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A acidez da cura

Texto: ANDRÉ LOPES

O sexto álbum de Beyoncé é-nos servido em regime audiovisual, com uma longa-metragem que auxilia na apreciação daquela que é uma obra em igual parte catártica e terapêutica. Tão pessoal quanto política.

Quando, em 2013, Beyoncé surgiu subitamente online houve muito por distribuir atenções: na ausência de pré-aviso sobre o lançamento do álbum, na possível reconstrução do paradigma da industria discográfica, por cada um dos telediscos que acompanha cada uma das faixas do alinhamento ou – eventualmente o mais significativo – no talento e versatilidade patente em canções como Haunted, Blow, Partition ou ***Flawless. Entre um dietético manifesto feminista e o melhor disco de Beyoncé até então, referimo-nos ao primeiro álbum homónimo da artista como um marco indiscutível na música de 2013 e, sim, da década.

Lemonade é diferente. Muito pouco aqui remete para a tal odisseia em modo caleidoscópico onde, em função da faixa escolhida, escutávamos as heranças de Michael Jackson, Prince, Bobby Brown, Aaliyah ou Pharrell Williams. Lemonade chama para junto de si um conjunto diversificado de influências que se revelam certeiras como veiculo para uma mensagem drasticamente singular, mas tão universalizável.

A longa-metragem que acompanha o disco prescinde do regime de sequência de telediscos em prole de uma fluidez narrativa que, inegavelmente estilizada, exibem o principal mote de Lemonade enquanto obra audiovisual: um arco narrativo que explora a vivência da mulher negra na América, em paralelo com uma premissa pós-traumática sobre adultério. E se a veracidade da infidelidade em questão tem sido posta em causa, a opressão vigente que continua a fragilizar a expressão feminina é algo fácil de testemunhar. Felizmente, a proposta de resistência oferecida via Formation ou Freedom garante duas das canções mais robustas do alinhamento: uma mescla de ritmos trap que não temem outras eletrónicas e, no segundo caso, uma quase marcha onde cabe gospel e também Kendrick Lamar. Dois momentos realmente triunfais que ainda assim surgem somente após um conjunto de faixas que problematizam os transtornos da infidelidade conjugal e o respetivo processo de cura. Com o último Vulnicura (2015) de Björk, a linguagem da música popular soube realinhar-se para renovar a forma como uma separação pode ser encarada – e musicada. Lemonade nunca é tão fúnebre, mas antes vingativo.

O melodrama não se faz esperar e acontece francamente da melhor maneira possível: Pray You Catch Me, escrita com James Blake, traz os maneirismos do músico inglesa para uma canção focada na desconfiança e na suspeita. A cadência descompassada de teclas que James Blake (2011) tão bem trabalhou surge aqui dando corpo a um dos momentos mais invulgares da discografia de Beyoncé. Hold Up convoca uma musicalidade bem sóbria de dancehall que contraste com o exaspero das letras onde se inclui uma passagem adaptada de Maps dos Yeah Yeah Yeahs. Com Don’t Hurt Yourself a fúria torna-se explícita, e se já a ouvimos fragilizada uma série de vezes, a forma como Beyoncé se expressa aqui em todo o disco garante a quem ouve alguns relances de uma outra humanidade, que até então não se tornara explícita no repertório da artista.

Sejam reações honestas ou antes ensaiadas, este é um voyeurismo artístico com o qual compactuamos em prole das canções. Não encontramos nada de estanque ou enfadonho no alinhamento deste álbum: o propósito cumpre-se na totalidade. Somos plenamente entretidos pela experiência de um alinhamento assente no ultrapassar de fragilidades violentas. 6 Inches e Daddy Lessons são consecutivas apesar das suas diferenças drásticas – a primeira é absolutamente febril, cita Animal Collective e reduz The Weeknd a uma só estrofe. Na segunda há jazz e uma guitarra acústica tão sulista como a infância de Beyoncé.

Lemonade é um triunfo pelo impacto da sua mera existência enquanto obra que alegadamente explora o que de pior terá acontecido num dos casamentos mais mediatizados dos últimos anos, mas também pelo dinamismo que escutamos num conjunto de canções que rejeitam formatar-se de acordo em qualquer “molde” que vigore atualmente sobre o RnB.

Beyoncé
“Lemonade”
Sony Music
★★★★

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