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Novas direções para Zayn Malik

Texto: ANDRÉ LOPES

É uma forma de evolução recorrente e já quase expectável: a situação na qual o membro de uma boy band a decide abandonar em busca de uma identidade própria. Zayn Malik traz-nos agora a sua versão da história.

Mind of Mine era um dos discos mais antecipados entre o espectro mais mainstream da música pop, mesmo antes de começar a ser trabalhado – desde cedo se especulou sobre qual seria o primeiro membro dos One Direction a enveredar por uma carreira a solo. Antecipar uma rota semelhante à que Justin Timberlake ou Robbie Williams fizeram no passado tornou-se uma forma comum e confortável de pensar sobre o assunto. E ao mesmo tempo preguiçosa: uma perspetiva estéril face ao conteúdo artístico em causa – eventualmente descendente do menosprezo vigente no que diz respeito a boy bands e artistas relacionados – de pouco ou nada serve para conduzir reflexões sobre discos ou canções. Na verdade, a estreia de Zayn em registo autónomo de longa-duração é quase febril: longe de um qualquer exibicionismo másculo de valências ou vontades, Mind of Mine explora as ânsias de um jovem adulto outrora exacerbado pela fama automatizada dos One Direction.

Ao longo dos 45 minutos da versão regular do disco, há uma característica que se torna rapidamente notável: é impressionante a coerência sónica que povoa todas as faixas do álbum, que prescinde de momentos capazes de se equipararem aos sucessos dos One Direction naquilo que diz respeito a popularidade. Ainda assim, Pillowtalk acaba por ser a faixa mais fácil de acompanhar em termos de acessibilidade. O restante alinhamento examina e põe em prática as preferências do jovem artista; aqui, em concreto uma série de olhares sobre a contemporaneidade do RnB. Com a produção maioritariamente a cargo de James Malay Ho – responsável pela aproximação constrangedora a Frank Ocean em Truth – a maior parte das faixas de Mind of Mine conseguem construir uma dimensão própria que existe livremente sem comparações rígidas a nomes mais experientes.

It’s You é um destaque óbvio: a primeira balada do disco tece-se envolvida numa ideia instrumental minimalista o suficiente para que a voz de Zayn percorra livremente as suas capacidades enquanto vocalista, com um vibrato sublime. Num jogo de texturas de sintetizadores (que se quisermos recordam Desired Constellation de Björk) e percussão diminuta, será este um dos momentos mais eficientes do álbum. Befour e She asseguram-nos que o autor sabe aproximar-se da pista de dança com as devidas reservas. Rear vive em regime de empréstimo pelas guitarras dos The XX, mas é antecedida por um momento importante: Intermission:flower é um interlúdio que surge a meio do alinhamento do disco. Aqui, escutamos Zayn Malik junto a uma guitarra acústica, enquanto canta em língua urdu (a língua materna do seu pai). Urdu é também o idioma oficial do Paquistão, e acaba por ser com esta faixa que Mind of Mine se deixa politizar de forma plena: numa atualidade europeia em que a questão dos refugiados se mantém como um tema conflituoso, a mera existência destacada de um artista com ascendência islâmica é desde logo marcante. Com este interlúdio, Zayn obriga-nos a não apagar a sua identidade e o significado político da mesma.

Com Fool for You segue por uma via quase Fab Four, junto da melodia do piano que encorpa a canção; ainda assim, a maior falha de Mind of Mine prende-se com a forma pouco desafiante com que estas canções foram pensadas. No que diz respeito ao RnB, nada do que se ouve aqui chega perto da intensidade do último Wildheart (2015) de Miguel, ou do fulgor em regime blockbuster de Beauty Behind the Madness, assinado por The Weeknd também no último ano. É um esforço por isso musicalmente discreto, apesar da insistência das letras focadas em vícios mais ou menos carnais, mais ou menos tóxicos. O primeiro disco de Zayn Malik a solo é por isso um bom ponto de partida para uma figura que com certeza terá todas as possibilidades para amadurecer enquanto artista nos próximos anos.

Zayn
“Mind of Mine”
Sony Music / RCA
★★★

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