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“Flesh + Blood”: Sucessos e falhas numa etapa de transição

Texto: NUNO GALOPIM

Editado em 1980, o álbum “Flesh + Blood” preparou o caminho dos Roxy Music rumo a uma pop elegante e sofisticada a que chegariam com “Avalon”, dois anos depois.

Se Manifesto revelou, após um hiato, uma deslocação dos centros de gravidade da demanda dos Roxy Music para outros caminhos (na verdade já sugeridos desde os dias de Stranded) e, mais tarde, Avalon elevou depois a um patamar de perfeição formal essa busca de um som pop adulto, elegante e sofisticado, a Flesh + Blood, de 1980, coube o difícil papel de encarnar o processo de evolução que garantiu o sucesso da transição.

O disco nasceu após a saída do baterista Paul Thompson, deixando o núcleo dos Roxy Music reduzido a Bryan Ferry, Andy Mackay e Phil Manzanera. Foi gravado em Londres, com a produção entregue a Rhett Davies (que regressaria dois anos depois em Avalon) e materializa já de forma bem clara a expressão de uma banda que deixara para trás um relacionamento primordial com formas mais elétricas e que não se deixara intimidar pelo importante surto revolucionário entretanto lançado pelo punk e sua descendência direta que entretanto emergira via new wave. Esse estatuto não alinhado, que os deixava para lá das fronteiras dos hypes da saison e igualmente fora das esferas que cativavam de muito do jornalismo musical britânico de então (que vivia em sintonia mais evidente para com as descendências do punk e a emergente cena feita de editoras independentes que entretanto surgira), fez dos Roxy Music alvo de observações menos entusiasmadas quando este seu primeiro álbum dos oitentas chegou às lojas. Ao mesmo tempo bandas novas, dos Duran Duran aos ABC e outras tantas mais claramente herdeiras dos Roxy Music, pareciam mais cool a quem então ditava opinião (coisa que seria também de pouca dura).

Foram, por isso, precisos anos para que Flesh + Blood merecesse outra leitura. Está longe de ser um dos melhores discos dos Roxy Music. É desigual no alinhamento, que alterna entre verdadeiras pérolas (como Same Old Scene) ou episódios menos inspirados, como os algo inconsequentes Rain, Rain Rain (mesmo revelando um curioso diálogo para teclas e baixo) ou Strange Delight, no lado B do álbum. Mas é um disco do seu tempo e ajudou a definir um sentido pop requintado que conheceu farta descendência nos anos 80.

Os teclados, que na verdade já moravam na música dos Roxy Music desde os tempo de Brian Eno, emergem mais visíveis do que nunca. E em Flesh + Blood, preparando o caminho para Avalon, há sinais de interesse por um novo sentido cenográfico que toma aí os sintetizadores como ferramenta primordial.

Ao mesmo tempo a música, que resistira às contaminações do punk, não recusa os flirts com outra das expressões maiores da cultura pop dos setentas: o disco. E tanto a versão de Eight Miles High dos Byrds, como o brilhante Same Old Scene, são expressões de assimilação que revelam uma faceta mais dançável que Angel Eyes já tinha (e muito bem) sugerido antes.

Same Old Scene, que seria o terceiro single extraído do alinhamento do álbum, representa mesmo uma das mais cativantes abordagens da pop do seu tempo aos universos dançáveis herdados do disco, merecendo figurar como peça maior da pop para a pista de dança da alvorada dos oitentas, ao lado dos muitos hinos new romantic que então nasciam (com os Roxy Music precisamente como um dos paradigmas definidores da sua identidade).

O álbum foi apresentado sob sugestões de classicismo pop em Over You e, depois, coube a Oh Yeah, um segundo single, o demarcar de um novo terreno baladeiro que, juntamente com My Only Love (que deveria ter sido single e não o foi), lançava pistas sobre o que seria o passo seguinte na obra do grupo. Mais conservadora, a balada . Do alinhamento de Flesh + Blood fez ainda história a versão de In The Midnight Hour, um original de Wilson Pickett, que chegou a ser usado como single em alguns mercados.

Mais de 35 anos depois, não é difícil reparar que Flesh + Blood não é de todo o descalabro feito à medida de alvos no mercado que algum discurso da época gostava de sugerir. Não é também uma obra prima. Mas podemos vê-lo como ensaio (com mais tiros acertados que falhados) em busca de um caminho. E, quando Avalon depois chegou, convenhamos que a pontaria estava já bem afinada.

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