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“Avalon”: melancolia e elegância em tempo de despedida

Texto: NUNO GALOPIM

Editado em 1982, “Avalon” assinalou o último capítulo criativo na obra dos Roxy Music com um álbum melancólico e sofisticado que conciliou o sucesso com o reconhecimento crítico.

Após um hiato (que coincidiu no tempo com a eclosão do fenómeno punk), o regresso dos Roxy Music trouxe, entre os álbuns Manifesto (1978) e Flesh + Blood (1980) os sinais de busca de novos desafios e objetivos, ao que outrora era imprevisível e arriscado correspondendo agora uma procura de rigor formal e de um sentido de perfeição do trabalho de escrita, gravação e mistura que, de facto, alcançam em 1982 com aquele que, contudo, seria o derradeiro álbum de estúdio do grupo.
Há já algum tempo reduzidos ao trio criativo constituído por Bryan Ferry, Phil Manzanera e Andy MacKay, os Roxy Music tinham apenas editado um single em 1981, depois de terminada a etapa Flesh + Blood. Tratava-se de uma versão de Jealous Guy, nascida como homenagem ao recentemente desaparecido John Lennon e deu ao grupo aquele que seria o seu primeiro número um na tabela de singles no Reino Unido.

Pouco depois juntavam-se nos estúdios Compass Point (nas Bahamas), levando Bryan Ferry alguns esboços de ideias que tinha desenvolvido num retiro que havia feito, na companhia de Lucy Helmore, com quem casaria em 1983. Mas é essencialmente em estúdio que ganham forma as novas canções e temas instrumentais, que em conjunto definem um corpo elegante e plácido, moldado entre sonoridades sofisticadas, traduzindo a produção (entregue a Rhett Davies) essa vontade maior em não deixar um prego fora do lugar.

O cartão de visita fez-se com More Than This, que levava os Roxy Music a novas paragens, de placidez nos cenários e apelo evidente a um público vasto e adulto. Canção melancólica, apresentava no final um longo segmento instrumental dominado pelas teclas e guitarra, que poderia contrariar as regras de uma eventual proposta mainstream, o que de facto não aconteceu. De resto, e tal como aconteceria com o álbum, More Than This revelou desde logo a adesão do grande público mas também o entusiasmo crítico, transformando-se mesmo, com o tempo, numa peça de referência da obra dos Roxy Music, com versões assinadas por nomes como os 10.000 Manics ou as Electralane.

A canção usada como single deu de facto o mote para o som do disco que, de resto, definiu um paradigma pelo qual se passou a fazer depois muita da obra a solo de Bryan Ferry, como se escutaria por exemplo em álbuns como Boys & Girls (1985) ou Mamouna (1994).

Canções como The Space Between ou The Main Thing exploram um sentido de elegância num quadro rítmico mais marcado. Já To Turn You On ou While My Heart Is Still Beating aproxima as formas do espaço mais clássico da balada, não perdendo contudo o gosto cénico sofisticado, intenso e complexo que cruza todo o disco. Mas as pistas mais interessantes surgem em canções como True To Life ou, mais ainda, Take a Chance With Me, que revelam diálogos com elementos ambientais que amplificam as sugestões de labor meticuloso que poliu todas as arestas destas composições. Se bem que a versão em single de Take A Chance With Me tenha dispensado parte do instrumental de abertura que lhe dá tão forte carisma na versão do álbum, pelas igualmente sem voz como India (que surgira como lado B de More Than This) ou Tara são mais dois brilhantes exemplos de uma demanda de facto alcançada pelos Roxy Music em Avalon.

A canção que dá título ao disco, que que se fez outro dos êxitos maiores da etapa de vida dos Roxy Music na alvorada dos anos 80, era na verdade uma peça de características bem diferentes que, de modo algum, a mistura estava a conseguir moldar no sentido desejado. Enquanto acabavam a mistura dos outros temas, insistiram na busca de soluções para Avalon. E encontraram a saída para o dilema quando repararam que, num outro estúdio do mesmo complexo, estava uma banda haitiana com uma cantora que então chamaram para registar aquela outra voz que, afinal, levaria a canção ao seu destino.

Com um título que alude a antigas lendas inglesas e uma imagem que mostra mais uma modelo feminina (embora pela primeira vez surgindo de costas) envergando um figurino que sublinha esses mesmos evos de memórias medievais, de capacete, armadura e falcão numa das mãos, Avalon representou um êxito maior na carreira dos Roxy Music e abriu caminho a uma derradeira digressão, finda a qual os músicos optaram por se concentrar nas respetivas obras a solo.

Teriam de esperar até à viragem do milénio para voltarem à estrada. Mas mesmo tendo-se falado depois da eventualidade de um novo disco dos Roxy Music, as várias reuniões da banda não mais fizeram nunca senão tocar ao vivo. Avalon ficou assim, como o seu canto de despedida.

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