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Os filmes da Festa do Cinema Italiano 2016

Textos de DIOGO SENO e RUI ALVES DE SOUSA

Acompanhámos a edição de 2016 do 8 1/2 – Festa do Cinema Italiano. Fica aqui um balanço dos filmes, novos e antigos, que a edição deste ano nos deu a ver.

“Lo Chiamavano Jeeg Robot”, de Gabriele Mainetti
por RUI ALVES DE SOUSA

Foi o grande vencedor da Festa do Cinema Italiano, conquistando os prémios do público e do júri. Tem dado muito que falar e em Itália já se pensa numa sequela. Mas afinal, o que é Lo Chiamavano Jeeg Robot? Trata-se de um filme de super-heróis feito com recursos muito mais reduzidos do que as produções de Hollywood que têm engolido todas as salas de exibição, e pega numa referência comum a uma geração de jovens italianos que cresceram a ver séries de animação japonesas. Uma delas foi a que seguia as aventuras de Jeeg Robot, um robô com incríveis capacidades na arte da pancadaria e da salvação do universo.

É uma inspiração para o filme, mas é só algo que se torna superficial (até porque não tenho ideia deste desenho animado ter passado em Portugal nos anos 80 ou 90). Porque no fundo, Lo Chiamavano Jeeg Robot é uma história de um super-herói improvável, feita em Itália e refletindo o modo de vida e os hábitos dos italianos, incluindo inúmeras “homenagens” às memórias da infância. E tem os estereótipos todos que os quadradinhos criaram: há o lixo nuclear que dá poderes inexplicáveis em quem nele toca, há o vilão maquiavélico completamente louco, há a adaptação do tipo banal para uma pessoa apta e convicta a lutar contra o mal.

Mas o que surpreende nesta primeira longa de Gabriele Mainetti é que tudo isto não é o cerne da questão. Lo Chiamavano Jeeg Robot torna-se num filme muito divertido pela abordagem mais humana (e menos bigger than life) que faz ao universo dos super-heróis, inserindo personagens que nos interessam e não atribuindo excessivo protagonismo aos efeitos especiais. Uma comédia arriscada, feita com poucos meios mas com uma certa originalidade para o género, o que merece todos os aplausos possíveis.

“Feios, Porcos e Maus”, de Ettore Scola
por RUI ALVES DE SOUSA


Continuando o pequeno ciclo dedicado à obra de Ettore Scola, a Festa do Cinema Italiano apresentou no S. Jorge, em 35 milímetros, o clássico Feios, Porcos e Maus. Quando o neorrealismo parecia já uma coisa distante no cinema italiano, Scola faz um filme que mostra, com grande detalhe, a miséria de um bairro na periferia de Roma, e de uma família estranha e oportunista.


O patriarca (Nino Manfredi) teve um acidente trabalho, e por isso recebeu uma quantia avultada do seguro. É quando o filme começa, em que a paranóia do homem se torna uma constante, estando dominado pelo medo de que alguém lhe tire o seu precioso “tesouro”. A partir daí, Feios, Porcos e Maus é uma sucessão de episódios mais ou menos agradáveis (mas que nunca perdem alguma coisa de desprezível) sobre as figuras mais miseráveis, mesquinhas e malvadas, cujo instinto animal de sobrevivência transcende os seus valores humanos.


A fama do filme no nosso país é algo que surpreende os italianos. Qual a razão? Provavelmente tudo se explica pela forma como nos identificamos com a sujeira e a miséria da narrativa. Feios, Porcos e Maus foi lançado pouco tempo depois do 25 de abril e o efeito de novidade deve ter sido grande, esgotando sessões durante várias semanas. Porque em poucas ocasiões conseguimos ver uma abordagem ao pior da humanidade com algum humor pelo meio.


