Últimas notícias

“Manifesto”: um regresso em clima de ‘flirt’ com o ‘disco’

Texto: NUNO GALOPIM

Nem toda a grande pop de finais dos anos 70 traduz ecos da revolução punk. Ao assimilar o disco sound os Roxy Music fizeram de “Manifesto” um disco que abriu portas a uma relação nova da pop com a música de dança.

O hiato iniciado quando, terminada a digressão que se seguiu a Siren, os elementos dos Roxy Music seguiram, cada qual, os seus caminhos para dar seguimento a projetos a solo, foi interrompido quando, em 1978, e sem que uma justificação oficial fosse então apresentada, o grupo se voltou a reunir em estúdio, embora numa formação que não contava já com a presença de Eddie Jobson e juntando alguns novos colaboradores.

Os primeiros sinais de regresso passaram a leste das atenções quando, em finais do ano, um novo single com o velho Editions of You chegou aos escaparates sem que ninguém parecesse interessado em levá-lo para casa. Sorte diferente teve, já em 1979, Trash, a primeira amostra do que de novo o grupo tinha mostrar. Não seria o sucesso retumbante que, semanas mais tarde, outros temas do novo álbum chegariam a gerar. Mas mostrava que a pausa de quatro anos lançara o grupo rumo a outras experiências e ambições.

Trash não era, mesmo assim, a mais evidente expressão do que de novo se escutaria quando, a 16 de março de 1979, Manifesto assinalou um novo capítulo na obra do grupo. O tema, que dava título ao disco e servia, literalmente, o seu “manifesto”, abria portas para um álbum com menos devaneios instrumentais e uma mais focada concentração de atenções na exploração do formato da canção pop. E, acima de tudo, e essa era uma das maiores novidades, mostrava como era possível assimilar os ecos contemporâneos da euforia disco sound numa matriz pop, traduzindo mesmo algumas das canções momentos de referência dos primeiros flirts da pop com a linguagem que emergira discreta em discotecas alguns anos e, entretanto, se fizera fenómeno de dimensão maior.

Dance Away é talvez o mais evidente exemplo dessa ligação, traduzindo de resto o momento de maior impacte do álbum. Editado em single pouco depois de lançado o LP chegou ao segundo lugar no Reino Unido (igualando assim o melhor feito nas tabelas de vendas do grupo, atingido anos antes com Love Is The Drug), com uma canção arquitetada sobre uma estrutura rítmica que cativou não só atenções da rádio como nas pistas de dança. Estratégia semelhante seria aplicada ao terceiro e último single extraído de Manifesto.

Originalmente incluída no álbum numa versão mais próxima das linhas power pop de então, Angel Eyes era regravada sob uma mais evidente arrumação da secção rítmica segundo os preceitos do disco sound. E ali nasceu outro clássico para os Roxy Music. O regresso devolvera-os diferentes. Mas capazes de, uma vez mais, agir sobre o mundo pop ao seu redor, mesmo sob uma pulsão mais atenta aos acontecimentos à sua volta do que lançando uma agenda experimental mais ousada, como sucedera no passado.

A capa sugeria desde logo que algo de diferente acontecera. Ao invés do que fora a norma até então, mostrando cada novo álbum de estúdio uma imagem protagonizada por uma jovem modelo, em Manifesto vemos manequins. Eram na verdade manequins da loja de Antony Price, vestidos com criações do próprio estilista, que aqui conheceu uma importante janela de projeção para um estatuto que dele faria um caso de referência entre figuras da cultura pop britânica na alvorada dos anos 80.

A arrumação das faixas sugere uma separação clara de heranças e sugestões, guardando no lado A uma expressão mais europeia do sentido de demanda de uma nova pop em fim de década, embora alheia às ressonâncias recentes do fenómeno punk e projetando depois, no lado B, sinais de relacionamento com realidades mais americanas. Curiosamente, embora não tendo representado um êxito colossal, Manifesto seria o álbum que daria aos Roxy Music os seus primeiros momentos de maior visibilidade no outro lado do Atlântico.

O disco, que fecha a contribuição do grupo para a história dos anos 70, lança pistas rumo ao que aconteceria depois, na etapa em que os Roxy Music partiriam rumo a uma pop mais elegante e sofisticada. Ain’t That So não foi single, mas é dos temas do álbum que mais claramente sugere as cenas dos capítulos seguintes.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: