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João Peste: “Em termos estéticos os limites são para transgredir ad infinitum”

Entrevista de NUNO GALOPIM

A assinalar a edição de “Sex Symbol” em vinil, os Pop Dell’Arte apresentam o alinhamento integral do disco em concerto, amanhã, em Lisboa. Em entrevista, João Peste lembra aqui esse álbum de 1995.

Imagem do teledisco de "My Funny Ana Lana"

Estar numa editora das dimensões de uma Universal (na altura era ainda PolyGram) o que mudou na maneira de trabalhar dos Pop dell Arte? Falo da escolha de singles, agenda promocional, teledisco…
Sinceramente, creio que não alterou grande coisa. Talvez a nível da promoção as coisas tenham sido diferentes, mas não tanto quanto seria de esperar. Fomos, por exemplo, ao Big Show Sic, que era então super-mainstream, o que possivelmente não teria acontecido se não estivessemos na Universal. Mas digo “não tanto quanto seria de esperar”, pois houve ainda muitas resistências. Por exemplo, o Herman José continuou a recusar incluir Pop Dell’Arte (tal como os Mão Morta e outras bandas alternativas) no seu programa, que era então o programa de entretenimento mais mainstream da televisão pública, a RTP. Levámos um rotundo não, pois “não há espaço aqui para essas coisas” terá dito o próprio Herman. Por falar em programas mainstream, justiça seja feita ao Carlos Cruz que, em 1987, levou os Pop Dell’Arte à Quinta do Dois, da RTP, onde nos chamou super-banda, mal acabámos de lançar o nosso primeiro disco. Enfim, abaixo o Herman e viva o Carlos Cruz!

My Funny Ana Lana foi o tema escolhido como single de apresentação por algum motivo especial? 
Houve dois singles: o primeiro com os temas My Funny Ana Lana e Zip Zap Woman’ (tendo tido aquele direito a um videoclip), e o segundo com Poppa Mundi e Be Bop. Não há nenhuma explicação para a escolha de um tema para um single a não ser considerar esse tema o mais adequado para a promoção do álbum de que faz parte, quer seja por poder passar mais na radio, quer seja por poder dar um vídeo mais interessante, quer seja por ser o mais representativo do conjunto da obra, sendo este ultimo o critério menos comercial de todos, obviamente. Assim, a escolha do My Funny Ana Lana resultou um pouco da conjugação destes três critérios, embora eu considere que prevaleceu o primeiro, devido ao poder da radio naquela altura. Claro que a televisão também tinha um grande poder, mas no caso de bandas indies e alternativas o impacto da radio, nessa altura, era muito maior. Hoje está tudo muito diferente, tanto a rádio como a televisão, para já não falar do mercado discográfico. Há uma fragmentação crescente daquilo a que chamámos cultura de massas, mas penso que é prematuro falar na morte desta.

Poppa Mundi e Be Bop são exemplos de canções muito curtas. Quase vinhetas… Como foi a sua composição e como lidaram com essa ideia de optar por não as alongar às dimensões mais convencionais da canção pop?
Não ligámos a isso, até porque não achamos que essas canções precisassem de ser alongadas nem nunca pensámos que alguém um dia diria que eram quase vinhetas, seja lá o que for que isso queira dizer. Pelo contrário, achámos que tinham potencial para rádio, não obstante as rádios em Portugal (tirando programas específicos de autor) serem na generalidade muito conservadoras e previsíveis. Há temas do tamanho do Be Bop e do Poppa Mundi, cerca de dois minutos, que foram grandes hits. Lembro-me do Hey Girl, Don’t Bother me, dos Tams, primeiro lugar no top britânico em 1971, que era pequeníssimo, ou o Telephone Man, da Mari Wilson, de 1977, que ainda era menor, não chegava sequer aos dois minutos. Há montes de exemplos de hits com cerca de dois minutos, desde o Ride A White Swan, dos T.Rex, ao A-Punk, dos Vampire Weekend, passando pelo Denis, dos Blondie, para já não falar de clássicos dos Beatles, Elvis Presley e outros.