Mas apesar disso, Scola não faz o que parece: este não é um filme gratuito, uma comédia popularucha inconsequente onde reina um festival de javardice e porcaria. Faz-nos rir, envergonha-nos logo de seguida (ou em simultâneo com as gargalhadas), e perturba-nos pela normalidade com que as personagens encaram o meio em que vivem. Em cada uma destas personagens há um lado perturbante que nos fascina e, ao mesmo tempo, causa repugnância. O choque com a realidade, e com a vida destas figuras que parecem tão inferiores a qualquer um de nós, acaba por dizer algo a cada espectador. Os risos tornam-se murros no estômago, do princípio ao fim, até à cena triste que fecha este estranho filme de culto.



“Tão Amigos que Nós Éramos”, de Ettore Scola
por RUI ALVES DE SOUSA


Num registo completamente diferente de Feios, Porcos e Maus, Ettore Scola realizou esta comédia dramática, sobre a vida de três amigos ao longo de trinta anos, percorrendo vários momentos importantes da História e da cultura de Itália – e não deixa de “piscar o olho” a alguns dos seus amigos cúmplices do cinema, como Federico Fellini (que até faz um cameo numa recriação dos bastidores das filmagens da mítica cena da fonte de Trevi em A Doce Vida). Um divertimento que se desenvolve à volta de pequenas situações que desconstroem a linguagem do cinema, e alguns clichés mundanos da arte (os momentos “teatrais” do filme são um belo exemplo dessa paródia levada a cabo por Scola).

Filme bem disposto, ao mesmo tempo melancólico e nostálgico, Tão Amigos que Nós Éramos é um achado de um tipo de cinema comum na produção italiana de uma determinada época. E mesmo que novos talentos tentem recuperar a sua essência, esses filmes nunca mais voltaram a fazer parte da “gíria” cinéfila do país. Aqui há excelentes atores (os inesquecíveis Vittorio Gassman, Nino Manfredi e Stefano Satta Flores), uma realização que está num misto entre os truques kitsch e os mais eficazes efeitos de câmara, um argumento que varia entre a tragédia e a comédia sem parecer repentino nas suas súbitas mudanças.

Scola faz um retrato de banalidades, da ironia das pequenas contradições da vida, dos efeitos da passagem do tempo na personalidade dos homens. Nenhuma personalidade pode ser avaliada por um único contexto, e Tão Amigos que Nós Éramos tenta encaixar o maior número de contextos, os mais diversificados possíveis, que preencheram a vida dos três protagonistas, que partilham a narração do filme em doses desiguais. É um filme que reflete a maldição do tempo, que passa tão depressa, que nunca para, que nos domina e que não conseguimos controlar. A resumir todo o filme em duas frases, basta procurar as palavras dos seus personagens: “O futuro passou e nem nos demos conta. Queríamos mudar o mundo, mas foi o mundo que nos mudou”. 




“Nessuno Si Salva da Solo”, de Sergio Castellito
por RUI ALVES DE SOUSA

Uma história de um divórcio e, em flashback, a do encontro, do casamento, e de tudo o que se seguiu. É isto que Sergio Castellito, um dos atores mais mediáticos do cinema italiano contemporâneo, nos propõe em Nessuno Si Salva da Solo, a sua quinta incursão na realização de longas-metragens. Um drama inesperadamente cómico que acompanha muitos dos problemas e alegrias da vida conjugal, com um toque humano e espirituoso. A decadência da vida de ex-marido e ex-mulher é simultaneamente colocada em confronto com aqueles tempos felizes que viveram, não tão longínquos, em que tudo parecia tão diferente. Num jantar no tempo “presente” do filme, ambos reencontram-se para discutir o que os atormenta. Como estará a tensão entre os dois, depois de tudo o que se passou?

Mesmo com alguma experiência, Castellito parece não se ter livrado ainda de um certo desconforto, ao não evidenciar uma visão própria das coisas. Deixou-se levar por um estilo de realização convencional, e por isso, o filme está demasiado concentrado em juntar planos vazios através de montagem formatada. Mas sendo ele um grande actor, consegue que o elenco do filme tenha uma prestação acima da média. Nessuno Si Salva da Solo só vale a pena naquilo que o torna numa boa surpresa: a força das interpretações, a dedicação dos atores (principalmente dos magníficos protaonistas, Jasmine Trinca e Riccardo Scamarcio), o empenho em dar vida a um argumento que sobrevive quando não é redundante, quando os diálogos e as situações nos dão um pouco mais do que podemos estar à espera.

