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Prince: discos escolhidos

Com uma tão vasta discografia, cada um de nós vai lembrar aqui um dos títulos da obra de Prince.

“Partyman”
(single, 1989)

Em pequeno nunca liguei muito à música pop. Com quatro, cinco, seis ou sete anos, nunca fiquei fascinado, como acontecia com amigos de infância, com as imagens extravagantes dos autores pop da época como Madonna, Cindy Lauper, Prince ou Michael Jackson. A música também não me dizia grande coisa, preferindo mais as sinfonias épicas do Star Wars ou Star Trek. No entanto, há imagens com as quais fiquei para sempre, desde o teledisco assustador de Thriller aos sapos animados de We All Stand Together de Paul McCartney.

Enquanto crescia, Prince foi sempre mais uma figura extravagante como tantas que a pop debitava. Não me lembro de ter trauteado qualquer canção dele na época. Tudo se alterou em 1989, quando me levaram ao cinema ver o filme que mais ansiara em muitos anos, Batman de Tim Burton. Para além das orquestrações de Danny Elfman, que desde então soube cantarolar, fui apanhado de surpresa por várias canções que surgiram no filme, mais concretamente um tema que surge na sequência do museu. Aqui, a personagem Vicky Vale, interpretada por Kim Basinger, aguarda por Bruce Wayne no Museu de Gotham City, quando este é invadido pelo Joker de Jack Nicholson. E à porta do museu, o Joker manda alguém carregar no play de um rádio de cassetes e de súbito começa um crescendo que culmina no arranque de Partyman, de Prince. E durante a sequência, o Joker e os capangas vão destruindo as obras de arte do museu de forma hilariante.

Para além de ser uma grande cena, que lança nova aparição do Batman, com a revelação do carro do homem-morcego, a música foi o que mais me marcou em toda a sequência, com um funk em sincronismo perfeito com as travessuras do Joker.

Anos mais tarde, com o VHS original nas mãos, vi e revi inúmeras vezes aquela parte. Retive a música para sempre, mas dado o meu distanciamento da música pop dos 80s enquanto adolescente, demorei a descobrir a banda sonora que Prince fizera para Batman, assim como o resto da sua obra.
Finalmente, quando comecei a adquirir discos com mais dedicação, lá gastei uns escudos na banda sonora em vinil de Batman, não a música de Danny Elfman, mas as canções de Prince. E entre as várias faixas, incluindo o single Batdance, lá estava… Partyman, em toda a sua glória do 33 rotações.

Não só é uma música que mexe com um sentimento muito próprio de nostalgia, atirando-me directamente para a cena do museu de Batman em 1989, como é uma música pop perfeita que fui apreciando cada vez mais e que me permitiu partir em descoberta da restante obra de Prince. A partir de Partyman é que ultrapassei o lado visual e extravagante de Prince, dedicando-me finalmente à música, percebendo o génio que moldou a pop do nosso tempo.

“Lovessexy”
(álbum, 1988)
por FILIPE ANTUNES

Lembro-me do momento em que me apaixonei por Prince: tinha 12 anos, ele teria cerca de 26. Fiquei extasiado ao vê-lo gatinhar languidamente no vídeo de When doves cry – andrógino, hipersexual, provocador – a música perfeita, em crescendo orgásmico… Estava escolhido o meu ídolo, nunca mais o perderia de vista. E que carreira teve: génio perfecionista e hiperprodutivo, de ego desmesurado, enclausurado num corpo franzino que em palco nos oferecia performances inesquecíveis.

Da década dourada de 80 em que lançou os seus álbuns mais consensuais, destacaria Lovesexy como o disco que ainda hoje visito com mais prazer. Depois do muito aclamado Sign’O’ the times, frequentemente reconhecido como a sua obra-prima, Prince gravou o Black álbum, tendo no entanto abortado o seu lançamento por iluminação divina (sic), renegando os seus conteúdos obscuros e violentos.

Deste impulso epifânico, criaria em tempo recorde o inspiradíssimo “ Lovesexy: um disco solar, uma ode ao divino (“a gospel album” citando o próprio), celebração do amor físico e espiritual como via de transcendência (“The feeling you get when you fall in love not with a boy or girl but with the heavens above”). Um álbum pensado como uma narrativa, que esteve para ser editado sem intervalo entre os temas, dando-nos a sensação de estarmos a ouvir uma “ópera funk”. Uma produção intocável em que até os momentos de caos irradiam perfeição.

