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Um segundo olhar pela obra gravada de Bernstein

Texto: NUNO GALOPIM

Dois anos depois de uma primeira caxia antológica, a Deutsche Grammophon apresenta um segundo volume de gravações dirigidas por Leonard Bernstein. A música de Mahler é a grande protagonista deste volume dois.

Se há coisa que não falta no universo discográfico da música clássica são (felizmente) as antologias que, aos poucos, vão tornando acessíveis, porque disponíveis e também menos caras, as muitas gravações de referência de maestros, obras e compositores. Frequentemente surgem na forma de caixas, com poucos a muitos CD, umas mais económicas apenas com os discos, saquetas e alinhamentos, outras mais recheadas em conteúdos, com textos, eventualmente reproduzindo as capas originais dos LP na dimensão mais acanhada do CD. Mas, editada em 2014, uma destas caixas batia as demais aos pontos. Não apenas pela dimensão (incluía 59 CD, um DVD, um livro, e tudo isto numa embalagem com as dimensões da capa um LP), como também pelo protagonista que colocava na berlinda e a vastidão de obras (épocas e formas) que as gravações ali documentavam. Apresentada como The Leonard Bernstein Collection – Volume One, esta caixa antológica encetava assim uma revisão do catálogo que o compositor e maestro norte-americano registou no período em que esteve ligado à Deutsche Grammophon.

Os primeiros 15 CDs são dedicados a Beethoven, recuperando gravações das suas sinfonias, de três dos seus cinco Concertos Para Piano, aberturas, versões orquestradas de quartetos de cordas, a Missa Solene e a ópera Fidelio. O segundo corpo maior desta recolha foca obras do próprio Bernstein, entre as quais as suas sinfonias, alguns bailados, canções, a suite criada a partir da música que compôs para Há Lodo no Cais, de Elia Kazan, elementos da Missa, a opereta Candide, a ópera A Quiet Place (que integra Trouble In Tahiti), a White House Cantata e a música de West Side Story. E passava ainda por obras de Lizst, Britten, Brahms, Bizet, Bruckner, Debussy, Dvorák, Elgar, Haydn, Franck, Roussel, Hindemith, Arrigo Boïto e pelos norte-americanos Aaron Copland e Del Tredici, Roy Harris e William Howard Schuman.

Agora, este panorama tem continuação num segundo volume que, seguindo a mesma lógica, acrescenta ao olhar antológico sobre Bernstein outras obras e outros compositores.

Se na primeira caixa a música de Beethoven e a do próprio Bernstein haviam representado os naipes de trunfo, desta vez cabe a Mahler ser o centro das primeiras atenções. Era de facto o grande ausente da primeira caixa (sendo logo evidente que seria peça gourmet a guardar para uma segunda), sobretudo porque, se hoje a obra do genial compositor austríaco habita inevitavelmente qualquer temporada sinfónica, surgindo a cada ano novas gravações da sua música, devemos a Leonard Bernstein o entusiasmo e esforço com que, no pós-guerra, recuperou um nome que o tempo quase havia esquecido e afastado dos repertórios. É sabido que, desde então, muitos outros revelaram olhares de excelência e personalidade sobre Mahler, desde Sinopoli e Boulez, entre tantos outros mais que gravaram as suas integrais sinfónicas. Contudo, nas mãos (sempre entusiasmadas) de Bernstein, a música de Mahler respira o fulgor da redescoberta. Convenhamos que este segundo volume não podia arrancar de melhor forma, com 19 CD integralmente dedicados ao compositor.

The Leonard Bernstein Collection Vol. 2, que junta um total de 64 CD, dedica depois os restantes discos da caixa a obras de Dvorák (partilhando o alinhamento de um CD com Bloch), Mendelssohn (dois discos), Mozart (sete discos com sinfonias, concertos e música sacra), Puccini (uma La Bohême em dois CD), Schubert (três das suas nove sinfonias em dois CD), Schhumann (a integral sinfónica em três CD), Shostakovich (quatro sinfonias, entre as quais a Nº 7, em três CD), Sibelius (quatro das suas sete sinfonias, em três CD), Richard Strauss (excertos da Salome e lieder num CD), Stravinsky (música para palco e sinfónica em cinco CD), Tchaikovsky (música para bailado e sinfónica em cinco discos) e Wagner (um Tristão e Isolda em quatro discos). Os CD 59 a 63 juntam as gravações efetuadas para a Decca nos Estados Unidos em 1953, incluindo obras de Beethoven, Dvorák, Schumann, Brahms e Tchaikovsky, acompanhando as interpretações por uma análise musical). A fechar, o CD 64 acrescenta elementos de Fancy Free e On The Town, do próprio Bernstein, em gravações dos elencos originais das respetivas primeiras produções.

Figura do século XX
Norte-americano, de ascendência ucraniana, Leonard Bernstein foi uma das mais destacadas figuras da música do século XX e teve importante carreira como mastro, compositor e também enquanto comunicador, aqui através da televisão, que dele fez um dos rostos globalmente mais reconhecidos da música clássica nas décadas de 50 a 70.

Como maestro teve uma história de sucesso desde muito cedo, fazendo carreira em diversas grandes orquestras mundiais, sobretudo a Filarmónica de Nova Iorque, que comandou durante 12 anos. É reconhecido o já referido papel determinante que teve na divulgação da obra sinfónica de Mahler, assim como na de grandes compositores americanos do século XX. Muitas vezes os feitos do comunicador televisivo e do maestro “que dançava” (o que incomodava alguma crítica mais sisuda) parecem ofuscar a importantíssima obra que nos deixou como compositor e que remonta a finais dos anos 30, estendendo-se até 1990.

Pela sua obra, que seguiu longe da demanda atonal de muitos dos seus contemporâneos, passa uma consciência do lugar geográfico (e portanto cultural) em que viveu, nela encontrando-se a essência de uma identidade americana que, por um lado, aceitava a herança da tradição clássica ocidental (em particular procurando pistas nas sugestões de grandes mestres americanos como Coplan ou Ives), mas a ela juntava uma atenção pelo quotidiano onde nascia. Ou seja, reflectia uma vivência próxima com o jazz, a Broadway e até mesmo (pontualmente), a nova música pop. Deixou-nos três soberbas sinfonias.

Uma série de magníficas peças para bailado. Musicais como On The Town, Wonderful Town ou West Side Story. A banda sonora de Há Lodo No Cais. As óperas Trouble In Tahiti e A Quiet Place. A espantosa Missa (uma reflexão sobre a relação do homem com a fé). E, obra-prima absoluta, a opereta cómica Candide que, estreada nos anos 50, foi alvo de revisões várias até conhecer a sua elegante forma final em 1989.

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