Últimas notícias

Os filmes do IndieLisboa 2016 (dia 8)

Textos de NUNO CARVALHO e NUNO GALOPIM

Estamos a acompanhar a edição 2016 do IndieLisboa. Hoje chamamos atenção para o documentário “Helmut Berger, Actor”, de Andreas Horvath, que evoca, de forma surpreendente, uma figura icónica do cinema de Visconti.

“Helmut Berger, Actor”, de Andreas Horvath
por NUNO GALOPIM

A dada altura, num surto de palavras sem filtro e com voz irada, encenando um acesso teatral que cruza a loucura de alguém que quase tudo perdeu com o narcisismo de uma diva, Helmut Berger insulta o realizador que o filma, sugerindo que não esteja talvez à altura de assinar o documentário cuja rodagem se cruza assim com mais uma cena do seu mundo real.

Figura maior do cinema de Visconti – é inesquecível a sua interpretação do rei Luís II da Baviera no monumental Ludwig – Helmut Berger é o centro das atenções de Helmut Berger, Actor, um documentário que segue o caminho oposto ao da biografia de condimentação hagiográfica que muitas vezes caracteriza os olhares panorâmicos sobre os grandes ícones.

O filme acontece no presente, rodado sobretudo no seu apartamento, onde ecos do glamour de outrora são meras frestas do passado entre o caos e o desencanto garrido do presente. Ocasionalmente mudamos de dècor, um quarto de hotel, que poderia estabelecer ligações à opulência de outrora, acabando em poucos dias transformado em algo não muito diferente do que vemos em sua casa.

O passado e a sua projeção no presente chega-nos ou por palavras evocadas. Mitificadas por ele. Mais realistas na voz da mulher a dias que lhe limpa a casa e não tem papas na língua. Ele também não, mas é agora o oposto da figura impressionante de outrora. E expressa a decadência e loucura a que chegou a sua vida numa sequência, sem filtro, em que chega a provocar sexualmente a câmara e quem está por detrás da lente. O realizador, em senso strictu… Mas todos nós, que agora vemos o filme.

O filme passa hoje, às 19.00, na Cinmateca Portuguesa

“Jacques Tourneur, le Médium (Filmer le Invisible)”
de Alain Mazars
por NUNO CARVALHO

Fiel ao espírito do autor de A Pantera, o realizador francês Alain Mazars (n. 1955) optou por fazer em Jacques Tourneur, le Médium (Filmer le Invisible) um documentário que, além de traçar do cineasta um retrato através de excertos dos seus filmes e interpretações sobre o seu significado e a forma como expressavam a sua personalidade, não cria com o material que aborda uma rutura ao manter um preto e branco homogéneo e sintonizado com o comprimento de onda que vibra na obra de Tourneur. Filmado em alta definição 4K (ultra-alta definição), este documentário que até na sua duração emula o espírito de concisão do autor de I Walked with a Zombie convida um conjunto de personalidades (entre críticos de cinema, realizadores que foram críticos antes de começarem a fazer filmes, historiadores do cinema, professores universitários e até um psicanalista) que são fãs apaixonados da obra de Tourneur e que sobre ela vão elaborando, ao longo de uma hora.

Vergílio Ferreira dizia que era preferível um bom conto a um mau romance. Se o conto é uma espécie de lado B de um álbum inteiro ou série B marginal, então, observando a mesma lógica, a obra de Jacques Tourneur, um cineasta de filmes de série B de grande sofisticação, equivale a uma espécie de sequência de “contos” que conseguem atingir mais profundidade e mistério do que muitas longas-metragens isentas da dimensão poética e subtil habitualmente presente no seu cinema. Foi essa sofisticação que atraiu a atenção de muitos cinéfilos e fez de Jacques Tourneur um autor de culto (a sua obra começou a ser reconhecida sobretudo a partir dos anos 1950-60, embora já tivesse realizado, para os estúdios RKO, uma série de filmes de baixo orçamento em parceira com o produtor Val Lewton que se revelaram sucessos). O filme de Mazars tenta revelar um pouco do “mistério Tourneur”, um homem afável mas imperscrutável, cujos filmes, marcados pelo tema do medo e pela noção junguiana de inconsciente coletivo, são os únicos indícios que permitem dele ter uma ideia mais aprofundada.