Abrindo o alinhamento com I no onde desde logo nos entrega as premissas da obra, entra furioso por Alphabet Street, com o seu principesco e inconfundível riff de guitarra. Glam slam mantém o ritmo e introduz-nos dramaticamente a Ana stesia, letra misteriosa que apela à conversão ao culto. O lado B abre com uma crítica mordaz à sociedade materialista ao ritmo frenético de Dance On. Segue-se o grandioso tema titulo, depois o puro amor de When 2 r in love coroado pelo etéreo I whish u heaven. Para terminar Positivity, ou a promessa do ajuste de contas com o divino. Uma certeza fica: Deus existe e criou Prince. A missa acabou, a nossa alma está salva, podemos sair. Ou como diria o próprio “Welcome to de Dawn”.

PS: Apesar de leal súbdito da majestade púrpura, reconheço que o seu débito contínuo de produções aliado à recusa dos meios atuais de divulgação deixou na penumbra uma vastíssima obra em que criações medianas ofuscaram alguns “diamantes e pérolas”. Deixo-vos algumas sugestões com toque de midas garantido:

1. O primeiríssimo álbum For You. Sim, é datado, cheira a disco sound, mas transpira já genialidade em cada tema.

2. Saltando a época áurea dos 80, procure ouvir Willing and able do álbum Diamond and pearls, glorioso e irresistível.

3. Da caixa Crystal ball, o álbum The truth,um conjunto de 12 canções semi-acústicas onde o depuramento criativo atinge o seu auge.

4. O álbum The gold experience, o último opus cuja coerência merece mesmo o nome de álbum.

“Get Off”
(single, 1991)
por MARIA JOÃO CAETANO

Eu tinha 16 anos numa vila do Alentejo, em 1991, sem internet nem sequer televisão a cabo, onde não havia saídas à noite e o mais parecido com isso eram as matinés de fim do período escolar na Pandora, onde a pista abria ao som do Bolero de Ravel. Educada para ser, como a outra, recatada e do lar, naquela altura não conseguia sequer imaginar como seria um “one night stand”, quanto mais experimentar 23 posições numa noite. E talvez por isto tudo fosse para mim tão extraordinário ligar a televisão e dar de caras com o teledisco de Get Off, com Prince e a New Power Generation, e ficar meio atarantada, com uma vontade incontrolável de dançar. Dançar ou lá o que aquilo era.

Eu sei, eu sei que o Prince era música. E boa música. Eu sei que ele foi mesmo importante para ouvirmos hoje a música que ouvimos. Mas se me pedirem uma memória de Prince, assim de repente, a primeira palavra que me ocorre é esta: dançar. E a segunda é: sexo. Prince é sexo. É querer fazer sexo. É pensar em sexo. É dançar como se fosse sexo. Já era assim em Kiss, claro. E é assim em muitas outras, de Head a Cream, de Purple Rain a Hot Thing, mais ou menos explicitamente. Mas penso que a primeira vez que tomei consciência disso foi com Get Off, o primeiro single do álbum Diamonds and Pearls.

Eu acho que na altura nem sabia muito bem o que queria dizer a expressão “get off”. Mas podia imaginar. Bastava-me ver aquela orgia total de Prince com os bailarinos – no videoclip mas também nas apresentações ao vivo (como aconteceu nos prémios MTV desse ano) – e ouvir aquele ritmo que, quiséssemos ou não, nos punha a dançar, a rebolar as ancas, a abanar o rabo muito antes de sabermos que existia kuduro ou quizomba. A dançar e a fantasiar. Let’s get it on.

“Controversy”
(álbum, 1981)
por ISILDA SANCHES

Com o passar dos dias, as análises à obra de Prince revelam-se cada mais caleidoscópicas. A sua música e a sua figura são tão grandes que esmiuçar o seu legado é tão imperativo como foi com Bowie. O discurso de Prince foi múltiplo e transversal, e embora toda a gente se tenha concentrado no sexo, falou também de amor, política, droga, indústria, música e morte. Em Sign of The Times, de 1987, dizia “somesay a man ain’t happy truly until a man truly dies” e em Controversy, uns anos antes: “some people wanna die so they can be free”. Não acredito que Prince quisesse morrer, as autoridades já descartaram a hipótese de suicídio, mas a sua referência à morte como outro nível de liberdade e afirmação tem quase dimensão profética. É inevitável pensar, perante a reação mediática que sucedeu à sua morte, que Prince é melhor percebido depois de morto, do que foi em vivo. E Prince foi muito mal percebido, durante muito tempo, ou a maior parte do tempo. Os saltos altos, a roupa, a maquilhagem, a figura andrógina, o funk pulsante de sexo, as histórias de deboche… (mais tarde, também, a religião, a guerra com a indústria e a internet).