“Sangue del Mio Sangue”, Marco Bellocchio
por DIOGO SENO

Sangue del mio Sangue é visualmente assombroso. As suas imagens vão beber à pintura europeia, do soldado que parece o auto-retrato de Courbet dado vida, aos interiores de pintura seiscentista, e àqueles que os habitam, iluminados como se tratasse de uma pintura de Vermeer.

Há um certo mistério, nas ambiguidades da narrativa que não são resolvidas, no sugerido, no inexplicável, que acrescenta a estas imagens assombradas uma dimensão extra de beleza.

A narrativa divide-se em duas partes, ambas relacionadas com um mesmo convento, e ambas começam com um bater na porta. A primeira, que se desenrola no século XVII, passa-se sobretudo dentro do convento, ao acompanhar o julgamento, por bruxaria, de uma freira que enfeitiçou um padre, que entretanto se suicidou. A este local vai ter um soldado, Federico, o irmão gémeo do padre enfeitiçado, numa tentativa de fazer a bruxa confessar as suas artimanhas, e assim conseguir que o seu casto irmão possa ser devida e catolicamente enterrado. Também ele acaba enfeitiçado, prolongando-se o julgamento e complicando-se a moral.

Embora se possa perceber que há uma tentativa clara de crítica às instituições religiosas, ao tratamento injusto das mulheres ao longo dos séculos, esta primeira parte não se esgota aqui. Há um tom leve, brincalhão, nesta sátira, e Bellocchio evita moralizar. É como se o realizador reconhecesse a gravidade dos seus temas, mas se recusasse a tratá-los com mão pesada, optando por um registo que ora é grave ora é leve, num movimento que só alguém com experiência poderia concretizar. Cabem também nesta primeira parte o erotismo, o amor não correspondido, e um tom que oscila entre o conto de fadas, o drama, a sátira e o terror, numa mistura de motivos e géneros que demonstram que, septuagenário, Bellocchio ainda é um espírito jovem (mais disposto a experimentar que muitos novos).

A segunda parte passa-se no presente e diz respeito à tentativa de compra do mesmo convento, entretanto em ruínas e habitado por um aristocrata vampiro, o Conde (interpretado por um assombroso Roberto Herlitzka, uma personagem de antologia), na verdade o cabecilha de uma sociedade poderosa e oculta que comanda os destinos dos restantes habitantes da vila. Novamente, a crítica desenha-se de forma clara, num tom burlesco e fantasioso, desta vez ao compadrio, ao caciquismo e corrupção que atinge, de alto a baixo, a sociedade italiana. E novamente, Bellocchio critica como quem brinca, encontrando imagens sombrias e surreais, e um discurso alegórico, para a sua amargura. Vemos o Conde em discussão descontraída com o seu dentista sobre as eternas lutas da humanidade, em negociações com a sua sociedade secreta, apaixonar-se por uma jovem que jamais tocará. Alguns actores da primeira parte interpretam personagens desta segunda, sugerindo um trânsito de “almas”, que perpetua o desencanto, as injustiças, mas também a beleza, ao longo dos séculos. E convidando ao estabelecimento de paralelos entre os dois tempos, tão distantes, mas ao mesmo tempo próximos.

“L’Attesa” (A Espera), de Piero Messina
por DIOGO SENO

Uma enorme propriedade rural na Sicília, onde encontramos uma mulher, nas amplas divisões da sua casa, a ser rodeada de uma progressiva escuridão. Um prólogo mudo, sóbrio, mas onde já se nota alguma grandiloquência que vai marcar o resto desta estreia na longa-metragem de Piero Messina.