“Desafio Total” (no original “Total Recall”)
de Paul Verhoeven
por NUNO GALOPIM

O ponto de partida é um conto de Philip K. Dick, originalmente publicado em 1966 pela Magazine of Fantasy and Science Fiction. We Can Remember It For You Wholesale apresentava-nos a figura de Douglas Quaid, um homem que sonha com uma viagem a Marte que o ordenado não lhe permite fazer. Através dos serviços de uma empresa de experiências implantadas no cérebro projeta a materialização possível do desejo. Acaba contudo a entrar numa sucessão de situações revelações que o fazem retomar consciência do que era, afinal, a sua identidade real: a de um assassino de uma força policial marciana. O planeta vermelho é ali sobretudo o cenário que esconde essas memórias que estavam aparentemente apagadas, entre elas as de uma visita de invasores alienígenas que, inspirados pela bondade de Quaid, decidiram poupar a Terra enquanto este fosse vivo, o que fizera de si um dos maiores tesouros vivos da humanidade…

Quando, mais de duas décadas depois, Paul Verhoeven pegou no conto de Philip K. Dick para o levar ao cinema, centrou a atenção em alguns elementos da narrativa (que retoma na essência do que lança a figura de Quaid e a relação com memórias implantadas e apagadas) e amplificou o peso da presença marciana na história, apresentando-nos uma visão de um mundo dominado por um homem corrupto, que usa o uso dos sistemas de ventilação (que permitem a vida nas comunidades instaladas em domos ligados por túneis) como forma de exercer o poder. Quem ali domina o ar, manda.

Com Arnold Shwarzenegger no papel de Quaid e Sharon Stone como a mulher que as memórias entretanto implantadas ele julga que ali está desde sempre, Desafio Total – assim se chama Total Recall entre nós – cruza elementos da ficção científica com temperos de thriller para nos dar um dos raros exemplos em que Marte serviu de cenário a um filme de sucesso na bilheteira, muito antes do recente O Marciano de Ridley Scott, alertar para o filão que ali aguarda agora outras histórias. Quem o viu vai gostar de rever… E quem nunca passou por estas personagens, histórias e cenários, então é caso para dizer “get ready for a surprise”…

PS. Depois de terem visto o filme entenderão esta última frase em inglês.

O filme passa quarta-feira, na Cinemateca Portuguesa, às 15.30

“Eva no Duerme”, de Pablo Agüero
por NUNO GALOPIM

A protagonista da história está ausente, porque morta. E só a vemos em vida em imagens de arquivo, reais, que acentuam a distância face aos momentos em que decorre a ação de um olhar sobre uma figura de poder que, mesmo depois das notícias da doença, morte e do aparatoso funeral, continua a exercer um magnetismo sobre os que ficaram. Como que se, na verdade, nunca tivesse deixado de estar em cena. Com uma luz que quase nunca sai da penumbra, em cenários que raramente deixam a claustrofobia dos espaços fechados, Eva No Duerme, de Pablo Agüero, tem muito mais afinidade com os olhares de Alexandr Sokurov pelas figuras de Hitler ou Hiroito, respetivamente em Moloch e O Sol, do que com a memória mais célebre do retrato de Eva Péron que, a partir do musical de Andrew Lloyd Weber, Alan Parker levou ao grande ecrã com Madonna no papel principal.

O filme tem como base um acontecimento real: o desaparecimento do corpo de Eva Perón após o golpe de estado militar que derrubou o seu marido, Juan Péron, em 1955. E, antes mesmo de nos apresentar os três quadros nos quais centra a sua atenção, abre com um prólogo no qual um “almirante” (interpretado por Gael Garcia Bernal) deixa claros os ressentimentos e ódio pela mulher que era símbolo de um poder que ele e os que o acompanham acabam de derrubar.

Os três quadros que fazem o corpo central de Eva no Duerme definem ações em épocas diferentes (cronologicamente ordenadas) e têm como protagonistas um embalsamador, um transportador e um ditador. O primeiro (Imanol Arias) vemo-lo a tratar o corpo de Eva Perón, cuidando-o para que fique imaculado e belo para sempre. O segundo (Denis Lavant) é um dos oficiais a quem os militares que derrubaram Perón encarregam de levar o corpo de Eva para um lugar secreto, onde ficará escondido. O terceiro é Pedro Aramburu (Daniel Fanego), um dos líderes do movimento que afastou Perón e que ocupou depois a presidência que, raptado por revolucionários peronistas, lhe exigem que indique o local onde o corpo está. Elíptico, filme observa o poder naquilo que pode ter de ressaca quando deixa de o ser. E nota que quem outrora teve esse peso na vida de tudo e todos, na verdade não adormece mesmo depois de fechar os olhos definitivamente.