Controversy, o quarto álbum de Prince é a resposta à incompreensão: “i just can’t believe all the things people say, am i black or white? am i straight or gay?” são as primeiras palavras de Controversy, a canção, que também tem um Pai Nosso incorporado, o que levou a acusações de blasfémia que incendiaram ainda mais o fogo da polémica em que alguma América queimava Prince. A verdade é que o mundo não estava preparado para Prince. Era um génio provocador, condensava em si toda a essência da música negra, blues, jazz, rock’n’roll, soul, funk, P funk, disco e devolvia-a com inconfundível e erotizada assinatura própria. Para muitos era uma espécie de Michael Jackson dos infernos. Demasiado perigoso.

Controversy não é dos discos mais consensuais de Prince (também seria estranho ter consenso relativamente a um disco que clama ser controverso) mas a sua faixa título é das mais amadas e influentes e ganha pertinência reforçada quando refletimos sobre O Artista, porque é sobre ele que fala. No álbum, Prince toca em todos os assuntos quentes: religião, trabalho, turismo, guerra fria, sexo como salvação. É um disco incisivo no comentário social, fascinando por sintetizadores, que tem algum do melhor e do pior Prince. O pior, em Ronnie Talk to Russia, uma canção sobre a Guerra Fria dedicada a Ronald Reagan que lembra Status Quo em speed (ou muita vodka). O melhor, no electro funk de Controversy, Sexuality e Let’s Work e no delírio experimental new wave de Annie Christian.

Algumas das pistas chave para perceber Prince e a sua influência transversal estão neste disco e em particular na canção que lhe dá título. Por alguma razão foi esta a canção escolhida pelo LCD Soundsystem para prestar tributo a Prince no Coachella, no passado fim-de- semana, e por alguma razão, também, Moullinex lançou há uns meses uma versão com Da Chick. É minimal, pulsante e cheia de significado, cola-se ao corpo e à cabeça para nunca mais sair.

“Prince”
(álbum, 1979)
por PEDRO SARAIVA

Da vasta discografia de Prince elejo Prince como o meu álbum favorito. As razões são várias, em primeiro lugar tal como em For You, é ele que toca todos os instrumentos, mas não é apenas por isso, tenho algo que me liga a esse disco, andava a ouvi-lo na altura em que formei os D.R.Sax.

A meu ver é o álbum mais disco sound de Prince, organicamente bem tocado para um único músico. Desde os synths e guitarras em uníssono como em I Wanna Be Your Lover ou até a própria secção rítmica como em I feel for you. Sinto que é um álbum apaixonado e descomprometido da crítica da imprensa americana.

É incrível como eu o descobri tardiamente em 1993, por causa dos álbuns Parade e Lovesexy que, apesar de terem saído, um em 86 e o outro em 88, eu ainda os ouvia diariamente com os meus 25 anos. De todos os temas o meu eleito é Kiss, ao ponto de ser a música que se me dessem a escolher uma musica no mundo que eu gostasse de ter composto escolheria essa mesma.

Certamente Prince foi um músico único.

“Sign ‘O’ The Times”
(álbum, 1987)
por MOURAH

Há pouco mais de uma semana, estava eu a sair duma loja da baixa de Genebra quando senti pela quarta vez talvez o meu telefone a vibrar. Decidi então ver o porquê de subitamente tanta solicitação nesse final de tarde. Foi aí que um dos meus melhores amigos anunciou-me, numa voz desolada e tom grave, a morte do Prince. “O Prince morreu”. No espaço de quatro sílabas, tudo em mim paralisou, tudo à minha volta também. Imerso num silêncio onde só ouvia o meu coração a acelerar freneticamente, desatei a chorar no meio da rua, no meio dos peões. Alguns deles passavam por mim também com olhos tristes e expressão cerrada. Prince, tal como um super-herói para várias gerações de músicos e melómanos, só podia ser imortal. Nunca quis realmente pensar nessa fatalidade, e agora é a realidade com a qual tenho de me conformar.

