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Os três melhores filmes do primeiro trimestre de 2016

"O Filho de Saúl"

Com três meses a ver filmes e a passagem já por alguns festivais de cinema, há já um primeiro balanço possível a fazer, pelo que ficam aqui três escolhas para este trimestre.

Dois dos filmes tiveram estreia entre nós. E, curiosamente, foram dois títulos que deram que falar na edição de 2015 do Festival de Cannes. O Filho de Saul deu-nos um dos mais aterradores olhares sobre a memória do Holocausto que o grande ecrã alguma vez viu. E em Muito Amadas começámos a descobrir com outra atenção o cinema de Nabil Ayouch, a quem o Leffest dedicou já uma retrospetiva.

De Berlim tenho de destacar, entre outros filmes bem interessantes que vi (e a seu tempo terei aqui de falar do novo Ranenyy Angel, de Emir Baigazin, o autor de Lições de Harmonia), o novo de André Téchiné, talvez o seu melhor filme desde Os Juncos Silvestres, que passou na competição.

Ficam aqui os três escolhidos, com os textos pelos quais os fui aqui apresentando:

“O Filho de Saul”
de László Nemes

Não precisamos ver nem ouvir e muito menos ter explicações maiores para sabermos onde estamos… Auschwitz-Birkenau, no outono de 1944, numa altura de funcionamento do campo em pico de atividade num tempo em que ali chegavam, uns atrás dos outros, comboios com milhares de judeus húngaros. Mais de 400 mil seriam ali gaseados em poucos meses. Mas estas são informações que conhecemos, porque antes as lemos em livros e vimos mais filmes sobre o tema.

O Filho de Saul não nos conta mais do que vemos nas imagens e dos sons que, violenta e continuamente, constroem um ruído de ressonância de medo e morte que acompanha o que vemos do início ao fim. Sabemos apenas que estamos dentro de um crematório – estruturas que tinham associadas às zonas de queima dos corpos a própria câmara de gás e a sala onde os detidos antes se despojavam de tudo – e que, terminado um gaseamento, no momento em que os restos mortais são removidos para serem depois queimados, há um som que emerge onde apenas o silêncio era esperado. É um rapaz, muito jovem, que, contra o que seria de esperar, sobrevivera. Não por muito tempo. Até porque os médicos das SS tratam de exigir uma autópsia para compreender o facto. Saul, um dos sonderkommando – grupo de prisioneiros que tinha a cargo o acompanhamento dos que iam morrer, o retirar dos seus pertences mal entravam na câmara de gás e, depois, os levavam aos fornos – toma aquele por seu filho. E, contra a lógica sem lógica de toda aquela rotina de morte anónima, tenta o que pode (e o que não pode) para encontrar um rabi que lhe dê um funeral condigno. O rapaz, filho ou não de Saul, torna-se um símbolo de um desejo de um mínimo de luz onde as trevas há muito fecharam e devoraram todos aqueles que conhece.

László Nemes começou a trabalhar a ideia para este filme quando integrava a equipa de Béla Tarr que então rodava O Homem de Londres. Foi então que tomou conhecimento de um conjunto de testemunhos de sonderkommando (que frequentemente eram mortos e trocados a cada três meses), dessas memórias emergindo a ideia de um filme que acompanha dia e meio na vida de um deles, na iminência de uma revolta que de facto aconteceu e inutilizou o Crematório 4 de Aushwitz-Birkenau (que será, assim, o local onde o filme nos mergulha).

Com uma lente especialmente escolhida para manter as imagens focadas mais perto da objetiva, deixando muito do cenário difuso (mas nem precisamos ver para imaginarmos o que ali acontece), o filme caminha com Saul pelos espaços do Crematório (e a herança de Béla Tarr não está longe do modo como Lázsló Nemes aqui nos faz olhar). Da sala de despir e das seleções de pertences à câmara de gás, a sua limpeza depois de uma ação e preparação para novo ciclo logo a seguir, numa repetição incessante de gestos, sempre rápidos, sempre sob os gritos dos SS que acompanham, armados, a execução das ordens. Há um intenso trabalho de design de som a completar o corpo da imagem. Vozes em oito línguas cruzam-se num espaço comum, os ecos e acontecimentos mais perto e mais longe vincando mais ainda a sensação de claustrofobia, medo e fim que ali se respira.

Saul tem nome. Sabemo-lo nós. Mas tudo ali é desumanizado e anónimo. Ninguém é tratado senão pelo seu número. Os corpos dos mortos são “pedaços” a tirar de cena, seja no crematório ou em fossas de combustão no exterior. E, quando não há capacidade técnica para mais, a matança faz-se, a tiro, cá fora, entre as piras dos corpos.

Há cruzamentos do filme com elementos factuais, seja quando vemos a serem tiradas algumas das raras imagens que se conhecem de sonderkommando e prisioneiros no exterior de um crematório. Ou na encenação da revolta que representou um dos mais importantes episódios de resistência na história dos campos de extermínio das SS.

