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Uma ponte da Roça a Nova Iorque

Texto: DANIEL BARRADAS

Com um pé na tradição e outro na contemporaniedade, o novo álbum de Céu serve-nos uma das caldeiradas musicais mais elegantes e entusiasmantes deste ano. Não é só um disco brasileiro, é do mundo todo.

Há qualquer coisa a passar-se na música brasileira. Já Camões dizia que todo o mundo é composto de mudança e aquele rótulo antigo do que é (era) a música brasileira (a bossa-nova, o sambinha, o Roberto Carlos e a Bethânia), por muito que perdure, não cola bem em toda uma nova geração de artistas.

Sem virar as costas a uma herança e a uma tradição nacional, os brasileiros do presente que fazem a música brasileira do futuro continuam o processo de assimilação e digestão de tudo o que lhes chega e tornam-o seu. É um fenómeno que se passa a todos os níveis. Se ao nível da língua pode irritar os portugueses de gramática conservadora, na música é um deleite. A atitude “não há tabus e vale tudo” dos brasileiros é uma lição que sem dúvida precisa ser aprendida por muitos músicos portugueses. Ouça-se o improvável álbum de homenagem à veterana Ângela Ro Ro, Coitadinha bem feito, onde uma mão cheia de novos nomes como Adriano Cintra, Lucas Santtana ou Juliano Gauche (que também tem um recomendável album novo) não hesitam meter a mão em material que algum preconceito poderia achar meio brega.

Céu tem já o seu nome bem estabelecido e uma longa carreira atrás de si, mas o seu novo disco, Tropix, é a melhor e mais contemporânea caldeirada brasileira que nos foi servida em formato de álbum nos últimos tempos. Ouça-se uma canção como Amor pixelado e percebe-se logo que ainda estamos no mesmo sítio, com os pés bem assentes no Brazil mas a anos-luz da “tradição”. As electrónicas e a percursão são de uma elegância e discrição impressionantes. Estão ao serviço de uma canção clássica mas colocam-na bem no séc. XXI, a usar a sombra do passado para iluminar o futuro.

O mesmo acontece em todo o disco onde as boas canções se vestem de excelentes e virtuosos arranjos. Um bom exemplo é a canção que encerra o álbum, Rapsódia Brasilis que é das melhores coisas que se pode ouvir este ano. O modo como os arranjos electrónicos se enleiam com as cordas e a percussão é coisa para saltar do assento e bater palmas. A cada audição.

Se António Variações fazia com a sua música uma ponte entre Braga e Nova Iorque, Céu faz talvez com este disco a sua ponte entre o todo o Brasil (das roças e das metrópoles) e uma metafórica Nova Iorque que simboliza o mundo contemporâneo.

Ainda só vamos em Março mas arrisco já dizer que este é um dos discos mais entusiasmantes que teremos para ouvir da colheita deste ano. Corram a ouvi-lo.

Céu
“Tropix”
Urban Jungle Records
★★★★★

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