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Há o bom… O muito bom… E, depois, o “Super”!

Texto: NUNO GALOPIM

Novamente ao lado de Stuart Price os Pet Shop Boys apresentam no seu 13º álbum de estúdio um alinhamento que traduz não só longevidade, mas um fulgor criativo que sabe fazer diálogos entre heranças e o presente.

Comecemos a fazer contas. Passam neste momento 30 anos sobre o momento em que os Pet Shop Boys apresentaram em Please o seu primeiro álbum de originais, disco que deixou claro que o que havia sido um fenómeno em volta de West End Girls não era coisa para fazer da dupla formada por Neil Tennant e Chris Lowe um nome a juntar à vasta lista de one hit wonders. Pelo contrário, três décadas depois, reconhecemo-los como uma das mais sólidas e importantes bandas da história da música pop, com uma obra vasta e marcante, que abarca já mais de meia centena de singles, música para cinema e para o palco, um historial global de digressões (coisa que descobriram tarde, mas que hoje não dispensam) e lançam agora em Super o seu 13º álbum de originais. E o seu melhor do novo século (so far).

É verdade que vão já longe os dias (nos oitentas e noventas) em que os seus singles faziam carreira de vento em popa nas tabelas de vendas e revelavam, uma atrás de outra, canções pop simplesmente irresistíveis e memoráveis. Mas com o tempo, se houve um desinvestimento (ou desvio de um pensamento) da canção pontual para a criação de um todo maior – ou seja, o álbum – a verdade é que, apesar de não haver desde há muitos sucessões de clássicos retumbantes a 45 rotações como nos dias de It’s a Sin, What Have I Done To Deserve This, Rent ou Heart, por outro lado, e apesar da excelência pontual dos alinhamentos de Actually (1987) e Behaviour (1990), a verdade é que desde Yes (em 2009), os álbuns dos Pet Shop Boys têm sido, todos eles, feitos de alinhamentos coesos, cheios de belas canções e até mesmo capazes de, com em Elysium (2012) e Electric (2013) serem capazes de definir um espaço concetualmente coerente de fio a pavio. Super é assim o quarto álbum que editam nesta etapa de veterania iluminada, e chega com o valor acrescentado de ter em Pop Kids o single de apresentação mais cativante que lançam desde que, em 1999 o tema Don’t Know What You Want But I Can’t Take it Anymore então preparou a chegada de Nightlife.

Super é o segundo álbum que os Pet Shop Boys gravam na companhia de Stuart Price, figura há muito relevante no panorama da pop electrónica dançável que, apesar dos trunfos em discos pessoais via Les Rhytmes Digitales, Zoot Woman ou como Jacques Lu Cont, tem como (merecida) coroa de glória até ao momento o soberbo Confessions on a Dancefloor (2005) de Madonna. Há três anos, em Electric, tinham em conjunto investido numa exploração dos caminhos que a alma dos Pet Shop Boys poderia investigar entre os horizontes atuais da electrónica que se faz ao serviço dos músculos das pernas. Agora, em Super, juntam a essa mesma demanda (que para os Pet Shop Boys é na verdade coisa estrutural desde o dia de 1984 em que editaram uma primeira versão de West End Girls, sob produção do mago do hi-nrg Bobby Orlando) o apelo pop mais alargado que caracterizava o alinhamento menos direcionado de Yes, acrescentando como condimentação algumas das melhores letras que a música pop tem escutado nos últimos meses, entre as quais a que, em The Dictator Dictates, assinala o reencontro da dupla com uma alma política mais crítica.

Super é um disco vibrante e dá conta do tempo presente de uma dupla a quem a longevidade não transformou em linha de montagem, traduzindo um entusiasmo que concilia a bem alicerçada expressão de uma linguagem autoral há muito definida com o prazer da descoberta do que os novos tempos e o trabalho com novos colaboradores pode colocar em cena. Assim, em Twenty Something observamos como assimilam do universo reggaeton alguns elementos que logo transformam em pop à la Pet Shop Boys, definindo um cenário para falar da geração “millenial”. Pazzo é outro exemplo de apropriação de formas contemporâneas da EDM, mas com a inteligência pop que tantas vezes falta e sob marcas de personalidade que a destacam da indistinta floresta de presets em voga que faz de muita da pop electrónica atual – atenção que há exceções – um puré indistinto que o tempo de encarregará de esquecer (por muito que a ideia custe aos fãs respetivos). Já Groovy mostra sobretudo ecos de memórias de heranças da relação dos Pet Shop Boys com formas da música de dança de finais dos oitentas. E Inner Sanctum, que foi o primeiro teaser (e não um single) estabelece evidentes pontes com o anterior Electric, algo que o brilhante Happiness também reflete, embora expressando o seu refrão uma mais clara manifestação da luminosidade pop que faz com que, do disco noturno que era o álbum de 2013, o novo Super seja antes coisa para as 24 horas do dia.

Super é um disco de formas e intensidades bem distintas dos alinhamentos esteticamente mais fechados do plácido Elysium (na verdade o sucessor do velho Behaviour) e mais agitados Electric. É relativamente contido na costela baladeira e mid-tempo. Mas, além do magnífico The Dictator Ditates, o igualmente inspirado Sad Robot World lembra como, apesar de nunca ter sido esta a mais frequente opção do grupo na hora de escolher singles (com raras exceções em temas como Rent, Liberation ou Jealousy, por exemplo), é neste departamento que por vezes criam algumas das peças mais arrebatadoras dos seus álbuns.

Trinta anos depois de Please, Super (que mantém a tradição dos títulos de uma só palavra) traduz, mais do que apenas a longevidade, o entusiasmo e fulgor criativo (o que não é aqui sinónimo de busca de revolução a cada 15 minutos, mas capacidade em compor grandes canções) que se mantém bem evidentes numa dupla que pode não ser mais a fazedora de hits de outrora. Mas que, tirando o tropeção pontual de Release em 2002, não faz discos maus. E este nem é só bom. Nem apenas muito bom. É super!

Pet Shop Boys
“Super”
LO, CD e DD X2/Kobalt
★★★★★

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