Apresentado e premiado em Cannes – com o Grande Prémio e o FIPRESCI – em 2015, ou seja, no ano em que se assinalavam as sete décadas sobre a libertação da maioria dos campos de concentração, O Filho de Saul representa uma das mais impressionantes experiências de abordagem do universo do cinema à memória do Holocausto. Tão imersiva quanto a ficção pode afinal permitir.

“Muito Amadas”
de Nabil Ayouch

Foi uma das várias razões pelas quais as secções paralelas da Semana da Crítica e Quinzena dos Realizadores (passou em concreto nesta última) estiveram tão sob o foco das atenções na última edição do Festival de Cannes. E, quando chegou a vez de estrear no seu país de origem, o filme foi impedido de chegar às salas de cinema, chegando até a atriz Loubna Abidar a ter de lançar o alerta por estar a receber ameaças de morte. O filme do marroquino Nabil Ayouch, que mergulha no mundo da prostituição em Marraquexe, incomodou. E muito.

Muito Amadas nasceu depois de o realizador ter desenvolvido um demorado trabalho de campo, falando com cerca de 200 trabalhadoras do sexo. E, mesmo estando longe de procurar fazer do filme um documentário sobre o tema ou de querer seguir as pistas do realismo social, revela um retrato que traduz choques em cadeia com jogos de aparências, códigos morais e comportamentos ensopados em medos e complexos.

Nabil Ayouch segue essencialmente o quotidiano de um grupo de mulheres que partilham um apartamento, juntamente com um motorista que as leva e segue a todo o lado. Sem filtro, ouvimo-las a falar de si, do seu dia a dia, do que viram e lhes aconteceu. Uma franqueza dura, mas bem-humorada, que contrasta com toda a encenação com que vivem depois numa villa que nessa noite acolhe um bordel. Encenação que, por sua vez, está nos antípodas da realidade que as espera ou de passagem por um hospital, numa visita a casa onde uma ouve a mãe a dizer-lhe que prefere que não regresse ali porque se dizem coisas sobre si ou até mesmo quando uma delas é detida ao tentar defender uma das amigas sob ataque, revelando-se então um outro domínio que acentua a hipocrisia e abuso de poder de figuras-satélite que cercam o seu mundo.

Nabil Ayouch não mergulha contudo num caldeirão de drama miserabilista estas mulheres ou o amigo, também trabalhador do sexo, com quem passam uma noite de conversa. E lembra que há um fulgor de vida em cada uma destas figuras, uma carapaça em construção que ajuda a levantar atitudes de defesa. E é da capacidade de observação e comentário destas mulheres que não se vergam, não fogem nem se rendem a um papel incolor na sociedade que nasce talvez a maior fonte de incómodo do filme.

“Quand on a 17 Ans”
de André Téchiné

O cinema de André Téchiné tem sido algo irregular nos últimos anos, mas curiosamente escapou às salas de cinema portuguesas aquele que foi talvez o seu melhor filme desde o sublime Os Juncos Silvestres (1994). Les Temoins (que passou em 2007 pela seleção oficial de Berlim) apresentou aqui, há nove anos, uma narrativa com cenário francês nos tempos em que os primeiros casos de sida começaram a ser diagnosticados e as primeiras vítimas a morrer. Quand on a 17 Ans assinalou este ano o seu regresso à Berlinale, mas com um filme dominado por uma outra esperança de vida.

Com ação numa pequena povoação remota em plenos Pirenéus o filme coloca-nos no espaço de dois rapazes (de 17 anos, diz o título) que se esmurram e provocam mutuamente sem que aparentemente haja um foco de desentendimento. Um deles mora longe da cidade, a uma hora e meia de caminhada a pé e de autocarro da escola, a sua relação com a natureza, o frio, a neve e as montanhas sendo mais fácil do que a que tece com os outros. Frequentemente isolado, Tom (Corentin Fila) é gente de poucas falas, vivendo um sonho de ser veterinário, ajudando os pais a tratar, para já, dos animais na sua quinta. O outro, Damien (Kacey Mottet-Klein), é filho de uma médica e de um piloto de helicópteros que vê mais pelo Skype, já que está colocado em zonas de guerra algures no médio oriente. Quando a mãe de um (a médica, interpretada por Sandrine Kiberlain) pede o internamento clínico da mãe do outro, propõe que ambos os rapazes fiquem em sua casa. Tenta que a diplomacia a que um teto comum os possa conduzir os leve a ultrapassar o que os separa. E mesmo tormentosa e complicada a convivência acaba por fazer com que ambos abram o seu jogo. E aqui não conto mais…

Téchiné explora magnificamente as paisagens e a relação que as estações do ano estabelecem com as suas constantes, mas lentas, mutações. E é nesse evoluir dos dias do ano, entre o frio gelado de um inverno cheio de neve e um verão com um verde vibrante e uma luz reveladora a iluminar tudo e todos que acompanhamos o evoluir de um caminho que mostra um Téchiné menos descrente do que nunca. O presente, marcado pela forma como os cenários de guerra se cruzam aqui pela personagem do pai de Damien é apenas um entre os vários elos de ligação aos vários ecos de Juncos Silvestres (com ação nos tempos do conflito na Argélia, nos anos 60) que este filme permite traçar. E atenção: é mesmo o melhor Téchiné em muitos anos.

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