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“Siren”: um monumento a meio da viagem

Texto: NUNO GALOPIM

Com “Love is the Drug” a abrir o alinhamento e a modelo Jerry Hall na mais icónica das imagens usadas nas capas dos álbuns da banda, “Siren”, de 1975, é um disco que marca um segundo fim de ciclo para os Roxy Music.

A imagem da capa, com Jerry Hall encarnando a pele de uma sereia, azul, caminhando entre os rochedos junto à costa de Gales, talvez represente a mais célebre de todas as que fizeram a história das capas dos discos dos Roxy Music. E Love is The Drug, canção que abre o alinhamento do disco e deu, então, ao grupo, o seu melhor resultado na tabela de singles britânica (igualado mais tarde por Dance Away e superado, depois, pela versão de Jealous Guy), representou uma marca de assinatura que, ainda hoje, excetuando talvez os “hinos” mais suaves dos dias de Avalon, representa aquele tema pelo qual a memória do grupo ficou registada entre todos nós. Esses são contudo apenas dois dos motivos pelos quais Siren, editado em outubro de 1975, é um dos álbuns mais marcantes da discografia dos Roxy Music.

Lançado praticamente um ano depois de Country Life, que tinha assinalado o despertar das atenções do público norte-americano para a música dos Roxy Music, Siren, criado sob produção de Chris Thomas em sessões gravadas ao longo do verão de 1975 nos AIR Studios (em Londres), é um disco de horizontes largos e caminhos vários ensaiados, representando uma das mais suculentas coleções de canções da obra do grupo, num patamar talvez apenas igualado (apesar das diferenças estéticas) entre a ousadia experimental que faz o alinhamento do álbum de estreia e a pose sofisticada da pop que atingiu a perfeição em Avalon.

De resto, de certa forma, este disco representa o meio da viagem. E se, por um lado, as texturas na abertura de Sentimental Fool e o fulgor intenso de Whirlwind, evocam ecos dos primeiros tempos, já os indícios de flirt com as electrónicas e o proto-disco de Both Ends Burning (o segundo single extraído do alinhamento deste disco) e a elegância pop de Just Another High abrem alas para o que chegaria depois da pausa que se seguiu à digressão que levou à estrada as canções de Siren.

Cabe contudo a Love is The Drug o papel de ser a estrela de um alinhamento que, mesmo recheado de canções bem nascidas e aberto ao interesse do grupo em não fechar a um espaço apenas a condução da sua demanda, tem ali a pérola que mais brilha. Mais do que acontecera até então em canções dos Roxy Music, e antecipando a estilização de uma forma elegante de fazer pop dançavel que Bryan Ferry apresentaria (a solo), um ano depois, em Let’s Stick Together, Love is The Drug parte da assimilação e posterior moldagem de heranças do R&B norte-americano. E traduz o que, pela primeira vez nos Roxy Music, pode ter representado uma construção pop talhada para seduzir ouvidos em vários comprimentos de onda, desse apelo inclusivo nascendo os apetites que justificaram o êxito global.

A canção teve depois várias versões, por nomes tão diferentes como os de Jamiroquai ou Kylie Minogue, cabendo contudo a Grace Jones uma segunda grande interpretação, que lhe mereceu inclusivamente a edição de um single em 1980, após a inclusão desta canção no alinhamento do seu álbum Warm Leatherette.

O álbum dividiu então as opiniões, de um lado surgindo os que aqui apontavam o melhor disco dos Roxy Music gravado até à data, de outro havendo vozes que em Siren viam sinais de um abrandamento criativo e a expressão de uma cautela. Quem militou neste segundo campo certamente não terá gostado do que se seguiu, depois, entre Manifesto, Flesh + Blood e Avalon. Prefiro, pelo contrário, sentir aqui não apenas a consolidação de uma linguagem própria que soube resistir à ausência de Brian Eno e, de certa forma, o lançar de possibilidades que esse trio final de álbuns tão magnificamente depois exploraram.

Partilhando o entusiasmo de uns ou o ceticismo de outros, Siren é contudo um disco unanimemente reconhecido como episódio final de um seguindo ciclo na discografia dos Roxy Music, fechando o trio iniciado em Stranded e continuado em Country Life, que representou a prova de vitalidade e liderança de Ferry após o afastamento de Eno.

A criação da imagem da capa, numa altura em que a exploração da figura de uma modelo se tornara já paradigma nas capas de álbuns dos Roxy Music, representou a mais complexa operação até então montada para esse efeito, levando Ferry, fotógrafo (mais equipa técnica), modelo, o estilista Antony Price e um batalhão de maquilhadores e cabeleireiros às falésias da pequena ilha de Anglesey, na costa galesa, depois de Bryan Ferry ter avistado o local num documentário. Convenhamos que valeu o esforço.

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