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Meylir Jones: “A música orquestral não deveria ser apenas para quem tem muito dinheiro”

Texto de: NUNO GALOPIM

Depois de um percurso nos Race Horses, o galês Meilyr Jones apresentou este ano o seu primeiro álbum a solo. Chamou-lhe “2013”… E o título tem uma explicação que ele mesmo esclarece.

Depois de uma experiência numa banda – os Race Horses – está esta música mais perto do que é a sua identidade?
Creio que sim. Mas esta era também a forma como queria fazer as coisas. Antes mesmo de haver um disco pensava se haveria lados diferentes da minha personalidade que poderiam emergir de lugares diferentes, traduzindo também interesses variados. Tinha de pensar como encontrar algo que atravessasse em comum essas minhas naturezas. E foi uma aventura, aquilo em que me meti, sem filtros, sem cautelas. E sem pensar no que as pessoas poderiam dizer, isto sem qualquer cinismo.

Conta-se que o disco surgiu no ano em que a banda se separou e uma relação pessoal também foi por água abaixo. Esta é a mitologia que conta a história do disco… Mas foi mesmo assim?
Foi! E creio que toda essa história acaba por estar no disco… Mas isso aconteceu mesmo assim. Há coisas que só consigo mesmo ver retrospectivamente. A banda separou-se e fui para Roma porque achei que era para ali que deveria ir.

Porquê Roma e não outra cidade, outro destino?
Basicamente o meu irmão deu-me um livro sobre escultura… Nunca tinha compreendido nem mesmo prestado atenção. Pelo menos não tanto como em relação com a pintura. Há algum tempo tinha também ido ao Louvre, onde tinha visto uma escultura de Miguel Ângelo… Fiquei impressionado… A leveza, a nudez, uma sexualidade masculina ambígua. Vi depois escultura grega, que me fez também pensar. E foi então que recebi esse livro. Tinha uma namorada que fazia escultura e fiquei interessado nessa ideia do toque… Mas foi aquela leveza na escultura grega que me cativou… Eu até aí tinha estado mais focado nos discos, no rock’n’roll… Mas isto foi algo semelhante a essa paixão. Com a diferença que era algo que, agora, estava a viver sozinho. A viajar sozinho… Comecei também por essa altura a ler poesia. Keats, Shelley, Byron… Havia ali ligações a Roma. Tal como em Berlioz, um compositor de que gosto muito… Estava cheio dessas referências. E tudo me conduziu a Roma. Fui sem saber quando ia voltar. Podia ser terrível até. Mas seria sempre pior se ficasse em casa…

Há muitas épocas a cruzar-se em Roma. Da cidade romana à barroca, à contemporânea…
Gosto muito do espírito da Roma contemporânea. É livre… Descomprometida. Muito diferente do lugar onde vivo.

A cidade mudou-o? Ou permitiu revelar algo em si que estava até aí longe da superfície?
O que é interessante é que, quando regressei, as ideias em que estava a trabalhar quando lá estive, trouxe-as comigo. Estava de regresso ao ritmo britânico, mas ao olhar para essas ideias senti-as muito suaves… Creio que aprendi a sentir as coisas de outra maneira quando estive lá. Tinha tempo e espaço, coisas suaves e a natureza… E também a exatidão e a luz.

Estava já a escrever lá? Ou só começou a compor ao regressar?
Foi um pouco de ambos. As mitologias costumam de facto puxar as coisas para um lado ou o outro. Comecei lá escrever sobre o que lá me levou. Mas depois comecei a sentir que estava a surgir algo diferente. Roma deu-me espaço. Não tinha lá instrumentos comigo… Tinha apenas um leitor e CD com a Sinfonia Nº 3 de Beethoven e um disco com música de Monteverdi. Não tinha amigos que fossem a concertos. E a música de lá era boa mesmo não sendo a minha música habitual. Havia pessoas a cantar canções italianas com verdade, e também festas com techno… Mas nada me fez sentir competitivo nem me deu vontade de estar numa banda. E comecei a compor. Escrevendo numa partitura, fazendo anotações.

Teve uma educação clássica?
Sim, e toco instrumentos desde muito novo. Mas há coisas que ainda estou a aprender…

Mas sente-se um homem destes dois mundos?
Sinto sim. Mas até aqui nunca os tinha juntado numa experiência comum…

Não havia quaisquer indícios deste interesse e desta formação nos Race Horses…
Não havia, não. Acho que esta é uma experiência mais solitária.

Ao pensar em usar uma orquestra e os seus instrumentos fê-lo antes da etapa de criação dos arranjos?
Precisamente! Por isso cada som foi pensado por si. Compus as melodias, harmonias, linhas de baixo e depois trabalhei com um amigo arranjador. E com ele a nuvem de ideias que tinha foi-se dissipando e as formas ficaram nítidas. Procurávamos o detalhe. Tentando não ficar nunca longe da essência da ideia…

Sentia-se maestro a dirigir os acontecimentos quando está em palco ou, pelo contrário, é a energia pop que aí toma conta dos acontecimentos?
O que mais me entusiasma é a música antiga. Falava nisso há dias com um instrumentista… Nesses tempos os ensembles eram pequenos. A instrumentação variava muito, estava tudo escrito, às vezes os músicos tinham de trocar de lugares… Se nos tempos de Monteverdi havia mais instrumentos do que quem os tocasse, teria de haver multi-instrumentistas… É assim que trabalho na música, com uma banda. Gosto também de não ter o ambiente de uma orquestra, mas trabalhar com amigos e pessoas que conheço bem. Pessoas com quem tenho já uma história… É difícil dirigir pessoas, sobretudo quando as não conhecemos. Porque não têm uma noção do que delas esperamos. Senti por isso que precisava de ter pessoas que conhecesse no ensemble… Pessoas com quem já tivesse trabalhado.

Faz alguma diferença chamar ao grupo de pessoas que estão consigo num palco ensemble ou banda?
Faz sim… Para mim, nesta idade contemporânea em que uma atuação pode ser um show ou um concerto, às vezes a ideia de estar num palco e dizer que se está a tocar com um ensemble sabe bem. Mas dizer que se está com uma banda, com amigos, também sabe bem. Depende dos estados de alma. É flexível. Mas depois diluímo-nos quando estamos lá dentro e fazemos o que esperam de nós. Mas há muitas coisas destes mundos em que às vezes fico a pensar… A música orquestral não deveria ser apenas para quem tem muito dinheiro. Tive a sorte de ter amigos e de ter tido dinheiro e assim pude ver coisas… Gosto daquela ideia de ter amigos, de os juntar, e fazer o que se quer fazer.

Como fará na estrada? Levará o ensemble? Usará samples?
Decidi rearranjar as canções para o formato de banda. E basicamente não vou usar pré-gravados. Gosto também dessa ideia de rearranjar as canções por si só. Rearranjei até todo o álbum apenas para voz e acordeão. Mas posso ir mudando a forma como me vou apresentando. E a ideia é estar a fazer precisamente assim… Mudando… E quando estou acompanhado cada músico toca vários instrumentos. Gosto dessas transformações que possam acontecer ao vivo, desde que não distraiam muito…

Tal como diz a sua canção, se entrar num museu, hoje, sabe reconhecer o que é uma obra de arte?
Sei sim… Seguindo a minha intuição?

Que tal foi fazer o teledisco de How To Recognize a Work of Art? Parece nascido num ambiente de muito boa disposição…
Sim, foi divertido. Mas foi muito trabalhoso… Exigiu muito planeamento. Sobretudo para dar entrada a todas aquelas pessoas que surgem na imagem… E tive muitos amigos a ajudar.

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