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Quando a música dilui o tempo

Texto: NUNO GALOPIM

O novo álbum de Tim Hecker, o seu primeiro na 4AD, revela a expressão já segura de uma linguagem que caminha além dos domínios da música “ambient” e lida com o ruído, ecoando memórias do século XV.

É bem verdade que a 4AD pode não ser hoje a casa com o impacte mediático (e consequentes vendas em feição) que desta fizeram uma das editoras independentes que levavam o melómano a investir num disco de um nome novo, mesmo que ainda o não conhecesse muito bem. Era 4AD… E isso dizia muito do nível da coisa que ali se esperava encontrar nos tempos em que nomes como os Cocteau Twins, Dead Can Dance, This Mortal Coil, Throwing Muses ou Pixies eram o rosto mais visível de um catálogo realmente incrível. Ao entrar agora no catálogo da 4AD, o canadiano Tim Hecker é todavia transportado para um patamar de visibilidade e aspirações que podem transformar um dos mais aclamados autores de um universo experimental nos espaços da música electrónica num caso sério do nosso tempo. E, com um disco como Love Streams como cartão de visita para esta sua nova etapa, convenhamos que não poderia começar da melhor maneira a sua associação à editora.

Tim Hecker está longe de ser um novato. Já na casa dos 40 e com um doutoramento feito sobre a relação dos sons com a cidade, e com um passado profissional que o fez já passar por um cargo de analista político ao serviço do governo canadiano, começou por fazer música mais com vontade de alimentar os músculos das pernas que as sinapses cerebrais, gravando discos e assinado DJsets como Jetone. Porém, outros destinos possíveis para os sons, talhados sob ferramentas electrónicas, começaram a desviar as suas visões para outros espaços. E tanto em discos como Instrumental Tourist, que gravou em 2012 em conjunto com Daniel Lopatin (o músico que se apresenta também sob o nome Oneohtrix Point Never) e Ravedeath, 1972, que registou na Islândia, ao lado de Ben Frost, foi definindo novas rotas e destinos para o seu som. E agora, em Love Streams, alcança um terreno de reflexão que transcende as ideias do ruído e as da música ambiente. Mas que, de certa forma, habita as suas periferias sem desejo de caminhar para muito longe deleas.

Há, na origem de Love Streams, uma memória antiga da história da música. Em concreto peças corais de Josquin de Prez, compositor do século XV, que servem de ponto de partida como mote inspirador… Mas, ao invés do que Ambrose Field nos mostrou no brilhante Being Dufay, onde juntava um score electrónico experimental à voz mais canónica de John Potter, em Love Streams os ecos que chegam do século XV, assim como as vozes do coro islandês que lhes servem de possível ponte rumo ao presente, encontram contudo um processo de transformação que esbate as fronteiras de tempo e junta as linguagens, sons e referências, numa experiência musical nova, coesa e intrigante.

Contando com as participações de figuras como Johann Johanssón ou Ben Frost, gravado nos mesmos estúdios islandeses em que registara já os álbuns Ravendeath, 1972 (2011) e Virgins (2013), e acompanhado com um discurso teórico – afinal temos aqui um académico especialista nestes assuntos – que fala de reflexões possíveis para um sentido de liturgia depois da experiência de ouvir Yeezus (sim, o de Kanye West) e de pretender aqui encontrar um sentido de transcendência para a voz na era do auto-tune, Love Streams é um disco que se revela aos poucos, carecendo de uma vivência que pede audições recorrentes, o tempo acabando por explicitar os elementos melódicos e os episódios de contemplação sónica que fazem esta música que podia ser ambiental. Sem ser coisa meramente ambient. E que baralha as coordenadas de tempo, em mais um espantoso exercício de diálogo entre épocas.

Tim Hecker
“Love Streams”
4AD / Popstock
★★★★

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