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Olhares desencantados em tempo de revolução

Texto: NUNO GALOPIM

O filme de 1929 “Arsenal”, o segundo da “trilogia ucraniana” de Alexander Dovzhenko, junta ao Ciclo de Cinema Russo um olhar poético e desencantado sobre os tempos da Grande Guerra e da revolução.

Alexander Dovzhenko (1894-1956) tinha já encetado uma primeira etapa da sua carreira no ensino e, depois, uma outra, na diplomacia, antes de descobrir a sua voz e chamamento no cinema. De origem ucraniana, nascido em ambiente rural, acabaria por levar todo um conjunto de heranças desses dias de infância a uma série de três de filmes – habitualmente recordada como a sua “trilogia ucraniana” – pela qual não só fixou olhares sobre realidades do seu tempo e do seu espaço como, com estes três títulos, assinalou o seu lugar na história da história da sétima arte como sendo um dos primeiros grandes poetas que usaram o cinema como linguagem.
A trilogia, muda, que abre com Zvenigora (1928) e inclui o célebre e magnífico Terra (1930), uma alegoria sobre a vida rural assombrada por um pessimismo que cruz a obra do realizador, tem neste Arsenal (1929) o seu capítulo intermédio, revelando um olhar sobre os dias da revolução russa que vale a pena evocar tendo entretanto (re)visto o Outubro de Eisenstein, estreado um ano antes.

Onde o filme de Eisenstein parece dividir objetivos entre uma visão de bastidores quase pedagógica dos dez dias que precederam a revolução de outubro, vincando as marcas autorais (que o destacam assim de um mero exercício de propaganda) no modo de olhar os rostos, compor os quadros e desenhar o ritmo da montagem, Dovzhenko opta antes por tomar um episódio do processo revolucionário como espaço no tempo e na geografia para um olhar mais alargado, e profundamente desencantado, sobre a iniquidade social e a violência que caracterizavam o quotidiano no espaço sobre o qual lança aqui o seu olhar. Ao mesmo tempo escolhe e observa de perto as personagens que toma como protagonistas da sua atenção, evitando fazer um retrato apenas com um ensemble coletivo onde as figuras individuas se diluem (como o faz Eisenstein em Outubro).

Os últimos tempos da I Guerra Mundial e uma sublevação em Kiev que contou com a colaboração bolchevique fazem o cenário central de um filme que olha contudo mais além, observando por um lado o horror absurdo da violência nos campos de batalha e, por outro, o dia a dia algo automatizado e anestesiado das populações, notando nelas sequelas dos tempos de guerra nos olhares de uma mãe que perdeu os três filhos ou de homens desmembrados que vagueiam entre ruas de aldeias quase desertas.

A composição das imagens, com um trabalho impressionante de luz (ora usando as sombras ora a expressividade de silhuetas em contraluz) e o recurso a figuras quase estáticas, numa aproximação a uma ideia de fotografia que respira mas quase não mexe, acentuam o olhar poético de um filme que, mesmo abordando um cenário de revolução, não exala o sentido heróico habitual quando a propaganda bate à porta do realizador.

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