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Pet Shop Boys em 10 singles

Seleção e textos: NUNO GALOPIM

Dez singles para contar mais de 30 anos numa das discografias mais importantes da história da música pop. Dez canções entre os tempos de “West End Girls” e os dias do novo “The Pop Kids”.

São já mais de 30 anos feitos de muitos discos, com rara regularidade nos ritmos de edição e um evidente ressurgimento criativo assinalado nos últimos anos, com uma sucessão de álbuns ao nível dos seus melhores de sempre. Mas mesmo com belíssimos álbuns em carteira, os Pet Shop Boys são, na essência, uma banda de grandes singles. Vamos recordar aqui dez das canções que, desde 1984, lançaram a 45 rotações.

“The Pop Kids” (2016)
Depois de um primeiro aperitivo sugerido pelo tema Inner Sanctum, lançado como teaser algum tempo antes, o primeiro single extraído do álbum Super revelava uma canção pop de travo mais clássico. Carregada de ressonâncias de memórias, do som dos Krafkwerk à música de dança dos anos 90, a canção é também ela um conjunto de evocações, lembrando um tempo em que a música significava quase tudo, sem esquecer como o tomar partido nas causas dos gostos marca, nos dias de juventude, a relação com aquilo que se escuta. O single abriu caminho para a descoberta de um segundo álbum criado em parceria com o produtor Stuart Price.

“West End Girls” (1985)
19 de agosto de 1983. Um jornalista britânico almoça com um produtor norte-americano. Reza a mitologia que comeram cheeseburguer e bolo de cenoura. No final o produtor Bobby O (uma das figuras maiores do hi nrg e da música de dança da Nova Iorque de então) dizia ao jornalista Neil Tennant (que tinha atravessado o Atlântico para entrevistar os The Police) que queria fazer um disco com a sua banda… os Pet Shop Boys. Das sessões com Bobby O resultou a gravação de primeiras versões de alguns dos seus primeiros temas. E na hora de escolher um para ser o single de estreia apontaram a West End Girls, uma canção que nascia sob um evidente interesse pelas formas (então emergentes entre o mundo da pop) da cultura hip hop. O single foi editado por uma etiqueta norte-americana, a Bobcat Records (subsidiária da CBS), e no Reino Unido o disco esteve apenas disponível no formato de 12” nas lojas de importação. A versão produzida por Bobby O é consideravelmente diferente da que um pouco mais tarde o grupo regravaria com Stephen Hague. A base da ideia é a mesma, embora ligeiramente mais acelerada, explorando já a presença de coros eletronicamente trabalhados e de sons ambiente samplados e integrados na matriz cénica da canção, com uma base rítmica que todavia sublinhava uma ligação mais evidente ao universo hi-nrg. A versão que acima apresentamos corresponde ao single de 1985.

“It’s a Sin” (1987)
Os Pet Shop Boys anunciaram a chegada de um segundo álbum de originais com um dos melhores singles de toda a sua discografia. Inspirada por memórias da educação religiosa de Neil Tennant e decidida a questionar a noção de pecado, a canção é animada por uma alma de fulgor sinfonista e deu ao duo um dos seus maiores êxitos de sempre. Editado em junho de 1987 (com You Know When You Went Wrong no lado B), It’s a Sin contou ainda com um magnífico teledisco realizado por Derek Jarman, que se afirmaria como um dos mais icónicos da videografia do grupo.

1987. “Rent”
O terceiro single extraído do álbum Actually era na verdade uma canção que Neil Tennant e Chris Lowe tinham trabalhado ainda em 1984 nas primeiras sessões com Bobby Orlando, em Nova Iorque. Uma nova visão, mais suave, trabalhada com Stephen Hague surgiu no álbum e acabou por ser lançada como single em vários territórios, atingindo o número 8 no Reino Unido. Ao longo dos anos Rent teve versões noutras vozes, entre elas a de Liza Minelli, no álbum Results, de 1989. O teledisco foi assinado por Derek Jarman, realizador com quem os Pet Shop Boys realizaram vários trabalhos entre 1987 e 1989.