Chegando a casa, os meus olhos afogados em lágrimas prenderam-se com a visão do vinil pousado em cima da minha prateleira de discos. É a jóia púrpura Sign ’o’ The Times, que a Rolling Stone elegeu outrora melhor álbum dos anos 80. Nesse instante, claro não foi essa distinção que me veio à mente, mas sim o que ele representou na minha vida. Ainda criança, foi ele que fez nascer a paixão e ligação íntima e preciosa que fui mantendo com o seu autor desde então. No bairro da minha infância vivia um certa Mara, loira de olhos azuis, um sorriso introspetivo, tão linda como misteriosa. Um dia decidi-me a ir ter com ela. No meio duma conversa tímida e pacata, deu-me a informação de que gostava de ouvir música e que o artista que mais escutavam em casa era o pequeno génio de Mineápolis. Fiquei feliz, porque em casa o meu mundo sonoro baseava-se numa trindade paradoxal: música clássica do lado da mãe, jazz do lado do pai, e essencialmente Prince do lado do meu irmão então já adolescente.

A partir daí comecei a dissecar os álbuns Controversy, 1999, Around The World In A Day, Parade e o Sign’o’ The Times, num primeiro tempo na esperança de encontrar indiretamente nesses discos o mundo interior e intimo da Mara. No nosso encontro seguinte, só falámos da música do Prince e ela dizia-se impressionada pelos meus conhecimentos recentemente adquiridos; claramente marquei pontos. Porém, com o passar do tempo perdi interesse pela princesa do bairro para me concentrar mais na música. Passava finais de tarde a fio com o meu irmão à volta do gira-discos a debater sobre qual os melhores temas de Prince, tardes de carinho fraterno. Para o puto que era a faixa Starfish & Coffee (estrela do mar e café) era a minha preferida, pela a simplicidade aparente e o tom ligeiro que transmite. Começa com um som de campainha de turma que sempre me lembrava que devia voltar à escola depois do almoço. O titulo parecia-me genial, com uma associação de palavras improváveis. Mais tarde, quando aprendi o inglês, pude finalmente entender o sentido das palavras na descrição que faz da merenda no farnel da sua colega de turma, e resume um traço próprio à mente do Prince, que é a liberdade de pensamento e associações de ideias:

Starfish and coffee, maple syrup and jam, butterscotch clouds, a tangerin and a side order of ham. If you set your mind free baby, maybe you’d understand”.

O mundo é uma construção subjetiva e individual baseado na percepção de cada um. Os preconceitos de Prince nascem na fantasia, nas cores, nos impossíveis, no divino e no carnal, nos antagonismos temáticos. A liberdade nele é total.

Nessa altura, a completar ao canto, comecei a tocar guitarra muito por influência da sua música. Depois já na adolescência, formei a minha primeira banda de funk , os Anticlockwise. Tentava seguir essa visão artística do Prince, de que não há barreiras estilísticas, e que qualquer ideia pode ser relevante consoante o contexto na qual se insere. Ele sempre se impôs como o meu pai musical, mesmo quando comecei a abrir-me a outros estilos musicais (electro, trip-hop, jazz, música clássica). A sua música sempre acompanhou a minha vida pessoal de modo mais o menos importante: a primeira namorada, o meu primeiro verdadeiro concerto, a morte do meu irmão, a morte do meu pai, o casamento do meu melhor amigo, as minhas primeiras viagens pelo mundo fora e tantos outros momentos. Ele foi a maior parte da banda sonora da minha vida, o meu DJ pessoal.

Não se tinha falado tanto dele como nestes últimos dias desde o longínquo tsunami Purple Rain de 1984. Chovem agora as homenagens de todos os lados ao músico mas também ao homem excecional que era. Tive a sorte de o ver ao vivo meia dúzia de vezes. A primeira foi na sua primeira visita a Portugal (estádio de Alvalade, 1993), e é no palco que o músico e o homem fusionavam para oferecer ume espécie de experiência mística e festiva. A expressão do seu génio revelava-se então na sua totalidade, através daquele corpo ágil e bestial, elegante e indomável, inacessível e oferecido, num cântico erótico-elegíaco.