“Brothers of The Night”, de Patric Chiha
por NUNO GALOPIM

Mais um belo exemplo de como as fronteiras entre a ficção e o cinema documental podem ser de difícil definição surge em Brothers of The Night, filme de Patric Chiha que nos coloca perante um grupo de jovens búlgaros de etnia cigana que partiram para Viena em busca de outras oportunidades, acabando ali a ganhar a vida vendendo o corpo.

Pelo modo de olhar da câmara e pelas opções da fotografia sentem-se por ali ecos do cinema de Fassbinder e do de Van Sant… Por vezes quase no limiar do pastiche… Mas na verdade são as personagens em cena quem faz de Brothers of the Night um filme de inesperado fôlego narrativo. Porque, apesar de rodado entre figuras e espaços reais (no centro da ação está um bar no qual encontram muitos dos seus clientes), o filme ganha uma dimensão ficcional já que, mesmo escutando as conversas entre os protagonistas, cada um na verdade está mais perto de uma personagem sonhada do que das verdades menos luminosas que fazem certamente um quotidiano que passa ainda por uma casa onde muitos vivem juntos e as ocasionais viagens de regresso a casa.

É da mitificação que cada um faz de si mesmo que vive a alma de Brothers of the Night. Vemos os seus corpos, mas escutamos as personagens que criam à nossa frente, como que criando frases de um guião de ficção que eles mesmo vão “escrevendo” de improviso, não se preocupando o realizador de essa invenção acontece ali, no momento da rodagem, se nas palavras e histórias eles pensaram antes entre si, quase acabando por contracenar… E desse cruzamento entre a verdade que vivem e o sonho que interpretam, nasce a alma de um olhar que, mesmo carregado desses desejos de ficção, não deixa nunca de ser espelho de uma realidade.

“Don’t Blink Robert Frank”, de Laura Israel
por NUNO GALOPIM

O cinema gosta de fotógrafos. Naturalmente. Não apenas porque, como diz Mark Cousins na sua biografia sobre a história da sétima arte, o cinema é “a arte da luz”. Como o é também a fotografia (e foi aí que tantos começaram, como Kubrick, por exemplo). Mas porque, da sua relação inseparável, à câmara é cara a vontade de contar histórias de quem está do outro lado da objetiva. Basta recordar o Blow Up de Antonioni ou A Janela Indiscreta de Hitchcock… Ou, até mesmo, quando a figura real de uma fotógrafa, como Diane Arbus, surge evocada em Pele, de Steven Shainberg… Menos fácil é o exercício de dar à fotografia, no grande ecrã, as características maiores que a distinguem do cinema: o movimento e o tempo. Wim Wenders, há relativamente pouco tempo, mostrou em O Sal da Terra como resolver estes desafios, focando sobretudo mais a figura de Sebastião Salgado do que as suas imagens, nele concentrando a atenção (e o tempo) do documentário. Convenhamos que escolheu bem. A figura é mais surpreendente do que as imagens que, hoje, não parecem mais capazes de escapar a um programa autoral. Em Don’t Blink – Robert Frank a realizadora Laura Israel fica algo dividida entre o tempo que concede às imagens e o tempo de antena que oferece a quem as criou… E aqui, uma vez mais, ganham os tempos de conversa, já que o calcanhar de Aquiles do filme mora na sucessão (talvez excessiva) de fotografias mostradas, a um ritmo tão alucinante que as não conseguimos contemplar lembrando-nos como o “tempo” é um valor que a fotografia, em muitos casos, tem a favor da relação das imagens com quem as vê.

Apesar da opção fragmentada por cruzar imagens de várias fontes e épocas, o filme acaba por estabelecer os patamares suficientes para que o espectador trace uma história de vida de um fotógrafo que, atingido por críticas violentas e negativas quando originalmente, em 1958, apresentou The Americans, acabaria por ser reconhecido como uma figura marcantes e influente nos caminhos que a sua arte depois tomou, a dada altura juntando a esse corpo em construção um trabalho complementar na área do cinema experimental. Vemo-lo ainda com os pais, na Suíça ou evocando o trabalho com os Rolling Stones, para quem criou a mítica capa de Exile on Main Street (e vale a pena conhecer essa história).