1988. “Left To My Own Devices”
O segundo single ligado ao álbum Introspective apresentou a primeira experiência dos Pet Shop Boys com uma orquestra. De certa forma inspirado por memórias de abordagens do japonês Tomita à música de Debussy, Left To My Own Devices (1988) assinalou ainda um episódio de colaboração com o produtor Trevor Horn. E representou mais um êxito maior à escala global. Além dos Pet Shop Boys, a “vida” de Debussy entre espaços da música pop passou já por discos de nomes como os de Marc Almond ou The Art of Noise.

1990. “Being Boring”
Nem sempre o impacte direto de um single no mercado define o estatuto que uma canção possa vir a ter no quadro de uma obra. Being Boring é disso um claro exemplo. Foi o segundo single extraído do alinhamento do álbum Behaviour, lançado no formato de 45 rotações em novembro de 1990. Foi o primeiro single do grupo, desde 1986, a falhar o top 10 no Reino Unido (chegou apenas ao número 20), mas o tempo fez desta canção um dos maiores clássicos do grupo e frequentemente surge ainda no alinhamento dos seus concertos. Na canção Neil Tennant afirmou traduzir memórias de um amigo que, como ele se mudou para Londres mas que viria a morrer, vítima de sida. O teledisco representa a primeira das três colaborações (até à data) do grupo com Bruce Webber. No lado B do single surge We All Feel Better in The Dark, canção que tem Chris Lowe como principal vocalista.

1992. “Go West”
Na origem foi um single editado em 1979 pelos Village People. Em 1992 os Pet Shop Boys foram convidados por Derek Jarman a participar numa recolha de fundos para a luta contra a sida na Haçienda. Resolveram levar uma versão de Go West, que só depois decidiram gravar em disco. A versão seria editada como segundo single do álbum Very e acabaria transformada no maior êxito do grupo nos anos 90. Não foi contudo a primeira vez que o grupo partiu de canções dos outros para, através de versões, criar novos singles. Além de Go West a história das versões que editaram como single passa por novas versões de Always on My Mind, de Elvis Presley (1987), It’s Alright, de Sterling Void (1989), Where The Streets Have No Name (I Can’t Take My Eyes Out of You) (1991), juntando os U2 e Frankie Valli e Somewhere (1997) de Leonard Bernstein.

“I Don’t Know What You Want But I Can’t Give It Any More” (1999)
Em 1999 o álbum Nightlife teve como cartão de visita o single I Don’t Know What You Want But I Can’t Give It Any More, mais um exemplo do relacionamento da pop dos Pet Shop Boys com linguagens do universo da música de dança. A canção definia então os caminhos de um álbum onde o grupo reencontrava o centro de gravidade da sua obra (a relação da canção pop com a música de dança, juntando um trabalho notável de arranjos com cordas) e surgia no formato de single com uma versão de Je T’Aime Moi Non Plus, de Gainsbourg. O single foi acompanhado por um teledisco assinado por Pedro Romhanyi. Numa das sequências o cenário evoca diretamente os espaços de uma casa que vemos no final de 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick.

2004. “Flamboyant”
Apesar de ser dos melhores singles da obra dos Pet Shop Boys depois da viragem do milénio, foi título que passou algo fora do foco das atenções. Flamboyant foi o segundo do par de inéditos que o grupo lançou quando, em 2003, apresentou a antologia PopArt. Editado já em inícios de 2004 a canção reflete uma presença de elementos electro (recorde-se que o electroclash fora acontecimento marcante em alguns setores na alvorada da década dos zeros), porém devidamente assimilados na matriz de genética pop e disco que sempre animou a música dos Pet Shop Boys. O teledisco, assinado por Nico Beyer, representa uma celebração da cultura pop japonesa e da linguagem dos filmes publicitários.

“Love Is a Bourgeois Construct” (2013)
O alinhamento do álbum Electric voltou a assinalar um episódio de ligação da pop dos Pet Shop Boys com heranças da música clássica. Em 1988 tinham citado Debussy em Left To My Own Devices. Um ano antes, em Hold On, tinham integrado elementos de uma obra de Handel. Em Love Is a Bourgeois Construct, construiram um tema pop sobre elementos de Crashing Sheep is Best Left to Shepards de Michael Nyman (que na verdade era já edificado sobre ressonâncias da música de Purcell), aprofundando um diálogo entre o presente e um passado anterior à alvorada da cultura pop que poucos sabem encarar de forma tão eloquente e sábia.

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