O mundo contemporâneo acabou de perder um ícone, uma lenda, o melhor músico e mais completo performer que nos foi dado a conhecer. Miles Davis dizia dele que era “um misto de Jimi Hendrix, Marvin Gaye, James Brown e Charlie Chaplin”, de facto, muito talento concentrado numa só pessoa. O mundo vai agora poder medir o vazio enorme que ele deixou. Ele foi sem margem para duvida o mentor de muitos dos artistas que agora tentam sobreviver neste mundo da música tão sinistro como doente por estar tão formatado e obcecado pelos lucros mais que pela pertinência da obra artística em si.

A nível pessoal, o luto é bem real. Certas pessoas podem achar estranho chorar uma pessoa que não conhecemos pessoalmente. No entanto, acredito que a força do sentimento que temos por alguém mede-se pelas emoções geradas entre elas e não exclusivamente pelo vis-à-vis. E é por isso que o choro tanto, como centenas de milhares de admiradores pelo mundo fora. Prince nunca contou os esforços, foi um artista bastante generoso. Ele deve ter tido uma das vidas mais incríveis, rica e excitante. Mas ser Prince deve também ter sido cansativo, constantemente solicitado, e sobretudo dominado por uma paixão pela música devoradora incessante. Sabe-se que ainda dormem pelo menos mil faixas sobre quilómetros de bandas no seu famoso cofre forte de Paisley Park, o que revela o quão prolífico e dedicado à sua arte ele foi. Não dizia ele dele próprio que ela era a música? A sua paixão, tal um pedaço de Kryptonite, acabou por enfraquecer o nosso super-herói.

Então é mesmo verdade, perco o meu irmão cósmico, o meu pai musical, um melhor amigo, um psicólogo. Perco um pedaço de mim, do meu passado. Continuarei de honrar a sua memória através da escuta da sua obra tão gigantesca como eclética. E continuarei a minha própria própria obra musical, sempre com a vontade de materializar a vida que quero para mim. Ele disse, “nada pode mudar o universo, exceto tu” – a magia está em todo lado – basta ousar e querer procura-la.

Obrigado por tudo Extraordinário Prince Rogers Nelson, eterno descanso mais que merecido.

Até sempre,

“Sign ‘O’ The Tines”
por PEDRO COSTA

Prince é Luz, música , e amor… As pistas de todo o Universo da música popular segundo um Homem Banda. Soul, funk, pop, rock, tudo foi experimentado pela incontinência criativa deste genial artista que connosco – sorte a nossa – partilhou a sua arte, e foi certamente o mais brilhante, prolífico e completo da sua geração.

Caindo na tentação do lugar comum, a verdade é que existe mesmo um Prince, e com isso uma dimensão e texturas diferentes do seu legado, para para muitos dos “momentos-chave” das nossas vidas. E para todos os gostos; sendo a escolha quase impossível. Podia ser um qualquer testemunho sonoro da sua fase mais influente e clássica (os 5 anos entre 1982 e 1987); exemplos marcantes de álbuns como 1999, Purple Rain, Parade ,Around The World in a Day e Sign ‘ O ‘ The Times. Canções directas e de sucesso imediato como When You Were Mine,Raspberry Beret, Little Red Corvette, Kiss, I Could Never Take The Place of Your Man, Sign ‘o ‘ The Times e mais tarde Alphabet Street, que ainda hoje posso escutar em “repeat” sem me cansar. Mas também momentos menos conhecidos como Head, Uptown, Soft and Wet ,Anotherloverholenyohead, Sometimes it Snows in April, Starfish and Coffee, Don’t Play Me ou 3rd Eye ( as duas ultimas retiradas de The Truth, o extra acústico de Crystal Ball).

Pessoalmente, os primeiros sons de Prince foram escutados em comunhão de amigos, numa cave de uma vivenda de Carcavelos, a meio dos “oitenta”, em que o anfitrião (um Inglês e querido amigo de nome Marcus) tocava o que de mais recente vinha directamente da cosmopolita Londres. E assim, ao mesmo tempo que Parade começava a tocar nas rádios – e assim apresentar Prince a uma base de fãs mais alargada – o “desbloquedor” aconteceu com a escuta de Dirty Mind. À ideia de um artista criador de sucessos pop, juntava-se agora a certeza (e a convicção) de que estávamos perante um génio musical desconcertante, cuja exploração sonora (e mesmo visual) não tinha limites. Ao imediatismo épico de Purple Rain e de Parade numa vertente mais pop, juntava-se um passado que merecia ser escutado; e curiosamente, essa foi a porta de entrada para os primeiros discos, e para uma fase mais exploratória (e da construção do mito) recebida em “diferido” com os sinais dos tempos. E essa pode ser a “deixa”… A escolher um único álbum, esse terá que ser necessariamente Sign ‘ O ‘ The Times ; a obra prima do artista, (para muitos o melhor álbum dos anos oitenta) e um exemplo perfeito do seu ecletismo singular. Foi igualmente dos trabalhos que mais divulguei nos primeiros tempos da minha actividade profissional; e as ambiências electroblues do tema título sumariam o que Prince foi (e continua a ser…). Com o som e a palavra, transformando em futuro, o legado do passado, e a exploração corajosa do presente.

