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O mundo comentado por PJ Harvey

Texto: NUNO GALOPIM

Cinco anos depois de um retrato crítico sobre Inglaterra, a cantora regressa com “The Hope Six Demolition Project”, um disco mais rock no qual alarga os horizontes da sua visão comentada a outros espaços do planeta.

Passaram cinco anos sobre Let England Shake, o disco que fez de PJ Harvey uma das mais acutilantes retratistas sobre a Inglaterra do tempo presente e que soube juntar a uma visão política bem vincada uma desafiante coleção de grandes ideias de composição e arranjo das canções fazendo do álbum um dos mais sólidos ciclos de canções do nosso presente. O tempo que entretanto passou fez com que uma vontade em continuar a observar e comentar o mundo transcendesse o espaço físico, humano e político inglês para, depois de viagens pelo Afeganistão, Kosovo e EUA (na companhia do fotógrafo e colaborador Seamus Murphy, com o qual fez um livro e um filme), alargar os horizontes de um que se materializa num olhar igualmente crítico, mas de fronteiras alargadas, em The Hope Six Demolition Project.

O título do álbum alude ao Hope VI, um projeto de revitalização urbanística que operou transformações de zonas degradadas e com altas taxas de criminalidade, acabando contudo por apresentar novos espaços a preços superiores aos comportados pelos antigos residentes da área, o que levantou críticas de “limpeza social”… O título do disco causou logo incómodo junto de um antigo autarca de Washington DC (onde o projeto foi aplicado). E quando essas vozes se levantam porque alguém cantou sobre pedras nos seus sapatos, é porque qualquer coisa, certamente, não terá sido bem como os caça-votos contaram…


“The Wheel”


“The Community Of Hope”

The Hope Six Demolition Project, que é claro e certeiro no discurso (como o era Let England Shake), tem ainda, além dessa alma política, um berço que passou por uma forma algo inédita de a criar: numa exposição… E, durante algumas semanas, quem passava (com bilhete) pela Somertset House, em Londres, podia descer um corredor subterrâneo para, depois de deixar de lado câmaras e telemóveis, ver por uma janela um estúdio no qual a cantora e os seus colaboradores compunham e gravavam alguns dos elementos que, agora, ouvimos no alinhamento do álbum.

Curiosamente, apesar dessa relação com um espaço expositivo, e de primeiras opiniões e relatos que davam conta de formas ainda difíceis de imaginar como canções finalizadas, a música que define o corpo deste novo álbum é a mais “convencional” que PJ Harvey nos dá a escutar desde Stories of The City Stories of The Sea (do ano 2000), longe portanto da angulosidade vincada de Uh Huh her (2004), da placidez sombria de White Chalk (2007) ou das visões textural e instrumentalmente mais desafiantes de Let England Shake (disco de 2011 que, juntamente com o clássico To Bring You My Love, de 1995, representa o que de melhor a obra de PJ Harvey nos deu já a ouvir). Não se entenda contudo aqui a palavra “convencional” com “desinspirado” ou “menor”. Pelo contrário, este é mais um disco que comprova (e reforça) o estatuto de PJ Harvey como uma das mais importantes e cativantes cantautoras do nosso tempo. O “convencional” deve-se a uma ligação mais evidente das canções com as matrizes formais do rock’nroll, não faltando contudo um claro exemplos da angulosidade mais ríspida que recordamos dos seus primeiros discos em The Ministry of Defense.

Este é contudo um álbum com canções cuidadas na estrutura, melodicamente apelativas, acessíveis, de fácil comunicação, musicalmente definido sobre grandes heranças da música norte-americano, do rock’n’roll aos blues, ao jazz, ao gospel… Nada contra, sublinhe-se. Só não é tão surpreendente nem tão versátil como se mostrava em 2011 a carteira de retratos que escutávamos em Let England Shake. The Hope Six Demolition Project representa, mesmo assim, uma sólida e pungente sequela para esse disco… E se olharmos para o mundo à nossa volta, não faltam motivos para que PJ Harvey o continue a “fotografar” em canções. De resto, se lhe mostrarem um vídeo com o que se passou na câmara baixa brasileira esta noite, PJ Harvey tem ali pano para mangas para a este díptico juntar um terceiro volume… Mas certamente os músicos do Brasil tratarão disso, já a seguir…

PJ Harvey
“The Hope Six Demolition Project”
CD, LP e DD Island / Universal
★★★★

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