Se a multidão de imagens (espantosas) em nós deixa depois a vontade de querer ver mais – e há em Robert Frank um sentido retratista do natural que faz de cada imagem uma potencial janela no tempo e no espaço – as entrevistas com que nos vai contando a sua história definem, sobretudo no contraste entre a antipatia “à artista” de uma conversa filmada há já algumas décadas e a informalidade bem humorada de registos feitos expressamente para o filme, as histórias de vida que, afinal, se projetam na sua fotografia.

Um admirador do trabalho de Robert Frank não deverá perder este filme. E quem não conhece vai perceber o que estava, até aqui, a perder…

“Desde Allá”, de Lorenzo Vigas
por NUNO CARVALHO

No seu filme de estreia, Desde Allá, o realizador venezuelano Lorenzo Vigas conta com alguns talentosos colaboradores que têm contribuído para fazer a diferença nas cinematografias latino-americanas. Entre eles figuram os mexicanos Guillermo Arriaga (argumentista de Alejandro González Inárritu em filmes como Babel, Amor Cão e 21 Gramas) e Michel Franco, um dos produtores, e de quem se encontra em exibição nas salas nacionais, na qualidade de realizador, Chronic, e ainda o veterano e sempre soberbo ator chileno Alfredo Castro (um habitué dos filmes de Pablo Larraín).

Castro interpreta Armando, um homem de meia-idade, solteiro e solitário, que trabalha num laboratório de próteses dentárias e que atrai para o seu antiquado apartamento, a troco de dinheiro, jovens sedutores de classe baixa que encontra nos bairros pobres de Caracas. Porém, ele limita-se a olhar para os seus corpos semidesnudados, sem estabelecer contacto físico, como se de um fétiche se tratasse. Mas quando um dia aborda Elder (o estreante Luis Silva), um rapaz impulsivo e defensivo que esconde a sua vulnerabilidade sob uma fachada agressiva e mal-humorada, obtém deste à partida uma resposta hostil e uma atitude aparentemente homofóbica. No entanto, depois de Elder ser agredido por membros do seu gangue, Armando decide tomar conta dele. Só que o desprezo do protagonista por si mesmo faz daquilo que poderia ser o início de um relacionamento afetivo um jogo manipulatório com consequências sinistras e potencialmente trágicas.

Como bem notou Guy Lodge, na Variety, a obra que mais se aparenta a Desde Allá é Eastern Boys (2013), do francês Robin Campillo, nomeadamente na forma como ambas retratam a sensualidade queer e caminham lentamente em direção ao filme de género. Se Campillo prova que o melhor cinema contemporâneo existe hoje nas franjas e nas margens (quer a nível de produção quer em termos de distribuição, com o circuito comercial de exibição de cinema cada vez mais afunilado e a ocupar sobretudo as atenções da cada vez mais formatada e desinteressante imprensa mainstream), Vigas revela-se nesta primeira obra um dos nomes mais estimulantes do atual cinema latino-americano. Para esse resultado de sóbrio e subtil brilhantismo contribui também a belíssima direção de fotografia de Sergio Armstrong (responsável pela estética do cinema de Pablo Larraín, e cujo trabalho poderemos apreciar em breve no perturbante O Clube).

O principal foco de atenção da história é, sem dúvida, a personagem de Alfredo Castro. Ele é um homem opaco e insondável, com uma expressão de indiferença emocional e uma quietude que não sabemos se corresponde a embotamento afetivo ou se oculta sonsamente uma natureza mais perversa. Mas, dentro do tom elíptico do filme, vamos entrevendo, e sem recurso por parte do realizador a qualquer espécie de abordagem psicologista ou analítica, a natureza magoada e repleta de raiva calada de Armando, que comporta um tortuoso complexo com a figura paterna. Porém, como se adivinha, e ao contrário do que sucede em Eastern Boys, aqui Elder não é “adotado” por uma figura paternal. O obscuro coração de Armando, em guerra com a “entidade paternal”, jamais seria capaz de representar esse papel e de não atraiçoar fatalmente as surdas esperanças de Elder de receber o afeto que nunca conheceu e que o fez sentir-se indigno de algo que deveria ser um direito humano natural e não um prémio que se alcança laboriosamente. Desde Allá venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2015.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: