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O caminho fica longe para aqueles que o procuram

Texto: RAQUEL SANTOS SILVA

No centenário de Vergílio Ferreira e 20 anos após a sua morte, a Quetzal lançou uma nova edição do primeiro livro do autor, escrito em 1939 e publicado em 1943, cuja primeira edição foi apreendida pela censura.

Pormenor da ilustração na capa da edição de 1943

O Caminho Fica Longe é o despertar do romancista em Vergílio Ferreira, aos 23 anos, ainda sem querer apegar-se a uma corrente de escrita específica, mas começando já a sentir- se a presença de duas ideias características da sua obra: uma preocupação neo-realista e um pensamento existencialista muito próprio.

“(Meu Deus, que tentação! Afinal, amo-o, amo-o muito! Cada um tem no mundo um caminho só. E só esse caminho tem estrelas e lua e cores… Deus faz as almas aos pares” (p.89)

Rui é estudante na Universidade de Coimbra, da terrinha e de uma família pobre que lhe deseja uma vida melhor. É pobre, feio, alto, magro e namora Amélia, uma rapariga bonita mas provinciana, que se arranja demais. Quando os conhecemos, a relação já não vai bem. Há Domingos, o rapaz da livraria que gosta de Amélia; há Rodrigues e outros amigos de Rui, que o empurram para que as coisas com Amélia evoluam; há as más-línguas de Coimbra, que impedem qualquer discrição; e há um sentimento negativo de Rui perante si mesmo que se estende aos outros que o rodeiam.

Esta história dos amores e desamores de Rui transcende-se inteiramente nas problemáticas fundamentais do romance e de Vergílio Ferreira: a condição do ser humano no seu contexto social presente, por um lado; por outro a inquietação de descobrir o seu lugar no mundo, o seu ‘amanhã’ mais feliz.

“Rui, a sós, no quarto. Pensando. Sente-se envergonhado de si mesmo ao lembrar-se que os outros, todos os outros têm certezas na vida. Ele não. Empurrado pelas palavras de uns e de outros, vagueia aos tropeções, sem que ninguém o aceite, porque ninguém lhe sabe a cor.” (p.210)

Como personagem, Rui muda e evolui de forma estonteante e no entanto regressamos sempre ao momento inicial, à fractura do seu “eu” que nunca se recompõe. Porque Rui ama Amélia… mas como, se não consegue amar-se a si próprio? O aparente cliché ultrapassa-se na descoberta destes em que se divide: o seu aspecto físico escanzelado, que sonha ser um Tarzan mas que nunca o poderá ser; e a opinião espelhada nos olhos dos outros quando sobe e desce as colinas de Coimbra com Amélia ou com a mãe, na falta de auto-estima e na vergonha que sente do que dele e delas podem dizer.

Por isso deixa Amélia, quando ela, por amor, se dá totalmente ao amor que dele também espera; por isso vê não o amor dela, mas uma gratuitidade que o enoja. Por isso encontra em Luísa, bonita e bondosa, mas fraca e doente, o oposto do que ele e os outros vêem em Amélia (ainda que ela, coitada, de nada tenha culpa): uma rapariga pura, inocente, virgem e, sobretudo, inatingível.

“E o véu crescia, rolava… Já lhe caía aos pés, e, por um capricho estranho começava a alongar-se, rastejando em causa. Luísa noiva, de braço dado agora. Braço fino. Cinturinha débil. À volta deles, circulavam ondas de um murmúrio espraiado. Toda aquela gente que ali vinha formava, afinal, o cortejo de convidados para o festim. Luísa risonha e ele… tão feliz. (…) Luísa, a virgem, a rapariga que ele arredava escrupulosamente, da imaginação, nas noites de sábado, Luísa ia ser dele.” (p.282)

É também a opinião que os outros têm dela que constrói esta idealização, presente mesmo depois do seu desaparecimento. Em Rui temos uma pluralidade de opiniões fracturadas e socialmente partilhadas que dispersam o seu “eu” em vários e o tornam irreconhecível, quase inexistente.

Se o neo-realismo de Vergílio Ferreira está na sociedade conservadora e fofoqueira de Coimbra, está também nos encontros de Rui e dos amigos para discutirem temáticas mais sérias. Naquele espaço ganham uma voz diferente, socialmente preocupada e relevante, em particular nos escritos de Fernando sobre os trabalhadores. A vida quotidiana assume uma importância muito relativa perante tamanhas questões sociais.

“Rui lembra-se: ‘Eu já pensei uma vez que o carinho se não devia dar, mas emprestar. Ou assim uma coisa parecida…’. ‘A gente muda. O homem muda. Se não mudasse…’. Sim, se não mudasse era como qualquer animal: a aranha faz a teia sempre da mesma forma, a andorinha o ninho. Sim, era uma besta. ‘Às vezes diz-se: fulano mudou de política: não tem carácter. É estúpida a afirmação…’. Onde o Rui ia já. políticos, amor… ‘Diacho de cabeça. Este vício de meditar…’.” (p. 259)

Já as poesias de Rui enunciam uma problemática existencialista que está sempre presente na sua atitude perante os acontecimentos da vida, perante a sua própria figura. Encerra em si toda esta preocupação no questionamento do futuro, na busca de ser alguém, nas conquistas e nos fracassos amorosos que vai atravessando.

Há sempre um caminho que fica longe, um amanhã que se persegue quase inocente e inconscientemente, seja na libertação do falatório dos outros, da condição de pobreza, da incapacidade de amar ou encontrar o amor, ou da impossibilidade de viver plenamente.

A atitude passiva com que muitas vezes estas personagens vivem o presente contrasta com o seu interior vibrante, o idealismo e a esperança que, apesar de tudo, enchem os seus corações e os fazem continuar a viver. Uma certa “alegria breve” muito própria da juventude, talvez, mas que pode até levar os mais infelizes a sobreviver, a resistir e relembrar saudosamente o passado.

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