nome ao grande caldeirão de wannabes, resgatando-o ao anonimato. Aos dez anos de vida – surgiram em Syracuse, no estado de Nova Iorque, em 2006 – os Ra Ra Riot estão longe de ter alcançado a dimensão de contemporâneos seus como os MGMT ou Vampire Weekend. Foi porém nas esferas de proximidade destes últimos, em concreto no momento em que Rostam Batmanglij chamou Wes Miles, o vocalista dos Ra Ra Riot, para dar fôlego ao projeto paralelo Disvovery, que a banda conheceu alguma capacidade maior em atrair, pelo menos, a curiosidade. The Rhumb Line, álbum de estreia lançado em 2008 serviu um cartão de visita que, mesmo longe de arrebatador, alertava para um espaço de exploração indie pop com gosto pelo trabalho de arranjos com cordas, ideia que sem argumentos maiores ou mesmo diferentes voltou a dominar The Orchard (2010). A partida da violoncelista Alexandra Lawn conduziu Beta Love (2013) a um inesperado encontro com ferramentas e formas da pop electrónica, embora num quadro algo incompleto de transições. Need Your Light, que apresenta parte do alinhamento sob produção de Rostam Batmanglij, não é uma obra-prima, mas pelo menos resolve de forma mais arrumada a gestão dos alicerces antigos da alma indie da banda com os seus novos horizontes de busca de uma pop que não fecha portas a algum flirt com formas e sons mais próximos do mainstream.

Se os agudos em que mergulha frequentemente a voz de Wes Miles moram no limiar do que a paciência vai tolerando (por vezes confesso que ficava bem melhor com os instrumentais), cabendo frequentemente ao canto os argumentos mais desfavoráveis em algumas das canções, Need Your Light revela mesmo assim o mais cativante conjunto de temas lançados pelo grupo desde o que o mais promissor álbum de estreia havia mostrado. Além de Water, polido single pop (com o evidente toque de Rostam) e do surto de intensidade pop luminosa em Absolutley (sob claro melodismo pop à la One Direction) e do diálogo entre cordas e eletrónicas de Suckers há um tema título algo obsessivo a explorar periferias de formas da música de dança (uma vez mais com o ex-Vampire Weekend a ditar as regras).

Ao cabo de dez anos, a menos que a sorte bafeje um dia um tema dos Ra Ra Riot e os leve a outros vôos, parece cada vez mais claro que nunca haverá aqui um fenómeno de dimensão maior. O “motim” (o “riot”) continua por isso inofensivo… O disco traduz contudo sinais bem interessantes da capacidade da visão de Rostam Batmanglij como produtor, levando algumas destas canções a mais bom porto do que os visitados em discos anteriores. A ideia de valor acrescentado surge de facto quando a sua presença se faz evidente.

Ra Ra Riot
“Need Your Light”
Barsuk Records
★★★

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