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A ascensão (e queda) da casa Romanov

Texto: NUNO GALOPIM

Uma história da dinastia imperial russa, contada por Simon Sebag Montefiore, que domina as técnicas narrativas características de um best seller, é uma das mais cativantes edições desta área já lançadas este ano.

Nicolau II e família entre cossacos

A história começa e acaba, curiosamente, fora do Kremlin, a fortaleza-palácio em Moscovo que inevitavelmente associamos à sede do poder russo (mesmo quando o grande palácio nas margens do Neva, em São Petersburgo, ocupou com mais presença a vida dos czares). E começa com dois rapazes sem coroa, doentes, acordados a meio da noite em casas com o mesmo nome…

Na noite de 13 de março de 1613, no mosteiro de Ipatiev, o jovem Miguel Romanov, então com 16 anos, padecendo de fraca constituição nas pernas e com o rosto permanentemente afetado por um tique nos olhos, era o único dos filhos dos seus pais ainda vivo quando foi acordado, juntamente com a sua mãe, para acolher uma delegação que acabava de chegar de Moscovo. Três séculos depois, a 17 de julho de 1918, na Casa Ipatiev, em Ekaterinburg, nos Urais, o pequeno Alexei, de 13 anos, hemofílico, era tirado da cama, tal como acontecia com as suas irmãs, pais e criados que ainda os seguiam. Juntamente com os seus três cães, preparavam-se, como lhes diziam, para serem levados para um lugar mais seguro.

Filho da mulher de Fyodor Romanov, que entretanto havia tomado os seus votos e era agora uma freira, Miguel era sobrinho bisneto de Ivan, O Terrível e sobrevivente de um período de caos que atormentara a Rússia e fizera vacilar as suas estruturas de poder. O único rapaz entre os filhos de Nicolau II, Alexei vivia com a sua família sob detenção, fora de Moscovo, desde que a revolução, em 1917, decretara o fim do poder imperial na Rússia.

Trajado nas vestes formais, esperando na rua, ao frio de uma noite gelada, Miguel seria avisado pela delegação enviada até ao mosteiro onde vivia com a mãe (estando o pai prisioneiro dos polacos) que lhe havia sido atribuída a coroa da Rússia. Boiardos, religiosos, um deles carregando um dos mais preciosos ícones da catedral moscovita, esperavam a sua resposta. Vestido em roupas simples, tal como os seus pais e irmãs, Alexei e restantes membros da família imperial russa eram levados para uma cave, onde lhes foi pedido para que esperassem. Forças antibolcheviques aproximavam-se daquele lugar…

Miguel começou por recusar a oferta da coroa, mas algum tempo depois era coroado em Moscovo, o seu nome de família definindo o lançamento de uma dinastia que dominou a Rússia num período em que o país cresceu geograficamente a um ritmo ímpar na história e conheceu várias etapas de abertura e desenvolvimento. A história terminaria precisamente naquela madrugada, naquela cave, quando, da sala ao lado, irrompeu um pelotão de fuzilamento que, acabada a sentença, lida perante o olhar atónito do czar deposto, disparou sobre todos eles, matando-os ali mesmo.


O czar Miguel I em auidição com boiardos, por Andrei Ryabushkin (1893)

É com uma história assim contada em paralelo, entre o jovem Miguel e o pequeno Alexei, que Simon Sebag Montefiore abre a narrativa que faz de The Romanovs 1613-1918 uma leitura sobre história que se devora com o apetite e fulgor de quem lê um romance empolgante. Autor de títulos como Catherine The Great & Potemkin, O Jovem Estaline ou Jerusalém: A Biografia (estes dois últimos traduzidos entre nós pela Alêtheia), é um historiador que domina as técnicas narrativas que um best-seller requer.

The Romanovs traça um percurso cronologicamente ordenado, recordando aqueles que assumiram a coroa russa entre Miguel I e Nicolau II, construindo um império que atingiu dimensão tal que representou um sexto das massas emersas do planeta. As histórias de génio, mas também de loucura, de poder autocrático, de relacionamento com a religião definem o tutano de figuras que, na escrita de Montefiore, não esquecem também características dos seus perfis emocionais, talvez com excesso nos temperos de alcova aqui e ali.

A arrumação dos factos e personagens traça contudo uma história de 300 anos da vida russa (focando tanto o seu isolamento como episódios de comunicação com o exterior). E mostra-nos como nem só dos feitos e das personalidades de Pedro I e Catarina II, os dois “grandes”, ou do desaire de Nicolau II, viveu a história dos Romanov.

“The Romanovs 1613-1918”, de Simon Sebag Montefiore, é um livro de 745 páginas publicado já este ano pela Weidenfeld & Nicolson (ed. Britânica)

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