A mulher é Anna (Juliette Binoche), uma mãe que acaba de perder o seu filho, Pietro, ficando assim apenas na companhia do caseiro na sua enorme propriedade. Sem de nada saber, a namorada do falecido, Jeanne (Lou de Lâage), viaja da França onde conhecera Pietro para a Sícilia, onde encontra o funeral, mas não sabe de quem. Anna, incapaz de lhe contar a verdade, começa a elaborar uma complexa ilusão. O visionamento de L’Attesa altera entre a admiração que a complexidade emocional do trabalho das actrizes, capazes de sustentar a ilusão que sustenta o filme, suscita e a incredulidade que a progressão narrativa vai despertando.

A mãe, incapaz de lidar com a morte do filho, incapaz de proferir as palavras que marcam essa separação, configura a perda como uma espera, acreditando na mentira que conta a Jeanne. Enquanto esperam por alguém que nunca vai chegar, estas aproximam-se, preenchendo a ausência através da memória. A ilusão sobre a qual mãe e namorada laboram, apesar de oposta (uma sabe a verdade, outra não), é, em certa medida, emocionalmente próxima, porque ambas lidam com fantasmas, o da pessoa que perderam (ou que está ausente), e os da história da sua relação. Daí talvez que o percurso delas seja pintado como similar (ambas francesas, jovens e inseguras, apaixonaram-se por homens italianos) e as cores vestidas pelas actrizes em várias cenas sejam idênticas.

A mãe encontrava-se longe do filho há algum tempo, até ser surpreendida pela sua visita, e a namorada tinha deixado recentemente de o ser, e a visita à Sicília, a convite deste, vinha com a promessa de uma reconciliação após uma difícil separação. Tudo isto é contado langorosamente, entrevisto. Visualmente também, o filme opta por uma forma diferente de mostrar a dor da perda: os interiores amplos da casa ganham nova vida com a presença da rapariga e as cenas exteriores, maioritariamente banhadas da luz intensa do sol, no campo e junto ao lago, contrastam com a emoção terrível que o filme tenta representar. No entanto, o confronto emocionante entre Anna e Jeanne, interpretadas por duas enormes actrizes, não encontra suporte suficiente na realização. Se algumas cenas chegam à emoção pretendida, outras acabam por suscitar incredulidade, devido à encenação e às opções narrativas. Messina altera entre um registo sóbrio, de planos de pormenor, close-ups e planos fixos, que permitem às personagens e aos diálogos ganharem vida, e outro grandiloquente, de planos gerais, em que pretende impressionar com a opulência da paisagem ou do cenário, traindo o outro registo. Incapaz de distinguir entre o supérfluo e o necessário a esta narrativa, o realizador cria imagens (e sequências) que nada acrescentam. Outras repetem-se para sublinhar a sua simbologia óbvia (nomeadamente as subaquáticas). Opções que acabam por prejudicar a sobriedade pretendida e a, por vezes devastadora, emoção que esta história, e estas actrizes, vão proporcionando.

“Um Dia Inesquecível”, de Ettore Scola
por RUI ALVES DE SOUSA

A Festa do Cinema Italiano presta homenagem a Ettore Scola, realizador que nos deixou em janeiro deste ano, com um pequeno ciclo dedicado à sua obra. Numa selecção de 11 filmes (alguns que realizou, outros que escreveu), exibidos na Cinemateca Portuguesa (à exceção de Feios, Porcos e Maus, que vai passar no S. Jorge), poderemos (re)descobrir as várias faces de uma filmografia que não faz jus, de certo modo, aos epítetos que grande parte da imprensa atribuiu a Scola em vários obituários. Como pode um cineasta ser “menor” se, no seu currículo, consta um filme inigualável como A Ultrapassagem (do qual escreveu o argumento) e alguns sucessos de bilheteira que continuam a cativar o público, filmes que não se deixarem render pelos “encantos” do cinema mainstream vulgar?

