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Quando a história transpira o presente

Texto: NUNO GALOPIM

Exibido numa cópia restaurada, o filme de 1938 “Alexandre Nevsky” revela como Eisenstein usou os feitos de um herói russo do século XIII para refletir sobre a potencial ameaça nazi dos anos 30.

Fora longa a pausa na obra de Eisenstein. Não que não tivesse estado de braços cruzados, mas desde o projeto inacabado Que Viva México (que só foi revelado postumamente) ao complicado desfecho de O Lago Beijine, que chegou a valer ao realizador críticas oficiais e uma obrigação em se retratar publicamente, a década de 30 estava a ser demasiado silenciosa. Até que, e integrado no âmbito de um ptojeto de valorização de grandes ícones nacionais – numa altura em que surgiram filmes sobre Pedro I e Lenine – surge o desafio de criar um filme sobre a figura do príncipe Alexandre Nevsky. O contexto político explica a escolha, apontando a memória a um herói militar que ignorou uma ameaça mongol vinda de Leste para combater, a ocidente, os cavaleiros teutónicos. O paralelo com a crescente ameaça de uma Alemanha em remobilização (económica, militar e tecnológica) depois da chegada ao poder de Hitler, faria do filme uma celebração de valores patriotas, servindo o filme um perfeito discurso de propaganda.

Porém, ao invés do que nos havia mostrado em filmes anteriores centrados em episódios da revolução, a primeira grande diferença na criação de Alexandre Nevsky  (1938) revela-se na vontade de Eisenstein em explorar e destacar algumas personagens, deixando a mole coletiva para a massa humana que surge ao seu redor. Assim, além do herói, há entre a narrativa um plot secundário que olha de perto duas figuras em confronto, sobretudo durante a batalha. E, ao grande acontecimento histórico, aliam-se vivências. Afinal, falando mais de perto ao espectador.

O filme evoca factos reais, ocorridos no século XIII e é historicamente bem alicerçado por uma direção artística que cruza os ecos das formas de então com algumas sugestões recentes. Vale a pena reparar nas aproximações possíveis entre as linhas das armaduras dos cavaleiros teutónicos e os capacetes dos soldados alemães do século XX.

Magnificamente filmado, com enquadramentos que exibem o claro domínio de uma linguagem visual e narrativa muito particular (que Eisenstein tinha já alcançado em pleno n’O Couraçado de Potemkine), um uso sublime da luz e uma montagem que reforça a condução da história, Alexandre Nevesky teve na música um dos seus valores mais significativos.

Criada para a banda sonora do filme, a cantata homónima de Sergei Prokofiev (1891-1953) é um dos exemplos maiores da fértil história de bom relacionamento da música com o cinema. Da música, cuja gravação para o filme o próprio compositor acompanhou, usando técnicas de posicionamento de microfones com vista à obtenção de efeitos cénicos, Prokofiev criou depois uma cantata, que desde então tem conhecido diversas gravações e ainda hoje integra programas de concertos. O filme levou Prokovief a desenvolver uma série de soluções musicais com força descritiva, aplicando aos invasores germânicos uma tonalidade belicista sugerida pelos metais (gravados perto dos microfones no limiar da distorção), caracterizando depois os russos com melodias de inspiração folk.

O pacto de não agressão assinado por Estaline conduziu ao cancelamento da exibição do filme, arrancado da pós-produção ainda na fase de montagem do som (daí muita da sua falta de qualidade técnica). A mudança de relacionamento com os alemães depois da invasão de 1941 devolveu então o filme à vida. Ficámos todos a ganhar.

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