“Sign ‘O’ The Times”
por JORGE GONÇALVES

Sign ‘O’ The Times é o mais conceituado álbum de Prince. Mesmo se esse foi feito de vários projetos (incluindo temas inicialmente previstos para o Black Álbum e o álbum que previa editar sobre o nome de Camille). Foi feito numa altura em que Prince estava algo deprimido entre o que fora a época alta dos Revolution e o que viria a ser a New Power Generation, um pouco mais tarde.

Lembro que quando ouvi o disco pela primeira vez tive dificuldade de gostar dele. Eu era demasiado verde para aceitar o conceito. Sim, porque Sign ‘O’ The Times é um álbum que se merece. Está muito longe de ser uma máquina de singles, mesmo com temas como Sign ‘O’ The Times ou Hot Thing.

Se tiver de escolher um só temas seriam… todos. Embora com uma inclinação para If I was your girlfriend, que é divinal. Ou para Adore, uma das mais belas letras de amor que escreveu, ou ainda Slow love, que resume numa só música os d’Angelo, Erica Badhu, e outras Alicia Keys. The Cross, o tema com o qual aprendi a tocar na guitarra, é um gospel com ares de folk rock.

Mas se tivesse de escolher mesmo só um seria The Ballad Of Dorothy Parker. A primeira vez que ouvi essa música tinha 13 anos, tocava há poucos meses e foi como uma revelação! Ainda sinto a minha pele arrepiada quando pensei: é isto! Quero fazer isto toda a minha vida.

Fui inspirado pelo artista e a sua obra durante toda a minha “curta carreira musical” ainda hoje as músicas dele inspiram-me.

Foi Prince, e essa música em especial, que me levaram a gostar tanto de arte e de música. The Ballad of Dorothy Parker é uma música contada como uma história num som RnB electrónico bem próprio dos anos 80… Bem próprio do som de Prince. Sim porque afinal muita coisa que vamos ouvindo desde 80 tem um toque à Prince. Tal como Bowie e outros, Prince vai ficar para sempre. Mas para mim um pouco mais ainda.

Desde a notícia da morte do meu herói a música passou a soar de forma diferente, já não há harmonia. Acho que a partir de hoje não vou conseguir ouvir música da mesma maneira, e hoje não me apetece nem tocar num instrumento.

“Diamonds and Pearls”
(álbum, 1991)
por CARLOS CONCEIÇÃO

Hoje percebi que a minha descoberta do Prince foi faseada, ao longo da infância: um VHS do Purple Rain que já chegou demasiado visto mas que tinha aquela capa icónica; a memória de uma canção solta numa cassete (When You Were Mine), a desconcertante capa de um álbum (Lovesexy, 1988) na vitrine da Discoteca Roma e, o golpe de misericórdia, um álbum que se apresenta como a “banda sonora” do Batman de Tim Burton – o filme que todos os adolescentes viram ao longo de 89 e 1990.

Mas havia coisas que, na infância, ainda não se compreendia e que transcendiam a batida contagiante de Sign o’ The Times. No álbum seguinte, dois anos depois, eu era adolescente e é aí que Diamonds And Pearls surge e se faz compreender. O primeiro single, Gett Off, lança o tom e, na minha cabeça de 12 anos, soa indecoroso, proibitivo, caótico, livre, libertino, pornográfico, fascinante, exótico e (voltanto ao “caótico” para lhe chamar o contrário) dotado de um rigor ritmico que faz lembrar sexo imperdoável e egoísta. Havia uma certa culpa na escuta. É um tema que, ainda hoje, só ouço bem se estiver sozinho.

