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Como trazer as assombrações da “Sinfonia Nº 3” de Górecki para o presente

Texto: NUNO GALOPIM

Colin Stetson, saxofonista com obra a solo e colaborações assinadas com os Arcade Fire, Tom Waits e Animal Collective, apresenta uma abordagem muito pessoal à obra mais célebre do compositor polaco Henryk Górecki.

A leitura de obras à luz da intervenção criativa de um intérprete não é coisa nova, nem dentro de géneros nem mesmo saltando os muros que, em tempos, muitos julgavam que os separavam. Basta lembrarmos como Wendy Carlos abordou peças-chave do barroco, seguindo a rigor as partituras, mas usando um dos primeiros teclados moog em finais dos anos 60… Ou como Ray Mazarek levou a disco uma visão muito sua da cantata cénica Carmina Burana de Carl Orff. E, porque não, o modo como tanto Glenn Gould ou Keith Jarrett gravaram discos com música de Bach nos quais a alma do intérprete dialoga com as memórias que evocam. Ou a forma como Lizst reduziu a piano sinfonias de Beethoven ou, com orquestras substancialmente alargadas, Mahler também as reinventou em novos arranjos… seus. Ao abordar a Sinfonia Nº 3 de Górecki – que, numa edição em disco dos anos 90, com a London Sinfonietta, dirigida por David Zinman e com a voz solista de Dawn Upshaw se transformou num dos casos de maior sucesso da música orquestral do século XX – o saxofonista Colin Stetson mais não faz do que juntar o seu nome a esta lista de ilustres intérpretes que “ousaram” (e ousar é sempre bom) olhar para uma obra clássica segundo o seu olhar, refletindo assim, também, as marcas do seu tempo.

A obra, cruzada por uma profunda melancolia – ou não tratasse da perda que a morte deixa junto de quem fica e do temor de quem sabe que vai partir – tem encara nesta leitura um encontro entre a sua raiz orquestral (clássica) e a presença de elementos que acentuam os tons de desencanto sob sugestões de intensidade quase nas periferias do noise. Sem, contudo abdicar da nitidez das formas nem afogar nunca a condução central da evolução da sinfonia, sobretudo através da presença das cordas (Sarah Neufeld é a violinista) e, a dada altura, da voz de Megan Stetson (que, convenhamos, não é a de Dawn Upshaw, mas dá conta do recado).

Henryk Górecki (1933-2010), de quem recentemente chegou a disco uma versão da Sinfonia Nº 4 com orquestração completada pelo seu filho, foi um dos vultos maiores da música polaca do século XX. Nos anos 50 e 60 a sua música colocava-o em sintonia com os movimentos de vanguarda, mesmo contra as críticas do regime. Em meados dos anos 70 os seus interesses tomaram outro rumo, claramente tonal, procurando um lugar de contemplação por vezes com um subtexto ligado a reflexões sobre a condição humana e a fé, refletindo ainda uma curiosidade pelas noções de espaço com afinidade à dos minimalistas (o que o leva muitas vezes a ser associado a espaços semelhantes aos de Arvo Pärt ou John Tavener).

A Sinfonia Nº 3 surge em 1976, num tempo de transição para a tonalidade. Foi composta na sequência de uma série de estímulos, desde o encontro com um conjunto de canções folk do século XIX à descoberta de uma frase inscrita nas paredes de uma antiga cela da Gestapo, no Sul da Polónia, na qual uma rapariga de 18 anos pedia perdão por ali ter chegado e ajuda pelo que iria enfrentar. Como um lamento, a sinfonia é dominada pelas cordas que desenham uma lenta progressão feita de discretos módulos que se repetem. E por uma voz que entoa, além desta súplica registada numa parede em 1944, palavras de uma lamentação medieval e de uma canção folk da Silésia. Mais que uma simples evocação da dor da memória do Holocausto (e Górecki perdeu familiares em Auschwitz e Dachau), a sinfonia traduz sobretudo expressões de perda, de pesar, de mágoa. Uma elegia sem foco concreto, daí talvez a multiplicidade de interpretações que tem gerado. A citação de 1944, contudo, justifica a ligação que muitos encontram entre esta música e a memória desses dias sombrios.

Os tempos e contexto em que a música agora se escuta são diferentes. Mas as memórias do Holocausto e da presença nazi sobre a Polónia, que serviram de inspiração primordial para a Sinfonia Nº 3 de Górecki não estão assim tão distantes no tempo. E do presente chegam-nos, a cada ano, novos exemplos de intolerância e morte. Além disso, o clima toldado por um regime totalitarista – como o que caracterizava a Polónia de 1976 quando Górecki compôs a sinfonia – não é ainda meteorologia política erradicada do planeta. É certo que uma simples evocação mais canónica da obra, por uma orquestra e cantora, seria capaz de estabelecer essas pontes. Mas, ao vincar um cunho interpretativo, vincando marcas autorais na abordagem (nelas inscrevendo o seu aqui e o seu agora), Colin Stenson lembra como, afinal, não mudámos muito. E, por isso, evocar a lamentação de Górercki não é um mero exercício de nostalgia ou de admiração por uma obra. Tudo ainda faz sentido.

Colin Stetson, o protagonista desta nova visão, é um músico nascido no Michigan (EUA), hoje residente no Canadá, e com carreira com interesses evidentes para com diversas formas musicais. Tanto que, ao longo dos últimos anos, tem sido convidado para tocar em álbuns de bandas e artistas dos universos pop/rock como, entre outros, os Animal Collective, Arcade Fire, TV on the Radio, Bon Iver, David Gilmour ou Tom Waits.

“Sorrow – A Reimagining Of Gorecki’s 3rd Symphony”, de Colin Stetson, está disponível em CD, LP e nas plataformas digitais, em edição pela 52Hz.

PS. Já agora, e porque aprender nunca fez mal, o nome do compositor pronuncia-se “gu-réts-ki” (com a tónica na segunda sílaba e o “r” como em “urânio”).

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