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O que faremos quando “eles” chegarem?

Texto: NUNO GALOPIM

Criada para a Image Comics, com argumento de Warren Ellis e desenho de Jason Howard, a série “Trees” é uma das melhores ideias de ficção científica nascidas recentemente no mundo da banda desenhada.

Um dos mais prolíficos (e imaginativos) entre os argumentistas ao serviço do universo dos comics no presente, Warren Ellis está a desenvolver, em simultâneo, uma série de histórias. Para a Dynamite Entertainment estreou, em novembro, a coincidir com a chegada aos ecrãs de Spectre, a série James Bond na qual, com arte de Jason Masters, tenta encontrar uma vida para o agente secreto 007, revelando, pelo menos o primeiro número, como uma certa colagem aos modelos do cinema (em concreto uma longa sequência de ação a garantir a abertura) pode não ser o caminho mais certo para encontrar uma identidade própria para a personagem neste suporte… Ao mesmo tempo, para a Marvel, está a devolver à vida a figura de Karnak, personagem inicialmente criada em 1965 pela dupla Lee e Kirby, agora estando ao lado da narrativa de Ellis os desenhos de Gerardo Zaffino. Mas o mais interessante na obra de Warren Ellis costuma habitar os espaços da ficção científica. E é por aí que tem estado a criar duas séries para a Image Comics. Injection, criada pela mesma equipa criativa da reativação de Moon Knight em 2014 – ou seja, contando as palavras de Ellis com a arte de Delcan Shalvey –, foi lançada em maio de 2015 e tem já disponível um primeiro volume em livro juntando os seis primeiros comics (o número 8, ainda avulso, acaba de ser publicado). Aqui se conta a história de um envenenamento global que ameaça agora a própria sobrevivência da humanidade, numa trama que junta ingredientes de thriller e terror, num futuro próximo que vive sob a sistemática presença de fantasmas de um passado recente, seguindo os excêntricos protagonistas, responsáveis pelas ações que mergulharam o mundo numa vertigem potencialmente letal. A mais interessante de todas as histórias que Warren Ellis está neste momento a desenvolver é a que soma já mais tempo de vida e maior número de publicações. Mas, de longe, é uma das melhores tramas de ficção científica que o mundo dos quadradinhos viu surgir nos últimos tempos.

Trees transporta-nos para um futuro não muito distante no qual o planeta Terra foi “invadido” por uma série de estranhas estruturas alienígenas em forma de altos troncos que se foram instalando um pouco por todo o lado, aos poucos a sua presença, aparentemente inerte a princípio, acabando por afetar profundamente as comunidades que habitam as regiões onde se instalaram.

Em paralelo vamos acompanhando o que acontece em alguns pontos distintos do globo, reparando como cada sociedade, região e regime político define um corpo ético sob o qual descemos, depois, ao nível do indivíduo e dos seus comportamentos pessoais.

São sobretudo interessantes de seguir os acontecimentos numa estação de investigação científica no Ártico, na qual um dos elementos ali estacionados não mostra qualquer vontade em regressar a latitudes mais quentes e mais cheias de gente, manifestando um interesse por objetos, aparentemente associados aos alienígenas, que começam a “florescer”.

Em Itália, novamente sob a sombra das “árvores” ali estacionadas, seguimos a história de uma jovem que tem uma relação com um bully e que conhece um homem mais velho que tenta ajudá-la a ver outros horizontes de possibilidades na vida.

Mais interessante ainda é o mergulho numa pequena cidade-laboratório nascida em volta de uma “árvore” enraizada na China, à qual chega um jovem pintor que ali descobre todo um mundo de novas possibilidades que o levam a questionar e aprender a lidar com questões identitárias. A estas juntam-se ainda outras tramas, de dimensão mais política, em Nova Iorque e no Sudão, ocasionalmente passando ainda o nosso olhar pelas ruas e morros do Rio de Janeiro.

A força maior de Trees reside na forma como usa um elemento exterior (os alienígenas, que pelos vistos chegaram ao nosso mundo e não tentaram comunicar nem repararam na humanidade como sendo uma forma de vida inteligente) para colocar num mundo real os gatilhos que desencadeiam o questionar de hábitos, ações e comportamentos. O tom desencantado da narrativa sublinha a pulsão distópica no retrato do futuro próximo (independentemente da presença dos próprios alienígenas). Mas, observando alguns dos seus protagonistas, Warren Ellis repara como, no patamar do indivíduo, as marcas de humanidade não se apagaram de vez. Mas haverá esperança? Essa é uma das questões que ficam em stand by para o volume 2… E, sobretudo, o que acontecerá quando, finalmente, os alienígenas, inertes há dez anos, eventualmente começarem a agir de facto sobre o mundo e quem o habita…

Com belíssimo trabalho criativo de desenho de Jason Howard (ligado também a séries como Super Dinosaur ou Astounding Wolf-Man), Trees surgiu em maio de 2014 pela Image Comics, tendo já apresentado os oito primeiros números reunidos num volume lançado em fevereiro de 2015, um segundo volume estando já anunciado para 25 de maio, juntando os números 9 a 16 (dia 30 de março sai o número 14).

“Trees” (Vol. 1), de Warren Ellis e Jason Howard
Image Comics, 160 págs.
Disponível na BD Mania

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