Últimas notícias

As asas do desejo

Texto: NUNO CARVALHO

“Asas” (1966), de Larisa Shepitko (1938-1979), é uma amostra da mestria de uma cineasta que permanece um dos nomes mais injustamente não reconhecidos da história do cinema

Figura carismática do cinema soviético das décadas de 60 e 70, Larisa Shepitko começava a tornar-se notada na cena internacional quando sofreu, em 1979, aos 41 anos, um acidente de automóvel fatal que precocemente lhe pôs termo à vida. Na verdade, a cineasta de origem ucraniana permanece um dos nomes mais injustamente não reconhecidos da história do cinema, tendo em conta a mestria da sua curta mas fulgurosa obra. Dos quatro filmes que compõem a sua filmografia, Asas (1966), longa-metragem de estreia, é geralmente, a par de Ascensão (1977), considerada a sua mais importante realização. Shepitko é um caso de uma genuína artista que no seio da indústria cinematográfica soviética foi capaz de produzir uma obra ao mesmo tempo intimista e universal.

O filme centra-se em Nadya (Mayya Bulgakova), uma piloto de caça condecorada cujo serviço cessou abruptamente na sequência de um ferimento, e que duas décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial trabalha como diretora numa escola profissional frequentada por jovens adolescentes. Uma ocupação que se revela frustrante e insatisfatória pelo seu carácter administrativo e burocrático, que contrasta com o risco mas também a liberdade de pilotar aviões. Nadya mantém uma ligação com alguns ex-colegas e amigos, visitando a base aérea com frequência para não perder o contacto com a sua atividade de eleição, entretanto tornada uma memória nostálgica de um passado de cujo privilégio foi destituída pela força do destino. Qual político que não soubesse viver fora do poder, Nadya vive a suave depressão da meia-idade, para a qual concorre naturalmente também a sua condição de peixe fora de água (ou, no caso, “pássaro engaiolado”).

Asas é um estudo de personagem subtil e com um olhar agudamente observador. Mayya Bulgakova interpreta com empenho e fluidez uma mulher séria e austera que se encontra numa situação existencial de ambivalência. No fundo, Nadya procura conciliar a memória do seu passado ilustre com a realidade monótona e tediosa do seu presente. Porém, apesar de convocar o tema de uma heroína de guerra esquecida, o tom dominante do filme de Shepitko é sempre ambíguo e nunca declaradamente pessimista. De resto, o final aberto e lírico é o mais forte dos símbolos desse gesto que não deseja precipitar nada nem fechar-se em conclusões deterministas, embora também não queira jamais vender-nos a falácia de soluções “redentoras” e “otimistas” como aquelas que nos propõe a indústria de vendedores de ilusões (ou seja, toda a atual cultura psi, muitas vezes apoiada pelo alastrante mas enganador mundo da “autoajuda”).

“Asas” passa hoje e amanhã no Espaço Nimas, em Lisboa, integrado no Ciclo Grande Cinema Russo – do Mudo à Perestroika (13.45, 15.45, 17.45, 19.45 e 21.45)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: