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Um retrato de Walt Disney, segundo Philip Glass

Texto: NUNO GALOPIM

Depois de estar já disponível em DVD e Blu-ray, chega agora a disco uma gravação de “The Perfect American”, uma ópera-retrato que teve estreia mundial em janeiro de 2013 no Teatro Real de Madrid.

Usar a ópera como espaço de construção de um retrato, definindo não apenas a figura, mas também o espaço (humano e físico) que a rodeiam e ainda os vários contextos em que é importante poder evocá-la, é opção frequente na obra de Philip Glass desde que, em meados dos anos 70, fez da figura de Einstein o centro de gravidade de uma obra que acabaria (sem que ele o imaginasse) por ter um peso determinante na história do teatro musical, representando mesmo Einstein on the Beach uma das primeiras janelas de comunicação de uma nova geração de compositores com os palcos de ópera, reativando um relacionamento e entusiasmo que ainda hoje dá frutos.

O primeiro conjunto de incursões de Philip Glass pelo universo da ópera fez nascer uma trilogia de retratos, juntando ao de Einstein um de Gandhi em Satyagraha (1980) e, pouco depois, um do faraó Akhenatón em Akhnathen, que em breve terá nova produção pela English National Opera. De então para cá assinou ainda retratos, em forma de ópera, para figuras como Galileu Galileu, Kepler, tendo ainda as figuras de Cristóvão Colombo e Ulysses S. Grant como, respetivamente, protagonistas de The Voyage (1990) e Appomattox (2007).

Ao anunciar, há alguns anos, uma ópera-retrato sobre Walt Disney a surpresa não foi o veículo em si, mas antes a escolha do objeto da sua atenção. Escolha que o próprio Glass explicaria antes mesmo da estreia ao descrevê-lo como “um ícone americano com uma visão”, acrescentando que “através dos desenhos animados trouxe-nos uma linguagem que se tornou global”. Estas palavras, proferidas em Madrid a dias da estreia, que ocorreu no Teatro Real em inícios de 2013, levaram-no ainda a enquadrar política e socialmente uma figura que “tinha a bagagem cultural daquela época”, ou seja, o início do século num estado do sul dos EUA, acrescentando que “era uma pessoa do seu tempo e tinha ideias que parecem hoje muito conservadoras”. A ópera vinca, de resto, todo este quadro, tanto que o libreto não omite algumas das marcas de personalidade e comportamento que hoje ensombram a figura de Disney (fala-se em concreto do racismo) e dá visibilidade a cenas de luta laboral (e ideológica) através de um confronto de Walt e Roy com um antigo desenhador, entretanto despedido.

The Perfect American tem libreto de Rudy Wurlitzer (que parte do romance de Peter Jungk Der König von America) e encenação de Phelim McDermott e contou nesta sua primeira produção com as vozes de Christopher Purves (Walt Disney), David Pittsinger (Roy) e Donald Kaasch (Dantine), entre outros, frente ao coro e orquestra do Teatro Real de Madrid, dirigidos pelo habitual colaborador Dennis R. Davies.

A ópera mostra-nos Disney como um homem já muito doente que, com a morte pela frente, vive o presente assombrado pelo medo de um futuro em que o seu nome poderá deixar de ser associado à pessoa que ele foi, mas recordado antes pela marca que deixou.

Musicalmente o trabalho de composição mantém a busca de relação com um certo lirismo que tem marcado alguma da sua música mais recente (mais na escrita instrumental do que na vocal), não apenas no palco de ópera, mas também nos universos da música de câmara e instrumental. Estamos por isso bem longe dos ecos mais evidentes do minimalismo que ainda dominavam as óperas já com suporte orquestral posteriores a Einstein on the Beach. Há uma presença evidente de tonalidades mais assombradas, representando as cenas com Lincoln e Warhol raras (e pouco interessantes) exceções a um tom tenso que cruza a ópera.

O maior trunfo desta produção é a encenação que explora ideias do cinema de animação (escolha naturalmente focada na figura retratada), em jogos de projeções em ecrãs móveis, alguns deles em incessantes movimentos de rotação, sobre o centro do palco, muitas vezes dominado pela cama de hospital onde o protagonista discorre memórias e tenta vencer as tormentas do presente.

The Perfect American, que tinha já conhecido uma primeira edição em DVD e Bly-ray, chega agora a disco num lançamento em dois CD assegurado pela editora do próprio compositor, usando novamente a gravação da produção inicial da ópera.

Fazia falta esta edição em CD?

Para quem quer ter a integral das obras do compositor, naturalmente que sim. Porém, despida da brilhante encenação, e longe das obras de teatro musical musicalmente mais entusiasmantes que Philip Glass assinou noutros tempos, acaba por ser um lançamento de necessidade menor (convenhamos que o DVD e Blu-ray já davam, aqui, conta do recado). Com grande parte da sua obra para palco já editada em disco, faltando apenas juntar à discografia algumas das mais recentes óperas de câmara, como The Sound of a Voice (2003) ou The Trial (2014), assim como as duas que criou baseadas em textos de Doris Lessing, ou seja, The Making of the Representative for Planet 8 (1988) e The Marriages between Zones Three, Four, and Five (1997), isto sem esquecer o belíssimo O Corvo Branco (1991), que, sem favor, é mesmo uma das suas melhores óperas, convenhamos que tinha escolhas mais interessantes a fazer na hora de escolher que disco novo poderia lançar pela Orange Mountain Music.

“The Perfect American”, de Philip Glass
com: Christopher Purves (Walt), David Pittsinger (Roy), Donald Kaasch (Dantine)
Coro e Orquestra do Teatro Real de Madrid, dir. Dennis Russel Davis
2 CD, Orange Mountain Music
Há, também, uma edição em DVD e Blu-ray, pela Opus Arte

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