A seguir chega o bem mais pop Cream, um tema que tanto pode ser o pós-orgasmo do anterior ou o início kinky mas ingénuo da festa que termina na orgia de Gett Off. O álbum tem faixas para todas as fases da festa: a faixa título, por exemplo, é para vomitar em slow-motion da varanda-de-pedra do 4º andar, com um copo de champagne semi-vazio na mão. Push é para cheirar cocaína directamente das costas nuas da pessoa que estiver mais próxima; Insatiable é para aquele momento em que se envia uma SMS à pessoa com quem nunca mais se devia falar; Money Don’t Matter 2 Night é para a conversa paralela que os convalescentes desenvolvem momentaneamente numa sala ao lado; Live 4 Love é para quando a polícia chega. E pelo meio, cada faixa tem um nome de que não nos lembramos, mas um rosto borrado de glitter e suor onde de certeza absoluta fizemos ski, wrestling, alpinismo e onde largámos o nosso ADN.

Terá sido também isso que ele, o “artista outrora chamado Prince”, fez com todos nós: encharcou-nos no seu próprio ADN. Acho que falo por muita gente se disser que foi bom estar nesta orgia com ele.

“Girls and Boys”
(single, 1986)
por DANIEL BARRADAS

Aqui estamos de volta ao problema de Janeiro. Como é que se pode destacar só um bocadinho da obra de alguém que foi sempre tão consistentemente brilhante?
Depois de hesitar entre muitos dos meus favoritos (Purple Rain pela guitarrada final, Alphabet street pela energia contagiante, Sign of the times por aquela letra e aquele video geniais) acabo por escolher Girls and Boys do album Parade de 1986.
Se há um ponto de simultâneo encontro e divergência entre Bowie e Prince é a mistura do masculino e feminino na sua pessoa. Bowie chegava a uma androginia que estava quase para lá do sexual. Veja-se o teledisco de The Stars are out Tonight onde ele e Tilda Swinton se tornam um no outro. Mesmo com toda a carga sexual ao seu redor, eles são seres que estão para lá do sexo enquanto acto animal. A sua fluidez de género é quase inhumana. Prince pelo seu lado manteve sempre visível a sua carga sexual de homem hetero, mesmo se coberto de folhos, flores e brilhantes. A sua atitude de se apoderar do que é considerado feminino (roupa, cabelo, cores, sapatos) é quase como um assalto viking. Ele toma posse de tudo com uma virilidade indiscutível.
Girls and Boys é uma pérola perfeita onde se encontram as características da sua obra. E isso vai do puramente musical ao manifesto artístico. A letra da canção conta uma pequena história baseada no guião do filme Under the cherry moon, onde figuravam as canções de Parade (dizer que o disco é banda sonora do filme é redutor). É a típica história “boy meets girl” mas com o vinco de Prince, que equaliza a felicidade ao sexo efémero e não ao amor eterno. Tudo se resume a: “Naughty’s what I wanna be with you tonight”. E logo ao início da canção, nos seus versos mais memoráveis: “She had the cutest ass he’d ever seen. He did too, they were meant to be”.
Talvez seja este concurso de pavões que melhor define a pequena revolução sexual de Prince. Ele reclama para o homem a possibilidade de exibir espalhafatosamente a sua sexualidade. Ao contrário do que acontece com outros artistas, ele não quer diminuir a mulher a um objecto sexual, ele quer tornar-se num objecto sexual subindo ao nível da mulher que admira. Ele quer reclamar para o homem a capacidade animal que o pavão tem de exibir todas as suas penas. Veja-se o video de Girls and boys, onde Prince vestido de smoking (sem casaco) consegue parecer mais feminino do que Marlene Dietrich em Morocco.
Musicalmente, Girls and boys é genialmente seco. Cada um dos instrumentos segue a sua contagiante linha melódica, apoiando-se uns aos outros mas não está lá nada para “encher chouriço”. A guitarra faz a sua coisa, o saxofone está na sua e até os ferrinhos têm o seu papel. Está tudo cruamente em primeiro plano, ao mesmo nível de “funkyness”. Tudo é importante. Não por ser uma democracia, mas por ser uma festa onde todos se podem divertir com a mesma intensidade.
É talvez neste aspecto que reside o que há de mais único em Prince. A sua capacidade de nos contagiar com um hedonismo que nos torna pessoas melhores. Porque nos liberta. Porque é para todos.

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