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“Country Life”: o disco com a capa nascida no Algarve

Texto: NUNO GALOPIM

O quarto álbum dos Roxy Music, que divide o alinhamento entre peças de alto calibre art rock e canções que procuram uma encenação mais teatral mostra na capa duas modelos que Bryan Ferry conheceu em Portugal.

O álbum Avalon, o derradeiro de estúdio dos Roxy Music, pode ter sido aquele que mais impacte teve entre o público português, abrindo de resto terreno à primeira passagem do grupo por um palco nacional (no Estádio de Restelo numa noite de 1982 partilhada com os King Crimson e os Heróis do Mar). Mas o disco em que Portugal surge de forma mais evidente na obra do grupo é Country Life, o seu quarto álbum de estúdio, editado em novembro de 1974. Meses antes, numa etapa em que Bryan Ferry tirava uns dias para, entre outras ideias, pensar nas letras das novas canções, estava ele num bar algarvio quando ali viu entrar as modelos Constanze Karoli e Eveline Grunwald. Fotografadas por Eric Boman, as duas seriam as figuras em destaque na capa do disco, numa imagem que gerou alguma controvérsia e interpretações bem variadas. Contudo, mais do que nas figuras da capa, foi entre o corpo das canções que Country Life inscreveu um mais momento maior na obra dos Roxy Music.

O disco surgiu num tempo em que o futuro do grupo chegou a estar em risco, sobretudo após a edição dos dois primeiros álbuns a solo de Bryan Ferry. Rezam as mitologias que o responsável da editora chegou a passar noites, em frente a Bryan Ferry que, na sua mesa de trabalho, ia escrevendo as novas canções.

Country Life representa uma busca de novos sentidos para uma sofisticação formal, procurando não esquecer por um lado as raízes art rock com que o grupo dera os primeiros passos, mas ensaiando ideias sobre possíveis caminhos a seguir. Longe de ser exatamente um disco de transição, é contudo um álbum de (literalmente) duas faces. De um lado as canções de fulgor elétrico e rítmico – que vão do apelo mais teatral de Out of The Blue, Prarie Rose ou Casanova ao espírito rock’n’roll primordial de If It Takes All Night ou aos flirts mais “hard” de The Thrill Of It All ou, em regime atento a um certo melodismo pop em All I Want is You. Do outro, as peças mais elegantes, cenicamente elaboradas, como Triptych, A Real Good Time (uma das primeiras expressões do que seriam caminhos de futuro mais orquestral) ou Three and Nine, com momento maior no sublime Bitter Sweet, canção que transporta ecos da Berlim dos anos 30 e que traduz, mesmo não tendo sido single, o momento maior do alinhamento do disco.

Apesar de não ser hoje dos álbuns mais vezes referidos quando se fala da obra dos Roxy Music, Country Life é uma peça determinante na história da sua discografia e teve, na altura, um sentido importante no demarcar de caminhos possíveis para o art rock. Curiosamente, mesmo traduzindo apenas ecos (distantes) das vivências glam rock dos primeiros tempos de vida do grupo, é um disco bem representado no corpo de versões que fizeram, em 1998, a banda sonora de Velvet Goldmine, de Todd Haynes.

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