Poppa Mundi teve depois outra vida num genérico de televisão. Como viram essa outra utilização de uma música vossa?
Com naturalidade, até foi divertido. Tirando isso, pouco há a dizer, a não ser que o tema tocou, integrado no referido anúncio, nalguns canais televisivos de duas em duas horas durante um determinado período – creio que duas ou três semanas – e depois não recebemos os direitos de autor. A SPA (Sociedade portuguesa de Autores) informou-nos que ainda não tinha capacidade para cobrar direitos de autor de músicas de anúncios. Já nem me lembrava desse triste episódio, mas de facto foi o que se passou: recebemos pelo licenciamento do tema, mas os direitos de autor ficaram por pagar, ou melhor, segundo a SPA, por cobrar.

O que foi que deu ao álbum Sex Symbol o seu título?
A ideia do título surgiu de uma fotografia da Luísa Ferreira, que eu e o Luís San-Payo vimos uma vez numa exposição desta fotógrafa, creio que em 1994. Lembro-me que olhei para a fotografia e disse para o Luís que seria uma boa capa para o nosso próximo álbum e que este se poderia chamar ‘Sex Symbol’. Ele concordou logo, a Luísa também e assim nasceram o nome e a capa de um disco. Juntámos à imagem do carrão vermelho, na capa, a imagem de um burro, na bolacha do CD, como símbolo sexual de outros tempos, evocando os célebres livros do século II,O Burro de Ouro e Lúcio ou o Burro, de Apuleio e Luciano, respectivamente.

Sex Symbol é um disco com vários convidados. Como entraram em cena, o que procuravas nas suas contribuições?
Entre os convidados do Sex Symbol há casos diferentes, pois o Sei Miguel participou em vários discos e concertos dos Pop Dell’Arte, tal como, embora com menor assiduidade, a Fala Mariam, enquanto que a Maimuna Jalles e o Ricardo Camacho entraram apenas num tema do Sex Symbol. Mas eram todos nossos amigos e fizeram todos um excelente trabalho. Os Pop Dell’Arte sempre foram uma banda aberta a várias influências, pelo que sempre tiveram vários convidados nos seus discos, foi o caso de Adolfo Luxúria Canibal, Cazé (dos Grito Final) ou Nuno Rebelo e Zé Pedro Lorena (dos Mler Ife Dada) nas sessões do Free Pop, de Salomé, Sei Miguel e General D. no Ready-Made ou ainda de Simon White no Contra Mundum. Chegámos até a fazer gravações com o Pedro D’Orey mas estas nunca viram a luz do dia. É bom ter convidados em estúdio.

A coexistência de várias linguagens – das electrónicas às guitarras – e de línguas – português e inglês – tem aqui uma vez mais expressão livre e versátil num disco dos Pop Dell’Arte. Seguir um caminho estética ou instrumentalmente mais fechado nunca parece ser uma opção em jogo…
Bom, isto não é bem uma pergunta…  Mas acho que sim, seguir um caminho estética ou instrumentalmente fechado nunca foi – nem será – uma opção.

Seguiu-se uma longa pausa até ao EP So Goodnight. A existência dos Pop Dell’Arte chegou a estar em risco?
Não, não creio que tenha estado em risco. Temos o nosso ritmo e também consciência de que temos certas limitações em termos de saída comercial… Mas não em termos estéticos. Aí os limites são para transgredir ad infinitum.

O que representa esta edição em vinil, passados mais de 20 anos?
Não sei ao certo. Alguém na Universal reparou que o disco não era reeditado há mais de dez anos e resolveu reeditá-lo. Fê-lo agora apenas em vinil, mas espero que compreenda que é também urgente reeditá-lo em CD. Aguardemos.

A ideia de experimentar este modelo de concerto, mas com outros álbuns vossos – como os Sparks fizeram – passa pelo horizonte próximo da vida em palco dos Pop Dell’Arte?
Não. Não creio. Isto é um concerto único e especial que teve a ver com a edição em vinil do Sex Symbol, mas que é também, de certa forma, uma homenagem póstuma ao Pedro Alvim, um amigo querido com quem adorámos tocar e privar, e que agora já não está entre nós.

Os Pop Dell’Arte acabam de ver o álbum Sex Symbol a ser editado, pela primeira vez, em suporte de vinil. Amanhã apresentam o disco, na íntegra, ao vivo, no Titanic Sur Mer, em Lisboa.

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