Um Dia Inesquecível é um desses achados que nos faz questionar o cânone que foi atribuído injustamente a Scola. Tendo como mote o dia em que Itália preparou uma enorme parada para receber Hitler em 1938, o filme conta a história de duas pessoas que não estiveram presentes na cerimónia, ao contrário de todos os seus vizinhos. Um dia que será inesquecível para os italianos – que estão confiantes na eterna prosperidade do regime de Mussolini – mas que também será inesquecível, por outras razões, para a dupla de protagonistas. Do dia para a noite, descobriremos as suas fragilidades e contradições e os seus medos. O medo da ignorância, o medo da diferença, o medo da autoridade que é o medo de ter uma “vida normal” – ou a vida que os líderes querem que o seu rebanho cultive.

Sophia Loren e Marcello Mastroianni brilham em duas interpretações excecionais, que sustentam o filme como se de uma peça de teatro se tratasse. É daqueles casos em que podemos aplicar a expressão tour de force – que à conta de já ter sido usada e abusada, parece que perdeu o seu sentido. Pouco nos movemos, entre um andar e outro, entre os problemas de Loren e a alegria eufórica de Mastroianni, que serve para esconder o destino triste que o aguarda. Com pouca coisa Scola conseguiu fazer um grande filme, que começa com uma luz e acaba com outra. Para todos os outros foi mais um dia, mas para aquele homem e aquela mulher, nada mais será o mesmo.

Um olhar dramático sobre a solidão e a força de uma sociedade fascista, em que se reprime os opositores, em que o pensamento único afasta os seres humanos daquilo que os distingue: o seu sentido de humanidade. Os planos magníficos captam com emoção as sucessivas mudanças psicológicas das personagens e aproximam-nos da sua intimidade com uma beleza que coabita com a miséria social e moral do modo de vida que nos é apresentado, acabando por encontrar, nos mais pequenos conflitos humanos, uma fonte de imagens maravilhosas. Um Dia Inesquecível foi restaurado a partir do negativo original, recuperando as texturas originais da cinematografia, que tinham sido alteradas com o passar do tempo em sucessivas reedições do filme nos mais diversos formatos.

“Pecore in Erba”, de Alberto Caviglia
por RUI ALVES DE SOUSA

Muito se tem falado sobre o que é, afinal, o “humor negro”. Numa época em que novos comediantes parecem surgir a cada dia que passa, têm surgido algumas versões distorcidas sobre as características desse tipo de humor – que existe há muito mais tempo do que parece. Depois da tragédia do Charlie Hebdo, voltaram os debates já gastos sobre quais são os limites do humor, a diferença entre uma piada e a liberdade de expressão de quem a emite (e dos que por ela são “afetados”), entre outras questões que parecem continuar sem solução para a opinião pública.

Apesar disso, convém sempre lembrar que, acima de tudo, o humor tem de obedecer a uma regra básica: fazer rir, independentemente do tema e das circunstâncias em que o aborda. Tudo o resto acaba por ser secundário. Principalmente quando nos deparamos com um objeto tão peculiar como Pecore in Erba, estreia na realização de Alberto Caviglia, e uma das comédias que fazem parte da seleção da Festa do Cinema Italiano de 2016.

Integrado na secção Competitiva, este filme é um mockumentary que satiriza o anti-semitismo a partir de um mundo “alternativo”, em que um jovem aprendiz de nazi ganha o amor dos media. Através do formato de uma reportagem televisiva, Pecore in Erba desconstrói os clichés do mediatismo, e parodia os fenómenos modernos de intolerância com uma história cómica que não se importa de brincar com factos delicados da História recente. Nada mais apropriado, visto estarmos numa altura conturbada em que a ascensão dos nacionalismos volta a ser uma realidade.

Com inteligência e graça, Pecore in Erba é uma pequena comédia que critica o poder das massas e da ignorância, denunciando a forma como o ódio nunca abandonou o mundo. A sua ironia e o seu espírito sarcástico podem não agradar a todos, mas é certo que Caviglia conseguiu montar uma narrativa divertida, sem nunca deixar de nos alertar para os perigos que nos rodeiam e que estão a ganhar força. Os pormenores acutilantes, as referências cinéfilas e os apontamentos de paródia aos símbolos da cultura nazi beneficiam este pseudo-documentário que, na ausência de intenções verdadeiramente cinematográficas (o que não prejudica em nada o filme), nos proporciona uma visão corajosa e hilariante do mundo em que vivemos, atacando-nos com pequenos murros no estômago que se disfarçam de gags. Mais comédias assim fazem falta.

