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A pequena estátua que assombra a história de uma cidade

Texto: NUNO GALOPIM

A partir de uma ideia do veterano Gilles Chaillet, a série “Roma” tem vindo a evocar momentos na história da cidade, juntando aos factos e figuras reais uma trama de ficção que cruza os tempos.

Roma está na moda. Pelo menos na BD franco-belga, hoje com farta colheita entre livros e personagens onde em tempos andaram as figuras maiores de Alix (de Jacques Martin) e, claro, Astérix e companhia. O herói criado por Jacques Martin, que ainda respira saúde e hoje tem até três séries ativas – a clássica, a dedicada às visitas a cidades e lugares do seu tempo e uma terceira, mais recente, Alix Senator, retratando-o já na meia idade – é, juntamente com Murena, e a série televisiva Roma (outro caso de sucesso), uma das referências de muitos dos desenhadores que continuam a revisitar a velha capital que foi o centro do mundo ocidental.

Curiosamente nem só de novatos se faz a legião dos autores de novas séries. E uma delas teve mesmo um veterano como figura tutelar. Tratava-se de Gilles Chaillet (1946-2011), antigo colaborador de Jacques Martin em séries como Lefranc e Les Voyages d’Alix e criador da série Vasco (inicialmente apresentada no Le Journal de Tintin), um herói basco do século XIV. Roma foi contudo sempre a paixão maior de Chaillet, que tanto a expressou através dos trabalhos associados a Alix como no díptico Vinci ou no livro Dans La Rome des Césars, no qual recua à velha capital imperial para, bairro a bairro, a recriar em desenhos.

Já incapacitado de desenhar, Chaillet lançou, nos seus últimos anos de vida, a ideia de base para uma série que retratasse a história de Roma através de alguns episódios, cada qual projetado numa etapa distinta da história. La Malédiction, com texto assinado por Éric Adam, Pierre Bosserie e Didier Convard e desenhos de Régis Penet, com cores de Nicolas Bastide, estreou a série em 2015, levando-nos mais atrás no tempo até ao ano 1250 a.C., procurando na lenda da estátua que atribuiria vida eterna à cidade de Roma (daí o seu cognome) a peça central de uma narrativa que acompanha o cerco e queda de Tróia. Tomando como protagonistas o Aquilon e o general Leonidas, mais as duas misteriosas figuras que um dia irrompem pelos portões da cidade sitiada, a narrativa junta como elementos igualmente fulcrais a estranha estátua de olhos vendados assim como o mítico cavalo que abrirá as portas à queda da cidade perante as forças gregas.

A personalidade clássica do traço de Penet, que aceita a escola de rigor na reconstituição dos cenários que era tão cara a Gilles Chillet, inscreveu essa primeira parte da série no veio de uma velha tradição de narrativas históricas. Tal como sucede na série Murena nota-se ali uma preocupação em contextualizar historicamente o que aqui vemos e lemos, num apêndice de oito páginas assinado por Bertrand Lançon, professor de História Romana na Universidade de Limoges. Uma ideia que se manteve nos volumes dois e três, que surgiram entretanto nas lojas.

Mantendo a mesma equipa de argumentistas (que atravessa toda a série), coube ao italiano Luca Erbetta a criação do desenho no segundo volume. Vaincre ou Mourrir, com ação que decorre no ano 271 a.C., tem como cenário um tempo de confronto entre cartagineses e romanos e o general Aníbal, naturalmente, como um dos protagonistas. A história explora uma trama de traição mas coloca uma vez mais a pequena estátua no curso dos acontecimentos, o seu poder transcendendo sempre o dos homens, como que guardando em si a chave de um futuro que estava já determinado.

Já o terceiro volume, com desenho de Annabel, foca a narrativa nos dias em volta do assassinato de Júlio César, em 44 a.C. forçando já de forma excessiva a conspiração dos senadores contra o general romano como estando ao abrigo da pequena estátua. Se em Tróia ou frente aos cartagineses a intrusão deste elemento de ficção parecia bem oleada, aqui sente-se um permanente choque entre a fantasia e a busca de caução num realismo visual e factual, resultando neste o volume claramente menos interessante dos três já publicados.

Face ao volume um, sob magnífico trabalho no traço detalhista de Penet e belíssimo trabalho do colorista Nicolas Bastide, os volumes dois e três revelam sinais de presença autoral no traço. O de Erbetta é claro, atento ao detalhe que insiste numa lógica realista (numa entrevista à dBD chegou a explicar que procurou quais eram os edifícios existentes na Roma de então e que passou horas a tentar compreender como caía do corpo a toga que os patrícios usavam), e recebeu belo trabalho do colorista Gaétan Georges, em conjunto assinalando uma personalidade visual que distingue este dos demais volumes. Annabel, que parece herdeira de memórias antigas de Martin, contrasta sequências em espaços de complexa elaboração com imagens onde os fundos parecem mais minimalistas. Só não a ajuda, além do argumento menos feliz, um registo mais luminoso e menos contrastado aplicado pelo colorista Filippo Rizzu, o menos dramático dos volumes já apresentados.

Esta visão de Roma já vai a mais de meio caminho. Mas para concluir a história da cidade e da pequena estátua faltam ainda dois volumes. O quarto, La Chair de Mon Sang, com ação no ano 39. O quinto, La Peur ou L’Illusion, no ano 326.

Chaillet, Adam, Boisserie e Convard, com:

Penet
“Roma – 1. La Malédition”
Erbetta
“Roma – 2. Vaincre ou Mourrir”
Annabel
“Roma – 3. Tuer César”

Todos, edições da Glénat, com capa cartonada.

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