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As últimas cenas de uma cidade fantasma

Texto: NUNO GALOPIM

“De Engel van Doel”, de Tom Fassaert, passou em 2011 no DocLisboa. O filme caminha entre as ruas e as casas dos últimos resistentes da cidade que estava a ser evacuada e onde foi agora rodado o teledisco de Surma.

Uma cidade que morre… Doel, ao lado de Antérpia, tem ordem de demolição aprovada para expansão da zona portuária e aos habitantes não lhes resta senão partir…

Tom Fassaert, o realizador de De Engel Van Doel (título traduzido An Angel in Doel) soube da notícia num jornal. E apresenta no seu filme uma visão profundamente tocante, poética, mas nem por isso longe de realista, de como, tal como as pessoas, também as suas cidades têm ciclos de vida, cabendo à etapa da velhice, por vezes, destinos de enorme solidão.

Há duas figuras que a câmara acompanha com maior atenção. Entre as ruas quase desertas, tantas já as casas deixadas pelos seus velhos moradores, os diques que vemos aqui e ali mostrando quão perto estão os barcos que ali terão novos cais, um padre vai visitando os que moram na sua paróquia. Na missa diz que não lhe interessa se tem 10 ou mil fiéis pela frente. Mas vai tendo cada vez menos, que aos poucos as famílias vão-se despedindo e saindo de cena… Depois de uma quimioterapia está magro e fraco, mas não deixa de caminhar pelas ruas no seu triciclo, praticar na bicicleta que tem em casa, conversar com os que conhece.

Mais do que o padre, Emilienne, uma avó que tem filhos e netos a viver longe, galinhas no quintal e gatos por vizinhos, não sai dali nem por nada. Na cozinha, com as amigas, comentam o dia a dia de Doel e, quando quase não há vida na cidade, falam agora dos que já foram e de porque ela não quer ir. Acaba só, ela e as cascas de camarão que vai descascando, a mesa que já só tem o seu copo, as casas ao lado, aos poucos, a desaparecer sob os braços dos bulldozers

Filmado a preto e branco, com espantosa direcção de fotografia, olhando não apenas para a narrartiva que a câmara descobre, mas sabendo que o contexto ao seu redor também pode ser importante texto, Tom Fassaert faz de En Engel Van Doel um impressionante retrato de algo que, sabemos, está condenado a desaparecer.

A cidade fantasma que aos poucos alastra dobre a velha Doel ganha forma nos planos de ruas, de janelas, de sombras e reflexos que vai juntando ao corpo central das cenas habitadas pelos últimos moradores. Sem entrevistas, os diálogos escutados antes por uma câmara que se intromete no seu espaço, o filme quase transporta a força de uma ficção de bom argumento e belíssima realização.

 

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