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“Versalhes”: sexo, sangue e dourados

Texto: NUNO GALOPIM

Produção televisiva de grande ambição, “Versalhes” exagera na condimentação à la século XXI de cenas de sexo e sangue numa trama que por vezes tropeça nas molduras históricas do século XVII que quer retratar.

Quando se fala de ficção histórica há duas realidades maiores em jogo. A ficção, por um lado, que concede plena liberdade de criação ao autor para poder criar personagens, situações, lugares. Mas depois há o contexto histórico. E se as coisas não se ajustam nas figuras, nos espaços e no tempo, então a coisa pode não encaixar e gerar, logo à partida, um ruído que nos pode impedir de acreditar na ficção que depois acompanhamos. Esse é o primeiro dos problemas de Versalhes, série que nasceu de uma coprodução franco-canadiana e que representa, desde o histórico Si Versailles M’Etait Conté, de Sacha Guitry (nos anos 50), a mais imponente e cara investida da ficção televisiva pelas memórias do palácio que, nascido de um antigo pavilhão de caça a cerca de 30 quilómetros de Paris, foi a sede do poder durante cerca de 100 anos, entre o dia em que Luís XIV oficialmente ali instalou a corte, a 6 de maio de 1682 e o mês de outubro de 1789 em que os parisienses foram ali reclamar pelo regresso do rei (então Luís XVI) à capital.

Mostrando a série o ano de 1667 como aquele que acolhe a ação, há desde logo um primeiro dente na engrenagem a estragar o movimento da coisa. Estava-se então em plena primeira grande campanha de construção (que durou entre 1674 e 1668), correspondendo de facto o palácio a uma construção com a dimensão do espaço sugerido nas imagens (embora a capela, que vemos em algumas cenas, só tenha surgido bem depois). Mas em 1667, e apesar de ali ter havido já uma grande festa, com a acomodação posterior de 600 convidados em 1664, aquele era um estaleiro. E o rei tinha o Louvre e Fontainebleau, entre outras residências reais, como destino mais frequente dos seus dias. Ou seja, a corte não estava ainda em Versalhes para poder protestar pela mudança, como pede a trama central da série.

Philippe, o Duque de Orleãs, irmão do rei, era de facto conhecido pela sua orientação sexual. O facto, que aduba a construção da personagem na série, na verdade só falha porque a figura que inspira, na verdade, não habitava Versalhes, mas antes no Palais Royal, em Paris, em frente ao Louvre. A coabitação entre irmãos, que serve o tutano da trama de Versalhes, não existia. Por isso Philippe parece ali colocado para… apimentar a coisa.

Mas não é só da imprecisão nestes factos que vivem os muitos males que fazem de uma série que tinha tudo para ser potencialmente marcante pouco mais do que uma telenovela com cenários e guarda roupa caros e umas pitadas valentes de sexo e de sangue graficamente bem evidentes como mandam os livros de estilo do entusiasmo para plateias na alvorada do século XXI.

Como em tantas outras criações de época, Versalhes é um primor de roupas passadinhas a ferro e cabelos acabados de sair do salão de cabeleireiro. Nada como passarmos os olhos pelo soberbo A Rainha Margot (1994), de Patrice Chéreau para sentir ecos talvez mais “verdadeiros” do que era o quotidiano palaciano (apesar desse filme projetar a ação nos tempos do final da dinastia de Valois e início da de Bourbon), com outra patine. E ali nem falta o elemento gay, contudo sob outro enquadramento mais coerente e consequente, se quiserem afinar mais planos possíveis de comparação… Já agora, porque não uma passagem também por La Prise du Pouvoir de Louis XIV (1966), telefilme de Roberto Rossellini, como forma de retratar o que foi o processo de construção de uma centralização do poder, ajudado pela ritualização de gestos e vestes, com o palácio de Versalhes por cenário, já que parece ser também esse um dos focos narrativos da série.

Há valores contudo interessantes em jogo em Versalhes. A art direction é um primor na criação de interiores que se ajustam de facto ao que seriam as peças de mobiliário e outros objetos de artes decorativas nos tempos de Luís XIV, assim como o guarda roupa traduz (para já nestes dois primeiros episódios) o que seria a vida quotidiana por aqueles lados antes do passo em frente na criação de um teatro de ostentação que chegaria logo depois. Há belos planos filmados in loco, assim como em outros palácios, mas sempre usando da melhor forma o que dão à imagem como cenário. Os diálogos são bem escritos, apesar de muitas vezes servirem os conflitos e contexto, não revelando fulgor num aprofundamento maior da caracterização das personagens. Mas com tantos valores importantes na produção, dá pena que Versalhes acabe por nos dar uma série tão banal, embora sofisticada. Enche talvez o olho. Mas não alimenta.

“Versalhes” está em exibição nas noites de quarta-feira na RTP1.

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