“Asino Vola”, de Marcello Fonte & Paolo Tripodi
por DIOGO SENO

Um filme para a infância, sobre a paixão pela música, e a motivação que ela pode despertar. Asino Vola (em português: Burro Voa) desenvolve-se em flashback, levando-nos do presente de um grande compositor, Maurizio, ao seu passado enquanto menino na Calabria. Nascido na pobreza, faz-se valer da companhia dos animais com quem fala, e com os quais mantêm amizade, particularmente Mosè, o burro leitor de Platão, e seu conselheiro. Uma fábula, portanto, que apresenta a viagem do protagonista com o recurso a imagens recorrentes do cinema infantil, havendo inclusive diferentes animações que pontuam algumas cenas, para ilustrar os pensamentos mais íntimos das personagens.

Há aqui um terreno que não chega a ser explorado talvez por receio de afastar o público ao qual o filme se dirige. O seu lado fantasioso não impediria uma maior entrega àquelas personagens e ao seu meio. Se há alguma ternura na forma como se tenta retratar um protagonista que não desiste do seu sonho de ser músico, e para isso confronta todas as adversidades, este conflito não chega a ganhar vida. A aldeia de Maurizio, a sua relação com os animais, com a sua família, não ultrapassa a ilustração, numa obra que se aproxima mais da televisão do que do cinema.

“O Conto dos Contos”, de Matteo Garrone
por RUI ALVES DE SOUSA

O realizador de Reality regressa ao circuito comercial português com uma grande coprodução entre vários países. De uma comédia dramática sobre o mediatismo da vida moderna, Matteo Garrone passa agora para o mundo da magia e dos contos fantásticos. A partir de três histórias distintas, sobre três reinos vizinhos, Garrone traça um retrato das relações humanas, com o amor, a ambição e o poder à mistura. As fragilidades de reis e membros da plebe conjugam-se em pequenos dramas “maiores que a vida”, onde as maldições, os feitiços e as criaturas mitológicas têm um grande papel.

Com um elenco verdadeiramente internacional (da mexicana Salma Hayek ao britânico Toby Jones, passando pelo francês Vincent Cassel e a italiana Alba Rohrwacher), O Conto dos Contos é uma tentativa de pegar na moda das histórias medievais de fantasia que emocionam tanta gente e que tanto dinheiro fazem circular (o fenómeno planetário Game of Thrones é o expoente máximo disso). Uma produção milionária, mas que só o é na aparência.

As boas intenções de Garrone não parecem muito evidentes, porque o filme acaba por ser mais um espetáculo visual insípido e interminável do que uma narrativa intrincada e cuidada. As histórias e os atores deixam-se dominar pelas técnicas computadorizadas, de questionável qualidade, que dominam a obra de uma ponta à outra, sem acrescentarem nada que nos aproxime mais deste universo tão fechado em si mesmo. O tom épico torna-se aborrecido porque fica despropositado, e as proporções gigantescas do filme tornam-se risíveis, de um momento para o outro.

O Conto dos Contos parece apenas uma desculpa constante para justificar o orçamento. Todos os luxos tecnológicos estão aqui presentes, e o filme perde a sua (pequena) alma a cada momento que passa. São três contos morais que, apesar do seu relativo interesse, entrelaçam-se sem grande ritmo e acabam por se desvanecer, entre tanta coisa espalhafatosa, que nem consegue encher o olho com satisfação. Uma pedrada no charco que, apesar de tudo, não falha totalmente, porque a história do rei com bizarros animais de estimação, mais a filha e o seu “marido” monstruoso, parece ser a única que tem mais pujança entre todo o conjunto. Contudo, tendo tanta gente de talento envolvida, o filme devia proporcionar mais do que isto ao espectador, uma mistela irregular de imagens cujos excessos digitais podem provocar enjoos.

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