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O grande silêncio

Texto: NUNO CARVALHO

Em “Stalker” (1979), de Andrei Tarkovsky, um trio de personagens medita sobre a existência num lugar que é a suprema metáfora espiritual.

Stalker (1979) é provavelmente o mais enigmático e metafísico filme de Andrei Tarkovsky. Se em O Espelho, obra que assinara quatro anos antes, a dimensão metafísica estava associada à memória e à arqueologia mnésica, em Stalker temos uma parábola espiritual sobre a procura do sentido, da divindade (seja ela entendida num plano transcendente ou apenas imanente). A sinopse do filme é das mais simples de fazer (as grandes ideias resumem-se em poucas palavras, embora por vezes seja difícil condensá-las numa descrição sintética): o Stalker (Aleksandr Kaydanovskiy), uma espécie de guia que conduz os passeantes por uma zona desconhecida, leva o Professor (Nikolay Grinko) e o Escritor (Anatoliy Solonitsyn) para a Zona, um espaço onde, 20 anos antes, terá caído um meteorito e que foi fechado pelo exército, que patrulha a área, cuidando de que ninguém transponha as barreiras de segurança. Essa zona é um ermo que antecipa o que seriam os terrenos-fantasma de Chernobyl, mas que aqui ganha contornos de santuário e lugar mágico. Isto porque nele se encontra o Quarto, uma divisão que supostamente concede o mais profundo dos desejos a quem nele se aventurar.

Cuidado com o que desejas, poderia ser a epígrafe de Stalker. Porque o centro filosófico deste filme que adapta o livro Roadside Picnic dos irmãos Strugatsky é justamente a questão da formulação de um desejo maior, de uma prece, de um pedido. Se para Shakespeare a grande questão era o ser ou não ser, no universo espiritual de Tarkovsky o grande dilema é saber que prece tecer, que desígnio volitivo ter. O problema não está no silêncio cósmico ou nas preces não atendidas, antes no medo de que seja feita a nossa vontade, e a nossa vontade não seja sábia ou conveniente. Daí que a Zona mostre a sua verdadeira face, a da charada aparentemente fácil e simples mas que esconde uma obscura complexidade, quando se torna cada vez mais árdua para o Escritor, que de início queria apenas “pedinchar” inspiração para escrever, e também para o Professor, que busca uma verdade que, em última análise, o pode conduzir a um niilismo passivo e quietista, ou seja, o de se aperceber, numa epifania de sabedoria, que, de entre mil e um desejos, o único que não contém um potencial trágico e que não traz o arrependimento e o lamento é aquele que é informulado. Mas, como bem sabe o Stalker, talvez o único dom que valha a pena seja o da fé, do sentido e do sábio silêncio.

“Stalker” passa hoje e amanhã, às 13h, 16h, 19h e 22h, no Cinema Nimas, em Lisboa, integrado no ciclo de Cinema Russo que durante este mês tem levado a cabo um programa de sessões da obra integral de Andrei Tarkovsky

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